segunda-feira, 28 de junho de 2010

Que horror !

Terminei de ler um dos piores livros da minha vida, "O fio da navalha", de W.S.Maughn. Não entendo como esse romance tem tanto cartaz. É chatíssimo. Personagens desinteressantes, narrativa frouxa, um tédio só. Assim que começo a ler um livro, ou assistir um filme, sempre vou até o fim, não importa quão chato esteja. E "O fio da navalha" é muito, muito chato.
Não vi o filme baseado no romance, dirigido por Edmund Goulding em 1946, mas tenho certeza que é melhor que o livro. Goulding era um bom diretor, e ainda por cima, o filme conta com a presença da maravilhosa Gene Tierney. Ingredientes suficientes para se prefereir, mesmo sem ter visto, o filme ao romance.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A força da simplicidade

Em "O bígamo" (The bigamist, 1953) um comerciante bem sucedido e bem casado envolve-se num romance em uma de suas viagens de negócios. Sua esposa decide adotar uma criança, pois ela não pode ter filhos. Enquanto isso, a amante engravida e ele acaba preso por bigamia.
Esta história é um prato cheio para um diretor menos capacitado colocar toneladas de música lacrimosa, cenas abundantes de choro e desespero, discussões acaloradas, até o grande verdicto final. Mas a história caiu nas mãos de Ida Lupino e a diretora fez um trabalho surpreendente. Nada do que esperamos ver em um enredo desse tipo acontece. A música é discreta, os atores são contidos. A estrutura do filme é muito simples, sem exibicionismos de natureza alguma. O tratamento dado aos personagens também impressiona pela discrição. Quando Joan Fontaine ( a esposa "oficial") descobre a traição do marido Edmond O´Brien, ela não faz um escarcéu. Fica triste, chora, mas tudo de forma contida. Do mesmo modo, a segunda esposa, a própria Ida Lupino , quando fica grávida, não faz o gênero megera, obrigando O´Brien a casar-se com ela. É ele, aliás, que insiste para que se casem. Quando, por um acaso, Lupino vê o casal andando na rua e depois o confronta, a cena não tem gritaria, nem objetos voando pela casa e se quebrando de forma estripitosa. Tudo é muito discreto, sem ênfase.
Na cena final, no tribunal, Edmond O´Brien não é apresentado como um monstro sem coração, aproveitador de duas mulheres inocentes. Nós, os espectadores, não sentimos raiva dele, e o que é mais surpreendente, as duas mulheres também não. Olham para ele como se fosse uma criança que fez uma travessura, uma grande travessura, mas sabem que na verdade ele é um bom garoto. Sem acusações, sem discursos inflamados de advogado e promotor, tudo é dito no olhar dos três atores, por sinal, excelentes atores.
Mas a maior ousadia da diretora foi terminar o filme de forma aberta. O juíz diz que o veredicto sairá dali a um semana. Os espectadores ficam esperando qual será a setença, e de repente o filme termina. Lupino não quer saber o que a sociedade pensa, importa apenas o que os três envolvidos sentem e isso ela já havia mostrado no tribunal. É a única sentença que importa.
Antes de se tornar diretora, Ida Lupino já era uma atriz de grande talento, tendo participado de importantes filmes, como "Seu último refúgio", de Raoul Walsh, "Cinzas que queimam", de Nicholas Ray, "A grande chantagem", de Robert Aldrich, "No silêncio de uma cidade", de Fritz Lang, entre outros. Como diretora, sempre realizou filmes indepedentes, na companhia que fundou junto com o marido. Isto lhe permitiu certa liberdade para dirigir os filmes da forma que quisesse. Abordou temas ousados para a época, como o estupro e o aborto. Infelizmente a companhia não teve lucro e ela foi obrigada a se voltar para áreas mais comerciais a fim de poder continuar trabalhando. Foi quando dirigiu episódios de séries de televisão como "Bonanza", "Os intocáveis", "Big Valley", entre outros.
