quinta-feira, 31 de março de 2011

Farley Granger

Depois de Elizabeth Taylor foi a vez de Farley Granger (1925-2011) nos deixar. Embora nunca tenha sido um astro, o ator trabalhou em filmes importantes, principalmente nos dois dirigidos por Alfred Hitchcock, as obras-primas "Festim diabólico" (1948) e, principalmente, "Pacto sinistro" (1951).
Também atuou sob a batuta de Nicholas Ray ("Amarga esperança") e Luchino Visconti ("Sedução da carne").
Em "Festim diabólico", Granger fazia o mais frágil dos dois jovens estudantes que matavam um colega apenas para ver "como era". Segundo eles, o rapaz morto era um ser inferior, portanto, não merecia continuar vivendo. Há uma clara conotação homossexual na relação dos dois. Desde o começo, parecia que o personagem de Granger não queria tomar parte no intento, mas , como era muito fraco, foi dominado por seu parceiro e levado a cometer ao crime. A medida que o filme vai se desenrolando, ele vai aos poucos cedendo à culpa e ao arrependimento. É um belíssimo trabalho de interpretação.
Em "Pacto sinistro" ele faz um famoso tenista que encontra um lunático num trem que lhe propõe uma troca de assassinatos: Granger mataria o pai de Robert Walker ( o lunático) e este eliminaria a esposa do outro, que não quer lhe dar o divórcio. Granger pensa que o excêntrico rapaz está brincando, mas não está. Embora Robert Walker roube a cena, Granger consegue segurar muito bem seu papel.
Enfim, embora nunca tenha sido um astro de primeira grandeza, pelos dois filmes que fez com Hitchcock, além dos trabalhos com Ray e Visconti, entre outros, Farley Granger terá para sempre um lugar na memória dos cinéfilos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Liz Taylor

Não vou dizer que Elizabeth Taylor (1932-2011) foi uma das mais belas mulheres da história do cinema. Isto é óbvio. Tampouco vou falar sobre sua conturbada vida pessoal, seus oito casamentos, as inúmeras doenças, a fama de "destruidora de lares" etc. Isto não me interessa nem um pouco. O que importa para mim é o fato de que Liz Taylor foi uma atriz talentosíssima, e que trabalhou em filmes muito importantes para o cinema. Foi dirigida por alguns dos mestres da sétima arte. Só para citar alguns: George Stevens, Joseph L. Mankiewicz, Joseph Losey, Richard Brooks, Mike Nichols, Vincente Minnelli, entre outros. Entre os atores e atrizes com os quais contracenou figuram, entre outros : Spencer Tracy, Marlon Brando, Montgomery Clift, Paul Newman, James Dean, Rock Hudson, Robert Mitchum, Richard Burton, Katherine Hepburn. O que mais se poderia querer ?
Taylor foi daquelas mulheres que nasceram para o cinema, dava a impressão de que esta arte foi inventada apenas para que ela brilhasse. Tinha a chamada "star quality", talvez só se rivalizasse, neste aspecto, com Marilyn Monroe.
Os momentos inesquecíveis de Liz Taylor na tela do cinema são muitos. Vou citar os que me marcaram mais:  em "Um lugar ao sol",  na cena em que ela entra na sala de bilhar na qual Montgomery Clift está jogando, a câmera corta para o seu rosto e ela solta a expressão "uau" e dá um belo sorriso; em "Gata em teto de zinco quente", quando ela tenta seduzir o marido Paul Newman esticando suas meias; a aparição com o maiô branco transparente em "De repente no último verão"; a entrada triunfal em Roma em "Cleopatra"; no subestimado "O pecado de todos nós", quando ela chicoteia o marido Marlon Brando numa festa. Enfim, são muitos.
Elizabeth Taylor ficará para sempre marcada na hisória do cinema. Infelizmente, sempre vão ter aqueles que irão preferir se lembrar de seus casamentos, ou de seus problemas de saúde. Eu sempre me lembrarei dela por seu grande talento e pelos importantes filmes que  protagonizou.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Beatles e Hitchcock

