sábado, 25 de dezembro de 2010

Uma aula de cinema

O protagonista de "Cortina rasgada" (Torn curtain, 1966), de Alfred Hitchcock, o físico nuclear Michael Armstrong (Paul Newman), não é o mais agradável dos personagens. Estamos na Guerra fria, e Armstrong atravessa a Cortina de Ferro, fingindo cooperar com os comunistas, mas, na verdade, os engana, ganhando a confiança de um grande cientista local a fim de aprender seus segredos e levá-los para os Estados Unidos. Apesar de, teoricamente, estar do lado "do bem", a atitude em si do físico americano não é das mais louváveis, afinal, ele se aproveita da boa fé de pessoas que queriam ajudá-lo.
Armstrong é mais um dos protagonistas de caráter duvidoso, mas com um rosto bonito e cheio de charme criados pelo mestre Alfred Hitchcock. O que diferencia o personagem de Newman dos outros tipos hitchcockianos é o seu amadorismo. Afinal, ele é um acadêmico, um cientista, e se enreda numa trama que  envolve mortes, tiros, fugas etc. Exemplo disso é a admirável cena do assassinato de Gromek, até hoje chocante. Sem nenhum som, vemos toda a difuculdade que um não-profissional tem de eliminar uma pessoa, não é tão fácil como outros filmes nos fazem parecer. Por essas e outras, "Cortina rasgada" passa longe de ser um fime de propaganda. Afinal, o amrericano não é exatamente um mocinho.
O filme, a meu ver, divide-se em duas partes: a primeira é todo o processo que Armstrong coloca em marcha para arrancar o segredo do professor Lindt; a segunda é a fuga do casal Newman-Julie Andrews, mais uma aula de suspense minstrada por seu mestre maior. Esta parte inclui a ajuda de uma refugiada polonesa (excelente participação de Lila Kedrova) e um clímax extremamente bem encenado num teatro lírico.
A maioria da crítica coloca este entre as obras menores de Hitchcock. Besteira ! É um de seus melhores trabalhos, que só cresce com o tempo. Uma coisa que poderia emperrar o filme, mas não o faz, é o casal de protagonistas. Tanto Paul Newman como Julie Andrews não eram atores tipicamente hitchcockianos, como, por exemplo, James Stewart e Ingrid Bergman, mas, sendo ótimos atores, dão conta muito bem do recado.
Enfim, "Cortina rasgada" é mais uma das muitas obras-primas do maior cineasta de todos os tempos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O desconcerto do mundo segundo Woody Allen

"Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo". A frase de Renato Russo, da música "Há tempos" da Legião Urbana, poderia perfeitamente servir de epígrafe ao filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Whatever works, 2009). Nele, Larry David vive Boris, um sujeito completamnete neurótico, hipocondríaco, niilista, enfim, um desesperançado da raça humana. Acredita firmemente que não existe nenhum Deus comamdando nosso destino, e que tudo que nos acontece é resultado do acaso. Boris encontra uma jovem chamada Melody (Evan Rachel Wood), uma caipira que fugiu de casa e vai parar no apartamento do misantropo Boris. Não espere o clichê de que ela o modifica e ele se torna um ser humano melhor. Ele continua o mesmo, só que agora passa sua descrença no Homem para a jovem ingênua que, na verdade, apenas repete os seus "ensinamentos" mas não entende nada do que ele diz.
É óbvio que o personagem interpretado por Larry David representa a visão de mundo do próprio Woody Allen. É só dar uma olhada em sua filmografia para constatar que o diretor novaiorquino é ele mesmo um descrente no mundo e no ser humano. Também é óbvio que Allen é ateu, e mostra isso em quase todos os seus filmes. O grande lance, aqui, é o diretor mostrar sua desesperança com o mundo moderno através de dialogos afiadíssimos e muito engraçados. Já virou  clássica a tirada de que Deus é um decorador.
Muito tem se falado que os filmes recentes do cineasta representam uma decadência se comparado às peéolas que ele dirigiu nos anos 70 e 80. Pode até ser que seus filmes, a partir da década de 90, tenham sofrido um decréscimo de qualidade, mas, de maneira alguma, são filmes ruins.Muito longe disso. Na verdade, o único trabalho do diretor nesse período mais recente que me deixou um pouco decepcionado foi "Vicky Cristina Barcelona". De resto, gostei de todos os outros. Uns mais, outros menos, mas todos com um talento e uma criatividade impressionantes.
"Tudo pode dar certo" é uma obra divertidíssima sobre, como diria Camões, o "desconcerto do mundo".