No entanto, a marca que deixou em filmes como esse "O bígamo", garante para ela um lugar especial na galeria dos grandes cineastas americanos. Infelizmente seus filmes ainda são muito raros, tanto na televisão como em dvd. Esperamos que essa lacuna seja reparada logo e que seus filmes comecem a ser lançados.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Aurora": a beleza em forma de filme

Será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora"?(Sunrise, 1927) ? Dirigido por um dos mais importantes cineastas da sétima arte, o alemão F.W.Murnau, em sua estreia nos EUA, o filme é ainda do período mudo, mas é tão bom que nem nos damos conta disso. O enredo é simples: George O´Brien é um rapaz do campo, casado com Janet Gaynor ( ganhadora do Oscar por sua interpretação), que é seduzido por uma mulher da cidade. Ela o convence a matar sua esposa e ir embora com ela. Mesmo hesitante ele aceita a proposta, mas na hora H recua. Sua esposa foge desesperada, ele a alcança e depois de muito esforço faz as pazes com ela. Os dois, então, passam um dia inesquecível, divertindo-se como nunca antes. Na hora de voltar para casa, no mesmo barco no qual ele tentou assassiná-la, desaba uma violenta tempestade, o barco vira. Os dois acabam se salvando e o filme termina com a aurora do título. O filme acaba, mas o amor deles recomeça mais forte do que nunca.
Contando a história assim, ainda por cima sem som, tem-se a impressão de que é um filme monótono, sem graça. Puro engano. Murnau enche a tela de imagens lindíssimas. Longe, no entanto, de serem meramente decorativas, elas tem uma força expressiva impressionante. Só para citar duas cenas memoráveis: a primeira, quando eles estão no barco e vemos o olhar atormentado de O´Brien preparando-se para praticar o assassinato. Toda a sequencia no barco, com o cachorro soltando-se da corrente e pulando na água ao encontro de sua dona, percebendo instintivamente o que está para acontecer, até o momento em que Gaynor, de mãos juntas em oração, suplica ao marido que não a mate e ele finalmente desiste, é uma aula de direção cinematográfica; a segunda cena inesquecível é quando O´Brien e Gaynor fazem as pazes. Os dois caminham pelas agitadas ruas da metrópole e, de repente, se beijam. Subitamente, toda a confusão da cidade pára, os carros e as pessoas somem e o casal reconciliado encontra-se num campo verdejante, cheio de árvores e bosques, representando a paz que eles reencontraram. É o mais perto que o cinema chegou até hoje da representação da essência do sentimento amoroso.
O filme tem de tudo: drama, romance, comédia, suspense, aventura ( na sequencia da tempestade). Resumindo, Murnau filmou a vida, com suas alegrias e tristezas, surpresas e decepções. E filmou, sobretudo, o ser humano, com suas falhas e virtudes e com a possibilidade de uma segunda chance. O casal passa por todos os estágios da existência humana num único dia. E, no fim, eles renascem, para começar novamente o ciclo da vida. Só que, desta vez, eles estão mais sábios e vão saber desviar dos percalços no caminho. Não de todos, é claro, pois a vida sempre reserva surpresas, mas irão ter força suficiente para enfrentar tudo de cabeça erguida, sabedores que são de que depois de uma tempestade sempre vem a calmaria.
Murnau realizou outros filmes fascinantes. Só para citar duas de suas obras-primas, podemos lembrar de "Nosferatu" e "A última gargalhada", mas "Aurora" permanece imbatível.
