segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O meu Corinthians

Sei que este é um espaço prioritariamente sobre cinema, mas com a aproximação do centenário do Corinthians não resisti, como corintiano há 31 anos, a fazer uma seleção dos 11 melhores jogadores do Timão que eu vi jogar. É claro que sei a importancia de jogadores como Luizinho, Rivelino, Sócrates, entre outros, mas, como infelizmente não os vi jogar, não irei citá-los na minha seleção.
Aí vai:
Ronaldo
Giba
Marcelo
Gamarra
Kleber
Rincón
Vampeta
Neto
Marcelinho Carioca
Tevez
Ronaldo

domingo, 22 de agosto de 2010

A guerra por dentro

Em 1998 Steven Spielberg causou comoção no público e na crítica com os famosos 45 minutos iniciais de "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan). Realmente a reconstituição do desembarque aliado na Normandia e a batalha que se seguiu foi impressionante. Mas, passados os 45 minutos, ficamos ainda um pouco artodoados com as imagens que acabamos de assistir e depois esquecemos. Spielberg não soube manter o mesmo impacto durante o restante do filme. Quando acabamos de ver o filme, ele termina na projeção, ou seja, ele não nos acompanha depois, não fica na nossa cabeça ( com exceção dos primeiros 45 minutos). Ocorre exatamente o oposto em "Capacete de aço" (The steel helmet), mais uma das obras-primas de Samuel Fuller. Neste, quando o filme termina, ficamos pensando, entre outras coisas, na estupidez do Homem.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um caso raro no cinema

Raras vezes, na história do cinema, uma refilmagem é tão boa quanto o original. Só consigo me lembrar de "Cabo do medo" (Cape fear, 1993), de Martin Scorsese, que refilmou "Círculo do Medo", de J.Lee Thompson, de 1962. Scorsese conseguiu, inclusive, em alguns aspectos, melhorar o clássico de Thompson. Mas fora esse, não me lembro de nenhuma refilmagem que sequer se comparasse ao original.
Além de Scorsese, outro que conseguiu esse feito, alguns anos antes, em 1983, foi Brian De Palma com sua releitura de "Scarface, a vergonha de uma nação" (1932), clássico absoluto de Howard Hawks, protótipo de todos os filmes de gângster, desde 'O poderoso chefão" até "Inimigo público".
Na essência os filmes não têm grande diferença entre si. Ambos contam a história de um criminoso (Tony Camonte de 1932, Tony Motana, na refilmagem) que começa de baixo e vai abrindo caminho a bala na hierarquia do crime organizado, até se transformar no "poderoso chefão" do tráfico de bebidas alcoólicas, na obra de Hawks (estamos em Chicago na época da Lei seca) e de cocaína no filme de De Palma. Nos dois filmes, também, o Scarface do título (chamado assim por causa de uma cicatriz no rosto) envolve-se com a namorada do patrão (Karen Morley no original, Michelle Pheiffer no remake). E o fato mais comentado das duas versões: a relação incestuosa que Tony mantém com a irmã, relação esta travestida de um ciúme doentio, mas que nas entrelinhas fica muito clara a real situação, principalmnte ele em relação a ela. A irmã chama-se Cesca no primeiro filme e é interpretada por Ann Dvorak; na refilmagem ela recebe o nome de Gina e é representada por Mary Elizabeth Mastrantonio.
Já os atores que interpretam o celerado criminoso o fazem quase da mesma maneira: Paul Muni no primeiro e Al Pacino no segundo. Ambos retratam um bandido extremamente seguro de si, arrogante, que zombam da autoridade, e é claro, extremamente violentos. Ambos também são imigrantes, Muni,da Itália; Pacino, de Cuba. Parece que na visão dos americanos, a instalação do crime na América nunca vem de dentro, dos prórios americanos, mas sempre de fora, dos imigrantes.
Falando um pouco da obra de 1932, é incrível como o filme conseguiu passar pela censura. Hoje, parece banal, mas para a época, com certeza, era um filme violentíssimo. Há várias cenas com rajadas de metralhadoras disparadas em lugares públicos. Repare na cena quando Muni consegue, pela primeira vez, adquirir metralhadoras. Ele experimenta um prazer quase sexual tocando nelas. Há também a relação com a irmã. No momento em que Tony mata George Raft, seu braço direito, por puro ciúme, antes de descobrir que ele se casou com sua irmã, a reação de Cesca é de revolta. Na cena seguinte, enquanto Tony está arrependido de seu ato, Cesca entra na sala para matá-lo. Mas, no momento em que ela ouve a polícia chegando, o sangue, ( a paixão ?) fala mais alto e ela passa a lutar ao lado do irmão. É quase como se ela estivesse, finalmente, entregando-se a ele. Nesse sentido, Hawks conseguiu ser mais ousado que De Palma..
Finalmente, os dois filmes refletem o estilo de seus diretores. O "Scarface"de Hawks é seco, direto, enxuto, sem enrolações nem grandes dramaticidades. O de De Palma é cheio dos malabarismos técnicos com a câmera que o diretor adorava. E as cenas são mais grandiosas, nada da simplicidade hawksiana ( a famosa "câmera na altura dos olhos"). Uma cena, semelhante nos dois filmes, resume a diferença entre os dois grandes cineastas: o já citado assassinato do braço direito de Tony, que ocorre nos dois filmes, por ciúmes da irmã. Hawks encena de modo muito simples: a campanhia toca, Raft atende; corte para Cesca, que faz uma cara amedontrada; tiros, Raft cai ao chão. Já DePalma, na mesma cena, quando a campanhia soa, uma música clássica começa a tocar, câmera lenta, Tony dispara, Manny Ribera cai lentamente ao chão. Desespero de Gina. Parece uma ópera ! As duas cenas são belíssimas.
Assim, as duas versões são muito boas. Mas, se eu fosse obrigado a escolher uma, escolheria a de Hawks.