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É preciso passar pelo inferno para chegar ao céu

Não é novidade nenhuma afirmar que Martin Scorsese é um cineasta profundamente ligado às suas raízes católicas. Seus personagens estão sempre, direta ou indiretamente, buscando a redenção, expiando os pecados ("Touro indomável"), ou , de forma um tanto torta, tentando salvar o mundo, como se tivessem recebido uma missão divina ("Taxi driver"). As duas coisas ocorrem com o personagem de Nicolas Cage neste belíssimo "Vivendo no limite "(Bringing out the dead, 1999), um subestimado filme do diretor de "Caminhos perigosos", que merece figurar entre as grandes obras do cineasta.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Douglas Sirk mostra as rachaduras do american way of life

Uma panorâmica passa pelas impecáveis casas de classe mádia de uma típica cidadezinha americana  da década de 50. No terraço de uma dessas casas, Cary Scott (Jane Wyman) toma chá com uma amiga (Agnes Moorehead). Sabemos, pela conversa das duas, que Cary é uma viúva ainda hesitante em encontrar um novo amor, apesar da insistência da amiga e dos filhos, já adultos.Na cena seguinte, Cary convida seu jardineiro, Scott (Rock Hudson) para uma xícara de chá, totalmente inocente. Mas esses encontros inocentes se sucedem e os dois acabam se apaixonando. É aí que aquele mundo perfeito, de casas com gramas perfeitamente aparadas, filhos lindos e inteligentes, festas no Country Club, acaba mostrando sua verdadeira face.Por tras da reluzente fachada, há um mundo de preconceito, egoísmo e mesquinharia.
A palavra melodrama adquiriu, com o correr dos anos, uma conotação pejorativa, devido, principalmente, às novelas de péssima qualidade com as quais a TV nos brinda ao longo dos anos. No entanto, artistas talentosos como Douglas Sirk, diretor deste "Tudo que o céu permite" (All that heaven allows, 1955) mostram que o gênero podia, e pode, ser muito mais profundo do que o rótulo faz parecer.
O que nas mãos de um cineasta menos capacitado ( ou dos autores de novelas da Globo) seria uma vulgar história de amor impossível, nas mãos do mestre Sirk transforma-se num sofisticado estudo sobre as relações familiares e sobre a mentalidade pequeno burguesa numa cidadezinha do interior americano. Cidadezinha, aliás, que poderia ser qualquer uma do mundo.
Logo no começo, naquela já referida panorâmica, vemos carros de cores berrantes passando na rua, mulheres de vestidos chamativos. Nas festas promovidas pela comunuidade local também somos apresentados a um mundo de opulência e exibicionismo. Sirk, ao utilizar essas cores berrantes, exageradas, quer enfatizar a artificialidade e falsidade deste mundo, construído sobre aparências muito frágeis, mas que comandam a vida das pessoas. Os espelhos espalhados pelos cenários, que o diretor tanto gostava, destacam ainda mais este ambiente de superficialidade.
Outro ponto a destacar no filme é o impressionante egoísmo dos filhos de Jane Wyman. Sirk sempre gostou de filmar conflitos familiares que, de vez em quando, acabam em tragédia ("Palavras ao vento", "Imitação da vida"), a fim de mostrar que uma das mais sólidas instituições americanas ( e não só americana) não é tão forte assim. Um simples caso de amor pode derrubar a fortaleza, mostrando os podres de cada um. Os filhos de Cary fazem um escândalo quando a mãe anuncia seu casamento com o jardineiro, preocupados não com a felicidade da mãe, mas com sua própria posicão na sociedade, "o que os outros vão pensar "? Quando, pressionada por tudo e todos, Wyman desiste do casamento, os filhos, que haviam saído de casa, voltam e comemoram o natal como se nada tivesse acontecido. Não estão nem aí com a tristeza da mãe. Inclusive, anunciam que vão sair, não só de casa, mas da cidade ! A decepção estampada no rosto da grande atriz é de uma força impressionante, mostrando como o cinema, quando feito por grandes artistas, pode ser uma arte tão poderosa como qualquer outra. E isso, trabalhando num gênero popular, o melodrama, com astros famosos e num grande estúdio Hollywoodiano ! Sirk detona a sociedade americana trabalhando em seu próprio jardim, usando seus recursos e, principalmente, utilizando seu principal veículo de comunicação, o cinema. E o filme foi um sucesso !
"Tudo que o céu permite" é uma aula de sofisticação dramática poucas vezes vistas na história da sétima arte.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O raio não caiu duas vezes