Respondendo à pergunta do começo deste texto; será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora" ? A resposta é fácil: não, não existe.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Titanic: o choque dos mundos e a insignificância do Homem

A mais avançada tecnologia criada pelo homem não é páreo para a natureza. Esta é, em linhas gerais, a tese defendida por James Cameron em seu épico de 1997 "Titanic". À época de seu lançamento as qualidades do filme foram esquecidas por causa da febre Leonardo DiCaprio, que se apoderou de adolescentes em todo o mundo. Os críticos, de maneira geral, numa atitude esnobe, desprezaram o filme por causa da tietagem em cima do então jovem astro. É claro que alguns defenderam o trabalho de Cameron, mas não a maioria, pelo menos no Brasil. No entanto, passados mais de dez anos, já passou da hora de se valorizar esse belo filme que vai muito além de um romance lacrimoso e de uma audácia tecnica até então sem precedentes.
O pobretão Jack Dawson (DiCaprio) embarca no Titanic após ganhar uma aposta, encontra a pobre menina rica Rose DeWitter(Kate Winslet), os dois se apaixonam. Rose vai se casar com um milionário esnobe, interpretado por Billy Zane. O triângulo amoroso, mais que convencional, está montado. No entanto, ele é apenas um pretexto para Cameron falar do que realmente inporta na primeira metade do filme : a rígida divisão de classes dentro do luxuoso transatlântico, que, na realidade,acaba sendo um espelho da própria sociedade. Quando esses dois mundos se unem, no romance de Jack e Rose, ocorre a catástrofe : o Titanic choca-se com um iceberg e vai afundando aos poucos. Não há harmonia possível entre os de cima e os de baixo da pirâmide social. Um ponto de vista bem pessimista sobre o funcionamento do mundo. A união do rico com o pobre só pode provocar desastre. Perceba que o iceberg bate no navio exatamente no momento em que Rose decide fugir com Jack. É como se dissesse : não mexam na ordem natural das coisas, se não, a natureza se vinga. E vingou-se, realmente, matando mais de 1500 pessoas.
A segunda metade do filme, demonstrativa da afirmativa o "homem lobo do homem", com todos a bordo lutando entre si para sobreviver, mostra que embora a união dos mundos não seja algo pláusivel, não há muita diferença assim entre eles. No final, todos querem se sair bem, por quaisquer meios. Na hora da dificuldade esquecem-se noções de solidariedade e bondade.
Mas o que mais chama a atenão nessa segunda parte do filme é a estupefação do comandante e do engenheiro do Titanic. Crente que construíram um navio inafundável ,eles não acreditam no que vêem. A fragilidade do ser humano frente a natureza é realmente de se espantar. Pela nossa própria arrogância não percebemos isso, mas somos muitos pequenos, insiginificantes, frente a imensidão do universo.
Mas, é claro, para não deixar o espectador muito melancólico, Cameron, muito sabiamente, deu ênfase ao romance entre Leonardo DiCaprio e kate Winslet. Impossível de se concretizar, pelo menos neste mundo, mas com força suficiente para nos fazer acreditar que ainda é possível viver-se em harmonia neste mundo decadente e brutalizado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A verdade, nada mais que a verdade

Em "O estranho"(The stranger, 1946), de Orson Welles, o próprio diretor interpreta um pacato professor de História muma tranquila cidadezinha do interior americano chamada Harper. Seu nome "oficial" é Charles Rankin e apesar de ser considerado um tanto esquisito, arredio, ele é respeitado pela comunidade local. Tanto é respeitado que se casa com a filha do Magistrado local, Mary, interpretada por Loretta Young.
No dia do casamento chega à Harper o Sr.Wilson (Edward G.Robinson), que se apresenta como um colecionador de antiguidades. Ele ganha a confiança da família do juíz, especialmente do irmão de Mary, Noah, a quem ele conta que na verdade não é um colecionador de antiguidades, mas sim um detetive da Comissão Aliada Para Crimes de Guerra e está em Harper à procura de um nazista fugitivo chamado Franz Kindler. Wilson acredita que o pacato professor Rankin, na realidade, é Kindler, o nazista foragido.
