quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Wellman mostra o outro lado do sonho americano

Quando se fala na era de ouro do cinema americano, entre as décadas de 30 e 50, o termo deve ser relativizado. Isto porque , dos cineastas que ajudaram a construir essa era, poucos eram americanos "da gema". Charles Chaplin,John Ford, Alfred Hitchcock, William Wyler, Frank Capra, Billy Wilder, Douglas Sirk, entre outros, todos esses eram europeus, na maioria fugidos do nazismo. É certo que o aparato técnico dos estúdios hollywoodianos os ajudaram muito, mas a sensibildade artistica européia falou mais alto. Essa mistura entre o pragmatismo americano e a sensibilidade do velho continente é um dos motivos do cinema americano ter sido tão forte nesse período. Mas os americanos "autênticos" também tiveram sua parcela de contribuição. Howard Hawks, Robert Aldrich, Nicholas Ray, George Cukor, George Stevens também foram importantíssimos na era de ouro do cinema americano. Entre estes também se destacou William Wellman, ativo desde a era muda. Em seus melhores trabalhos, Wellam virou o sonho americano do avesso. As pessoas de bom coração, que começam a vida pobres e ascendem socialmente, encontrando conforto financeiro e a tão sonhada felicidade. Esse é o caminho que percorre o personagem interpretado por James Cagney em "Inimigo público" (1931), com um pequeno detalhe: Cagney era um violento gângster. Começou por baixo, como um capanga, ainda pobre e atingiu o "auge" abrindo seu caminho a bala.
Essa também é a trajetória da interiorana Ester Blodget de "Nasce uma estrela" (1937). Cheia de sonhos, ela chega a Hollywood esperando se tornar uma estrela da noite para o dia. Pasta um pouco, mas acaba alcançando seu objetivo. O "american dream" se realiza. Mas dura pouco. Ela logo percebe a artificialidade de tudo aquilo, as mentiras que o departamento de publicidade conta aos jornais para promover os astros, o reinado da aparência etc. E ,ainda por cima, seu casamento com o astro decadente e alcoólatra interpretado por Fredric March transforma o sonho dourado em pesadelo grotesco.
No entanto, a porrada mais forte que Wellman desferiu contra a ilusão de prosperidade e felicidade de seu país foi com o faroeste "Consciências mortas" (1943). O filme conta a história de um grupo de "cidadãos respeitáveis" de uma típica cidadezinha americana, que pega em armas para ir atrás de três amigos que eles julgam ser os responsáveis pela morte de um fazandeiro local. O bando os acha, fazem um "julgamento" de mentirinha e os enforcam, para depois descobrir que, não só, eles não eram os responsáveis pelo ataque ao fazandeiro, como, também, este ainda estava vivo. Mas já era tarde.
A obra de William Wellam precisa ser revista urgentemente, talvez numa retrospectiva, como as que o CCBB tem feito de cineatas como Vincente Minnelli e Nicolas Ray.