Na obra-prima "Vera Cruz", o diretor Robert Aldrich realizou um belo faroeste calcado na relação entre os personagens de Gary Cooper e Burt Lancaster. Dois mercenários, com motivações diferentes, que acabam criando uma relação de mútuo respeito e desconfiança. Todo o pano de fundo da Revolução Mexicana, das "malandragens" da Condessa, estão, de algum modo, atreladas à relação estabelecida entre os dois. Em enxutos 90 minutos, Aldrich cria uma obra admirável de agilidade e concisão. Na verdade, o filme é um monunento ao cinismo, raras vezes alcançado no cinema americano. O que faz de "Vera Cruz", ainda hoje, um trabalho muito atual.
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A luta pela sanidade

Uma pequena patrulha de soldados ingleses, durante a Primeira Guerra Mundial, está perdida no deserto da Mesopotâmia. Um a um eles são aniquilados por árabes, que sempre aparecem repentinamente.
Este é o fiapo de história de "A patrulha perdida" (The lost patrol, 1934), um dos menos conhecidos filmes do mestre John Ford. Assim como ele fará mais tarde em suas obras mais famosas, o diretor trabalha a paisagem como poucos, fazendo dela outro personagem do filme. Pouco a pouco, devido ao sol escaldante, à incerteza de não se saber onde está nem para onde ir e, principalmente, à ansiedade de não se saber de onde vem o próximo tiro, faz com que os soldados, paulatinamente, vão perdendo a razão.
O pelotão é comandado pelo sargento interpretado por Victor McLaglen (um dos atores preferidos de Ford), que tenta a todo o custo manter a sanidade. Entre seus comandados aparece o soldado Sanders (Boris Karloff), um fanático religioso que em tudo vê a mão de Deus ou do diabo, o que não ajuda em nada na unidade do grupo.
Embora, comparado às obras-primas mais famosas do diretor, como "Paixão dos fortes", Rastros de ódio", "O homem que matou o facínora", entre outras, este filme possa ser considerado "menor" na carreira do cineasta, ainda assim é um belo exercício cinematográfico, mostrando que John Ford não dirigia apenas faroestes, mas sabia também retratar a natureza humana.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Tony Curtis

Morreu Tony Curtis. Muitos críticos o consideravam apenas um rosto bonito, ou um bom comediante. Ele foi muito mais que isso. Como comediante possuia a capacidade de se auto-parodiar, de brincar com sua imagem de galã. Isto fica visível, por exemplo, em "Anáguas a bordo"(1961), de Blake Edwards, no excepcional "Médica, bonita e solteira"(1964), de Richard Quine e, claro, na obra-prima absoluta da comédia americana, "Quanto mais quente melhor"(1959), de Billy Wilder. Neste filme, aliás, Curtis exibe todo seu repertório, já que pode-se dizer que ele interpreta 3 papéis: o do músico malandro que foge dos gangsters, a saxofonista da banda feminina e o milionário que se finge de impotente para conquistar Marilyn Monroe. Este último inspirado em Cary Grant, seu ídolo. Curtis convence nos três papéis.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A besta em mim

Dos maravilhosos filmes de terror da Universal nas décadas de 30 e 40, "O lobisomem"(1941), de George Waggner, é um dos menos conhecidos, pois acabou ficando à sombra dos mais famosos "Frankestein", de James Whale, e "Dracula", de Tod Browning. No entanto, apesar de não estar a altura dos outros dois, não lhes fica a dever muito.
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".