Desde o começo do filme nós, os espectadores, já sabemos de tudo isso. Sabemos que Edward G.Robinson é um detetive e que Orson Welles é Franz Kindler. Mas o que interessa a Welles, como diretor, é mostrar que por trás das mais banais aparências esconde-se os mais sórdidos segredos. O professor Charles Rankin não tem nada de especial, é tímido, desajeitado, passaria desapercebido em qualquer lugar. E, ainda por cima, tem um hobby esquisito, ele é fanático por relógios. Quem iria prestar atençao num sujeito assim ? Certamente a polícia local nem iria pensar em investigá-lo. No entanto, por trás dessa máscara de normalidade esconde-se uma perversa mente nazista, que está se preparando para atacar de novo.
O hobby por relógios, por coincidência, também é o passatempo preferido do detetive Wilson. O tempo, portanto, é um dos temas principais do filme, e também, da obra de Orson Welles. Aqui, Kindler mexe nos ponteiros como se quisesse acelerar o tempo, para chegar mais rápido a época do tão sonhado domínio nazista. Todo o tempo livre, lá está ele, na torre da igreja, consertando o relógio. Em sua casa, também, ele está constantemente mexendo nos relógios espalhados pelos aposentos, como se o tempo fosse correr ao simples toque de seus dedos, como se fosse....Deus. É o que ele diz, aliás, ao final do filme, quando está acuado na torre da igreja e observa as pessoas lá embaixo.Ele fala que se sente como Deus observando tudo de cima.
Como Deus também se sentem Charles Foster Kane, o detetive Quinlan, e outros personagens da obra do autor de "Cidadão Kane".
Outro tema wellsiano abordado no filme é a busca pela verdade e a dificuldade em aceitá-la. Loretta Young não quer acreditar que se casou com um nazista, e até o último momento procura ajudá-lo de todas as formas. Na verdade, como o detetive logo percebe, não é tanto a revelação de que seu marido é um criminoso que a pertuba, é o fato de que ela se enganou tanto a ponto de amar um nazista que a deixa a beira de um ataque de nervos. Segura de suas convicções morais, filha de um respeitado juíz, ela não aceita o fato de que se deixou enganar tão facilmente. A verdade é difícil de se descobrir e de se aceitar na obra de Welles. Os personagens de "Cidadão Kane" passam o filme inteiro tentando descobir o segredo por trás do magnata da imprensa e não conseguem fazê-lo. Quando todo mundo pensava, ao final de "A marca da maldade"("touch of evil", 1958) que o detetive Quinlan fosse um tira corrupto, que plantava evidências para incriminar suspeitos que ele achava fossem culpados, descobre-se que, na realidade, ele acertara todos os palpites e os suspeitos eram realmente culpados. É claro que o comportamento truculento de Quinlan não ajudava em nada as pessoas a pensarem diferente. Novamente as aparências encobrindo a realidade, a verdade. Mas o que é a verdade ? Essa pergunta Welles nos faz de filme em filme, e o que ele parece querer dizer é que nunca iremos além da superficie das coisas, ou porque não temos capacidade para ir além, ou porque não queremos ir além, com medo de descobrirmos uma fraqueza em nós mesmos, como acontece com Loretta Young neste belo filme.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Billy Wilder e o humano ridículo

Se a obra de Billy Wilder falasse, ela diria : como o ser humano é ridículo ! Desde sua estreia como diretor em 1942 com "A incrível Suzana", até seu último filme "Amigos amigos negócios à parte" em 1983, Wilder nunca teve o ser humano em grande conta.
Para escapar de situações embaraçosas, ou para subir na vida, os personagens de Wilder fazem de tudo, por mais patético que seja. Em "A incrível Suzana", por exemplo, para pagar uma passagem de trem pela metade do preço, Ginger Rogers finge ser uma garotinha de 12 anos. Ela passa quase todo o filme segurando uma bexiga e chupando um pirulito (nos tempos politicamente corretos de hoje será que Wilder se safaria dessa ou iriam acusá-lo de pedofilia ?). Uma adulta fingindo ser criança para pagar menos por uma passgaem de trem ! Sim, patético, muito.