Não é novidade nenhuma que a carreira da maior banda de Rock de todos os tempos, os Beatles, divide-se em duas fases. Embora a maioria da crítica e dos fãs aponte "Sgt Peppers lonely hearts club band" (1967) como o marco divisor na carreira do grupo, eu considero o anterior "Revolver" (1966) como o verdadeiro divisor de águas da banda. Na verdade, a mudança já havia se esboçado em "Rubber soul" (1965). "Sgt Peppers pode ser considerado, então, o ápice da mudança radical que se operou no conjunto. Antes dele, os Beatles faziam rock´n roll puro, com baixo, guitarra e bateria, músicas de três acordes, letras ingênuas de amor e melodia fácil. Eram músicas divertidas, vigorosas, mas que não davam conta totalmente do talento de John, Paul, George e Ringo. A partir de Rubber soul, começando com Revolver e atingindo o topo em Sgt Pepers, os Beatles deram uma guinada em sua carreira, com músicas mais complexas, utilizando outros instrumentos, como o Sitar indiano, compondo letras mais ricas poeticamente, até surreais, enfim, atingiram um nível de excelência que dificilmente será igualado na história da música.
O mesmo ocorre com o cienasta inglês Alfred Hitchcock(1899-1980). Sua carreita também divide-se em duas fases: a fase inglesa (1922-1939) e a fase americana (1940-1976). Assim como o grupo britânico, considera-se a fase inglesa da carreira de Hitchcock uma espécie de aprendizado. Seus filmes, neste período, eram leves, divertidos e quase não tinham nuances psicológicas. Assim como a mudança nos Beatles se esboçou em Rubber soul, iniciou com Revolver e atingiu o ápice em Sgt peppers, pode-se dizer que com o diretor inglês a mudança se esboçou com "The Lodger "(1927), começou com "Chantagem e confissão" (1929) e atingiu o ápice em "Os 39 degraus" (1935) (alguns críticos dividem a obra do cineasta britânico em 3 fases : a fase muda, a inglesa e a americana. Eu acho que a fase inglesa engloba também as obras mudas). A partir daí, o brilhante realizador, como os Beatles, começou a produzir obras mais complexas, com mais nuances psicológicas e com muitos mais recursos, aproveitando a aparelhagem que Hollywood proporcionava.
Enfim, além do fato de ambos serem britânicos, Beatles e Hitchcock também compartilham dessa curiosidade de terem suas carreiras claramente divididas numa prmeira e segunda fases, sendo esta uma evolução daquela. Convém lembrar também que ambos já davam sinais, em suas primeiras fases,de que algo a mais estava por vir. Por exemplo, na fase "ingênua" , Paul McCartney compôs uma obra-prima como "Yesterday"(1965). Hitchcock, por outro lado, na fase inglesa, relizou um filme muito complexo chamado "Sabotagem"(1936).

Em suas respectivas artes, música e cinema, eles representam o ponto mais alto a que se pode chegar. E ainda ninguém chegou nem perto.

terça-feira, 8 de março de 2011

William Wyler

Não deve haver cineasta mais desprezado atualmente que William Wyler(1902-1981). Parece que os críticos sentem um prazer incontido em menosprezar o diretor de "Ben-Hur". Por que ? Há 50 anos , Wyler era sinônimo de qualidade, de bilheteria. Passou pelas décadas de 40 e 50, principalmente, entre os mais requisitados diretores de Hollywood. Seu estilo era clássico, limpo, sem invenções. Talvez seja por isso que os críticos "moderninhos" o desprezam. Porque ele não quer reiventar o cinema a cada cena. Se contenta em contar uma boa história, da maneira mais clara possível, usando as ferramentas da arte cinematográfica. E o modo como ele usa essas ferramentas é muito eficaz, dando conta de uma cena complexa com muita simplicidade. O que deve deixar seus detratores com muita inveja, pois são incapazes de verem a beleza e a eficácia da simplicidade. Para esses críticos, o cineasta tem que ser "inovador", "revolucionário". O deus deles deve ser Lars Von Trier, uma enganação sem tamanho. Cineasta que gosta de "chocar".
Dois exemplos da "beleza da simplicidade" empregadas por Wyler: em "Os melhores anos de nossas vidas" (1946), na cena em que Frederic March retorna para casa depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial. Vemos sua esposa, Myrna Loy, e sua filha fazendo as rotineiras tarefas domésticas. A campanhia toca, a filha vai atender. Ela nem tem tempo de emitir um som, o pai tampa a boca da filha para que a esposa não perceba que ele chegou. A mulher pergunta quem é, a filha não responde. Vemos apenas as costas de Myrna Loy, que para imediatamente de enxugar os pratos, ela vira, a câmera se afasta, March vai correndo em sua direção e se abraçam. Simples, sem invenções, uma cena belíssima, que Lars Von Trier nunca teria condições de realizar. Outro exemplo da arte de William Wyler é a briga entre Gregory Peck e Charlton Heston em "Da terra nascem os homens" (The big country, 1957). Vemos apenas dois vultos trocando socos na imensidão de uma paisagem típica do velho oeste. Para não citar outros exemplos belíssimos, como a morte de Herbert Marshall em "Pérfida"; o reencontro entre Ben-Hur e Messala em "Ben-Hur"; a cena da sedução entre Samantha Eggar e Terence Stamp em "O colecionador", entre outros.
Os filmes de Wyler vão ser sempre lembrados pelos fãs de cinema quando se falarem em filmes clássicos. Será que se pode dizer o mesmo do "queridinho" da crítica, Lars Von Trier ?