domingo, 12 de setembro de 2010

O caminho da loucura

George Cukor(1899-1983) ficou conhecido como o "diretor das mulheres". Não apenas porque seus filmes, geralmente, tinham mulheres como protagonistas, mas porque as atrizes adoravam trabalhar com ele, e assim tinham desempenhos memoráveis. Mas este rótulo é injusto com os atores, pois muitos deles também tiveram interpretações notáveis sob sua direção, ganhando, inclusive, Oscar, que foi o caso de James Stewart, Ronald Colman e Rex Harrison, respectivamente por "Núpcias de escândalo"(1940), "Fatalidade"(1947) e "My fair lady"(1964). Assim, para resumir, Cukor era um excepcional diretor de atores, ficando atrás apenas, a meu ver, de Elia Kazan e Sidney Lumet.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O meu Corinthians

Sei que este é um espaço prioritariamente sobre cinema, mas com a aproximação do centenário do Corinthians não resisti, como corintiano há 31 anos, a fazer uma seleção dos 11 melhores jogadores do Timão que eu vi jogar. É claro que sei a importancia de jogadores como Luizinho, Rivelino, Sócrates, entre outros, mas, como infelizmente não os vi jogar, não irei citá-los na minha seleção.
Aí vai:
Ronaldo
Giba
Marcelo
Gamarra
Kleber
Rincón
Vampeta
Neto
Marcelinho Carioca
Tevez
Ronaldo

domingo, 22 de agosto de 2010

A guerra por dentro

Em 1998 Steven Spielberg causou comoção no público e na crítica com os famosos 45 minutos iniciais de "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan). Realmente a reconstituição do desembarque aliado na Normandia e a batalha que se seguiu foi impressionante. Mas, passados os 45 minutos, ficamos ainda um pouco artodoados com as imagens que acabamos de assistir e depois esquecemos. Spielberg não soube manter o mesmo impacto durante o restante do filme. Quando acabamos de ver o filme, ele termina na projeção, ou seja, ele não nos acompanha depois, não fica na nossa cabeça ( com exceção dos primeiros 45 minutos). Ocorre exatamente o oposto em "Capacete de aço" (The steel helmet), mais uma das obras-primas de Samuel Fuller. Neste, quando o filme termina, ficamos pensando, entre outras coisas, na estupidez do Homem.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um caso raro no cinema