Quase sempre, em seus filmes, esta situação é levada como comédia (normalmente com diálogos maravilhosos),mas também, por vezes, é abordada de maneira séria e até trágica, como é o caso de "Pacto de sangue"(1943). Para colocar as mãos no seguro de vida de seu marido, Barbara Stanwyck planeja sua morte, junto com o corretor de seguros Fred Macmurray. A morte tem que parecer um acidente para que eles ponham a mão na bolada. Mas é óbvio que o plano falha e os dois acabam morrendo.
A personagem símbolo desse espetáculo do ridículo orquestrado por Wilder ao longo de sua obra é, sem dúvida nenhuma, a Norma Desmond de "Crepúsculo dos deuses"(1953), personificada por Gloria Swanson. Atriz da época do cinema mudo que se recusa a aceitar que seu tempo já passou, contrói um mausoléu particular no qual ela é o centro de tudo. Fora dali, no entanto, ninguém se lembra que ela existe. Quando alguém menciona seu nome, a outra pessoa invariavelmente diz: "Norma Desmond ? Ela já não morreu ?" Além de pensar que ainda é uma grande estrela, ela também se acha jovem e se comporta como tal. Nesse sentido, o gigolô interpretado por William Holden mata a charada quando diz:"Não há nada de errado em se ter 50, a não ser que se pense ter 20 ! Há muitas Normas Desmonds espalhadas por aí, inclusive aqui no Brasil, é só ligar a televisão...
Tom Ewell, em "O pecado mora ao lado"(1955) também tem seu quê de ridículo. Sozinho em seu apartamento depois de ter mandado a esposa e o filho para o litoral passar férias, ele se sente atraído pela nova vizinha do apartamento de cima, Marilyn Monroe. Atormentado, ele imagina toda a espécie de situação, como sua mulher descobrindo tudo e atirando nele e, também, para aliviar a "culpa", ele imagina sua própria mulher o traindo ! No entanto, nada acontece, Marilyn é apenas uma moça ingênua que nem sequer é consciente de sua sensualidade (Aliás, como Marilyn Monroe tinha jeito para comédia, impressionante ). Este filme diz muito mais sobre fidelidade, ou infidelidade, do que muitos outros pretensamente sérios sobre o mesmo assunto.
Mas a lista de personagens patéticos continua, e vai desde um escritor alcoólatra ("Farrapo Humano"), passando por dois homens vestidos de mulher ("Quanto mais quente melhor") até um funcionário subalterno que, para subir de cargo, se presta a emprestar seu apartamento para seu chefe manter encontros extraconjugais ("Se meu apartamento falasse").
E Billy Wilder mostra esse ridículo humano, não com tristeza, ou melancolia, mas com um sorriso nos lábios, colocando um espelho a nossa frente e dizendo :vocês não têm capacidade de resolver seus problemas de forma digna e honesta, mas, não vamos chorar por causa disso, afinal, ninguém é perfeito.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Huston é autor por blocos

Os "turcos" do cahiers du cinema, Truffaut à frente, detestavam John Huston, acusavam-no de ser um cineasta sem estilo pessoal definido. Ao contrário de Hitchcock, ou Lubitsch, ele não teria nenhuma característica, ou características, em especial, que o diferenciasse dos demais cineastas.
