sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Tony Curtis

Morreu Tony Curtis. Muitos críticos o consideravam apenas um rosto bonito, ou um bom comediante. Ele foi muito mais que isso. Como comediante possuia a capacidade de se auto-parodiar, de brincar com sua imagem de galã. Isto fica visível, por exemplo, em "Anáguas a bordo"(1961), de Blake Edwards, no excepcional "Médica, bonita e solteira"(1964), de Richard Quine e, claro, na obra-prima absoluta da comédia americana, "Quanto mais quente melhor"(1959), de Billy Wilder. Neste filme, aliás, Curtis exibe todo seu repertório, já que pode-se dizer que ele interpreta 3 papéis: o do músico malandro que foge dos gangsters, a saxofonista da banda feminina e o milionário que se finge de impotente para conquistar Marilyn Monroe. Este último inspirado em Cary Grant, seu ídolo. Curtis convence nos três papéis.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.