Raras vezes, na história do cinema, uma refilmagem é tão boa quanto o original. Só consigo me lembrar de "Cabo do medo" (Cape fear, 1993), de Martin Scorsese, que refilmou "Círculo do Medo", de J.Lee Thompson, de 1962. Scorsese conseguiu, inclusive, em alguns aspectos, melhorar o clássico de Thompson. Mas fora esse, não me lembro de nenhuma refilmagem que sequer se comparasse ao original.
Além de Scorsese, outro que conseguiu esse feito, alguns anos antes, em 1983, foi Brian De Palma com sua releitura de "Scarface, a vergonha de uma nação" (1932), clássico absoluto de Howard Hawks, protótipo de todos os filmes de gângster, desde 'O poderoso chefão" até "Inimigo público".
Na essência os filmes não têm grande diferença entre si. Ambos contam a história de um criminoso (Tony Camonte de 1932, Tony Motana, na refilmagem) que começa de baixo e vai abrindo caminho a bala na hierarquia do crime organizado, até se transformar no "poderoso chefão" do tráfico de bebidas alcoólicas, na obra de Hawks (estamos em Chicago na época da Lei seca) e de cocaína no filme de De Palma. Nos dois filmes, também, o Scarface do título (chamado assim por causa de uma cicatriz no rosto) envolve-se com a namorada do patrão (Karen Morley no original, Michelle Pheiffer no remake). E o fato mais comentado das duas versões: a relação incestuosa que Tony mantém com a irmã, relação esta travestida de um ciúme doentio, mas que nas entrelinhas fica muito clara a real situação, principalmnte ele em relação a ela. A irmã chama-se Cesca no primeiro filme e é interpretada por Ann Dvorak; na refilmagem ela recebe o nome de Gina e é representada por Mary Elizabeth Mastrantonio.
Já os atores que interpretam o celerado criminoso o fazem quase da mesma maneira: Paul Muni no primeiro e Al Pacino no segundo. Ambos retratam um bandido extremamente seguro de si, arrogante, que zombam da autoridade, e é claro, extremamente violentos. Ambos também são imigrantes, Muni,da Itália; Pacino, de Cuba. Parece que na visão dos americanos, a instalação do crime na América nunca vem de dentro, dos prórios americanos, mas sempre de fora, dos imigrantes.
Falando um pouco da obra de 1932, é incrível como o filme conseguiu passar pela censura. Hoje, parece banal, mas para a época, com certeza, era um filme violentíssimo. Há várias cenas com rajadas de metralhadoras disparadas em lugares públicos. Repare na cena quando Muni consegue, pela primeira vez, adquirir metralhadoras. Ele experimenta um prazer quase sexual tocando nelas. Há também a relação com a irmã. No momento em que Tony mata George Raft, seu braço direito, por puro ciúme, antes de descobrir que ele se casou com sua irmã, a reação de Cesca é de revolta. Na cena seguinte, enquanto Tony está arrependido de seu ato, Cesca entra na sala para matá-lo. Mas, no momento em que ela ouve a polícia chegando, o sangue, ( a paixão ?) fala mais alto e ela passa a lutar ao lado do irmão. É quase como se ela estivesse, finalmente, entregando-se a ele. Nesse sentido, Hawks conseguiu ser mais ousado que De Palma..
Finalmente, os dois filmes refletem o estilo de seus diretores. O "Scarface"de Hawks é seco, direto, enxuto, sem enrolações nem grandes dramaticidades. O de De Palma é cheio dos malabarismos técnicos com a câmera que o diretor adorava. E as cenas são mais grandiosas, nada da simplicidade hawksiana ( a famosa "câmera na altura dos olhos"). Uma cena, semelhante nos dois filmes, resume a diferença entre os dois grandes cineastas: o já citado assassinato do braço direito de Tony, que ocorre nos dois filmes, por ciúmes da irmã. Hawks encena de modo muito simples: a campanhia toca, Raft atende; corte para Cesca, que faz uma cara amedontrada; tiros, Raft cai ao chão. Já DePalma, na mesma cena, quando a campanhia soa, uma música clássica começa a tocar, câmera lenta, Tony dispara, Manny Ribera cai lentamente ao chão. Desespero de Gina. Parece uma ópera ! As duas cenas são belíssimas.
Assim, as duas versões são muito boas. Mas, se eu fosse obrigado a escolher uma, escolheria a de Hawks.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pode-se desafiar o destino ?