Estilisticamente isso até pode ser verdade. Huston não era dado a grandes arroubos tecnicos, mas, quanto ao conteúdo e aos personagens ele tem sim uma coerência. Veja-se, por exemplo, O falcão maltês (1941, sua estreia no cinema), O tesouro de Sierra Madre (1948) e O segredo das jóias (1950). Estes três filmes mostram personagens desesperados a procura de algo supostamente muito valioso, colocando a ambição pessoal acima de qualquer consideração moral. Em "O falcão maltês", o detetive Sam Spade (encarnado à perfeição por Humphery Bogart, que criou o arquétipo do detetive durão no cinema) e um punhado de personagens, literalmente se matam na busca pelo falcão do título, uma relíquia de valor incalculável incrustada de pedras preciosas. Quando finalmente ele é encontrado, trata-se de uma enganação, falso. Todo o esforço e as matanças foram em vão. Em "O tesouro de Sierra Madre", a busca pelo ouro nas montanhas mexicanas termina com todo o ouro encontrado sendo literalmente soprado pelo vento. Mais um esforço em vão. Finalmente, em "O segredo das jóias", o assalto a joalheria cuidadosa e meticulosamente planejado, acaba em morte ou em prisão para os envolvidos. Novamente, como diria Shakespeare, muito barulho por nada. Pode-se dizer que os temas principais desses três grandes filmes de Huston são a ambição e, principamente, a inutilidade do esforço.
Outro bloco de filmes que mostra que John Huston era sim um autor com uma visão de mundo particular, é o formado por "Paixões em fúria"(1948) "Uma aventura na África"(1951) e "O céu por testemunha"(1957). Os três filmes mostram personagens, muito diferentes entre si, confinados em um único ambiente, sendo obrigados a conviver em harmonia para sobreviver. Em "Paixões em fúria é um gangster ( Edward G. Robinson) que mantém como reféns numa casa de veraneio personagens que irão, no decorrer da experiência, mostrar quem realmente são. Isolados e acuados, vão ter que esquecer suas diferenças e lidar com a situação, saindo dela invariavelmente mais fortes. No caso de "Uma aventura na África, o capitão de um barquinho mambembe, beberrão e preguiçoso, e uma missionária, terão que atravessar sozinhos as perigosas correntezas das águas africanas, a fim de fugirem dos alemães durante a primeira guerra mundial. Também vão ter que resolver suas diferenças a fim de sobreviver. Já em "O céu por testemunha", durante a segunda guerra mundial, um soldado americano vai parar numa ilha aparentemente deserta. No entanto, logo ele descobre que não está ali sozinho, tem a companhia de uma freira. Os dois opostos novamente terão que unir forças a fim de se manterem vivos.
Há quem diga que a complicada produção de "Freud, além da alma"(1962), "libertou" Huston para, dali em diante, ele realizar filmes com muito mais densidade psicológica. O que parece ser verdade, já que é a partir daí que aparecem as grandes obras hustonianas, como "A noite da iguana"(1964), o excepcional "Os pecados de todos nós"(1967) com uma atuação magnífica de Marlon Brando, o faroeste surrealista "Roy Bean, o homem da lei"(1972), o denso drama "A cidade dos desiludidos"(1972), o angustiante "À sombra do vulcão"(1982), a deliciosa paródia dos filmes de máfia "A honra do podreoso Prizzi"(1985) e, finalmente, seu testamento cinematográfico com "Os vivos e os mortos"(1987), o qual ele dirigiu numa cadeira de rodas e com um tubo de oxigênio.
É claro que Huston fez sua quota de filmes ruins ( O bárbaro e a gueixa, Caminhando com o amor e a morte, Fuga para vitória e poucos mais), mas, no geral, sua obra é muito sólida e há sim a marca de seu realizador. Se não de forma contínua, mas aos "pedaços", com blocos de filmes com os mesmos temas, desenvolvidos ora como drama, ora como comédia, ora misturando os dois. John Huston merece, de fato, estar entre os grandes do cinema americano. Além disso, ele era também um grande ator, basta ver sua atuação em "Chinatown"(1974), de Roman Polanski.

Começando

Este blog irá tratar prioritariamente sobre cinema clássico, mas, é claro, também irá falar de filmes atuais. Ocasionalmente também falará sobre Rock clássico e futebol.