"Maldição" (House by the river, 1950) é um dos mais cruéis filmes de Fritz Lang. Desde que chegou aos Estados Unidos em 1933, fugindo do nascente nazismo na Alemanha, Lang sempre apontou sua câmera para as rachaduras do chamado american way of life. Logo em seu primeiro filme americano, "Fúria" (Fury, 1936) o diretor contava a história de um homem inocente (Spencer Tracy) que é preso e quase linchado pela população enfurecida. Escapando por pouco de uma tentativa de linchamento dentro da própria cadeia, ele passa a planejar uma terrível vingança contra todos que o perseguiram. A vingança, aliás, é um dos temas frequentes na filmografia de Lang. É na obra-prima "Os corruptos" (The big heat, 1953) que este tema irá ganhar sua força máxima, tornando-o um dos maiores filmes americanos de todos os tempos. Como se vê, Fritz Lang não compartilha muito do ideal de felicidade e sucesso tão propagados como imagem da América.
Outro tema dominante na obra do diretor é a pesada mão do destino que cai impiedosamente sobre seus personagens. Normalmente causado por um evento banal, seus personagens, inocentemente são engendrados numa trama que os leva cada vez mais para baixo, quase à beira da destruição. É o que acontece, por exemplo, com Edward G. Robinson em "Almas perversas" (Scarlet street, 1945). Após ajudar uma "donzela em apuros", o pacato bancário interpretado por Robinson é seduzido pela mulher (Joan Bennett), que junto com seu comparsa (Dan Dureya) bolam um esquema para arrancar todo o dinheiro do pobre homem. Cego de paixão pela mulher que o engana, ele acaba seus dias como mendigo. A mão do destino foi implacável. Isso acontece com vários personagens de Lang, por exemplo, com a Anne Baxter de "A gardênia azul " (Blue gardenia, 1953), Glenn Ford em "Desejo humano" (Human desire, 1954), entre outros. Também acontece com Louis Hayward neste "Maldição", mas ele consegue, de certo modo, escapar do destino, a princípio.
A história : Hayward interpreta Stephen Byrne, um escritor fracassado casado com uma mulher rica, Marjorie (Jane Wyatt). Aproveitando uma bela tarde em que ela está fora, ele decide seduzir sua criada, Emily. A sedução não dá muito certo e ele acaba, acidentalmente, matando-a. Novamente, uma ação banal desencadeando uma tempestade sobre o personagem. Byrne pede ajuda a seu irmão, John (Lee Bowman), que relutantemente acaba o ajudando. Acontece que o saco no qual os dois despacharam o corpo da pobre criada rio abaixo tem o nome de John escrito. Ele passa a ser, assim, o principal suspeito da morte de Emily, deixando Stephen livre de qualquer suspeita.
O que diferencia Stephen Byrne de outros personagens languianos, no entanto, é que em nenhum momento Hayward se deixa abater pelos acontecimentos. Ao contrário, ele capitaliza em cima do "desaparecimento" da criada, escrevendo um romance sobre o assunto que vende como água. Também não tem nenhum escrúpulo em deixar que o seu irmão, que sempre o ajudou durante toda a vida, sofra as consequencias do ato que ele praticou. De certo modo, então, Louis Hayward desafia o destino, ao contrário dos outros personagens de Lang, que parecem aceitar o que o destino lhes oferece.
A partir do momento em que ele não assume a culpa, passa a ter uma outra personalidade, torna-se cruel com sua esposa, sai toda noite com prostitutas e continua a escrever romances sobre o assassinato que cometeu, pois é disso que o público gosta. Ele passa a se sentir poderoso, manipulando todos a sua volta e adora isso. Mas ninguém consegue desafiar o destino eternamente e uma hora as contas irão se ajustar para ele.
Nunca, como aqui, Fritz Lang foi tão longe na análise do lado obscuro da natureza humana. É surpreendente que o filme tenha conseguido sair, sem cortes ou suavizado, numa época em que o cinema americano era duramente vigiado pelos censores "guardiões da moral".
"Maldição" é um dos melhores filmes de Lang, mas curiosamente é um dos menos conhecidos. Não há astros famosos, mas os atores estão muito bem, em especial Louis Hayward. A fotografia em preto e branco é lindíssima, principalmente nas cenas em que aparece o rio à noite.
Em resumo, uma obra-prima.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Os monstros humanos de Tod Browning

"O monstro do circo" (The unknown, 1927), de Tod Browning, é um dos filmes mais românticos do cinema. O sacrifício que o personagem principal, Alonzo (Lon Chaney, excepcional), faz para conquistar a mulher por quem é apaixonado, Nanon (Joan Crawford, em um dos seus primeiros papéis) é digno dos atos mais abnegados de amor da história universal.
Mas, estamos num filme de Tod Browning, portanto, as coisas não são assim tão convencionais. Na verdade, Alonzo é um criminoso, e tem uma característica anatômica que é muito perceptível: ele tem um dedo polegar duplo. Para fugir da polícia, então, Alonzo se esconde num circo e prende os braços às costas com a ajuda de uma espécie de corpete, e passa a ser uma das atrações do circo como atirador de faca, com os pés. Nanon, a filha do dono do circo, torna-se sua grande amiga e ele se apaixona perdidamente por ela. No entanto, ela é uma mulher que cresceu traumatizada por sofrer sucessivos assédios de homens, assim, ela tem ojeriza ao simples toque das mãos de qualquer homem. O que acaba tornando-a uma figura trágica, pois ela ama sinceramente Malabar (John Kerry), outro integrante do circo, e ele a ama também. Mas, por causa do seu problema, ela não pode suportar o contato de seus braços.
Como se vê, não são personagens comuns, e, ao mesmo tempo, são muito complexos, com abertura para diversas interpretações. Alonzo, por exemplo, é capaz de matar a sangue frio o pai de Nanon, quando este descobre a sua farsa, vendo que, na realidade, ele tem sim braços. Mas também é capaz de ser extremamente terno quando está junto de Nanon, e , como ficou escrito no início do texto, faz um sacrifício enorme para tê-la. Nanon não sabe que foi Alonzo quem matou seu pai, no entanto, ele é obsessivo com a ideia de casar com ela. Ele é alertado, então, por seu fiel companheiro, o anão Cojo, de que se eles realmente se casarem, ela vai acabar descobrindo não só que ele tem braços, portanto a enganou, como também irá ficar sabendo que foi ele quem matou seu pai, pois ela viu uma mão com dois polegares o estrangulando. Toma então uma medida drástica, por puro amor. Alonzo chantageia um médico, antigo companheiro de crimes, para que ele ampute seus braços ! Quer gesto de amor mais nobre que este ? Aí vem a tragédia. Quando Alonzo se recupera da operação, ele retorna ao circo, esperando conquistar Nanon. Descobre, no entanto, que ela se recuperou da sua "alergia" aos homens e vai se casar com Malabar. O momento desta revelação e a reação de Lon Chaney é um dos grandes momentos da interpretação no cinema da era muda. Quando Alonzo se recupera do choque, prepara uma terrível vingança...
O amor impossível. Este é um tema frequente na filmografia de Tod Browning, diretor que deve ser urgentemente redescoberto tanto pelo público como pela crítica. Seus personagens amam demais, mas por diferentes razões, este amor nunca irá se concretizar. É quando este excesso de amor transforma-se em ódio, e a natureza obscura do ser humano manifesta-se. Isso acontece com o anão de "Monstros" (Freaks, 1932, um dos mais malditos filmes da história do cinema), apaixonado por uma pessoa "normal", e também com o conde Drácula, interpretado por Bela Lugosi no filme homônimo de 1931, até hoje a melhor versão do romance de Bram Stoker, ao lado do "Nosferatu", de Murnau.
Browning é conhecido como diretor de filmes de terror, mas seu cinema vai muito além disso. Em seus filmes, o ser humano aparece em toda sua complexidade. Seus personagens nunca são simplesmente bons ou maus, são muito mais amplos que isso. Frequentemente são as duas coisas ao mesmo tempo, como Alonzo, e como nós todos, não ?
O único defeito de "O monstro do circo" é que é muito curto. Mas, em seus enxutos 50 minutos a obra de Browning possui muito mais riqueza humana do que muitos filmes pretensamente "artísticos" soltos por aí.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Adorável trapaceiro

Samuel Fuller sempre foi um crítico do ser humano. Talvez por ter sido repórter polocial, e posteriormente ter servido o exército durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, Fuller vivia rodeado de violência, sua visão do mundo e do homem não era das mais simpáticas.
Sua estreia no cinema se deu com "Eu matei Jesse James" (1948), no qual o diretor centrava o foco no traidor Robert Ford, que atirou em seu companheiro de assaltos pelas costas para pegar a recompensa. Ford, interpretado por John Ireland, passa o filme inteiro atormentado pela culpa.
À parte o fato de se tratarem de bandidos, portanto pessoas naturalmente sem caráter, ainda assim uma traição desse tipo não é algo a se louvar. A dor na consciência que Ireland sente é porque ele sabe que agora sim ele chegou ao fundo do poço, pois, além de ser bandido, também é um triador. Robert Ford é o primeiro da extensa galeria de anti-heróis que irá povoar a obra de Fuller e transforma-la numa das mais significativas da história do cinema.
Seu segundo filme é "O barão aventureiro" (1950), também protagonizado por um anti-herói, mas diferente do primeiro filme. Vincent Price ( em atuação brilhante) interpreta James Addison Reavis, um vigarista que, à força de falsificações de documentos, consegue tomar posse de quase todo o território do Arizona ! Ainda por cima, quando o governo americano começa a desconfiar de sua legitimidade e passa a protelar a cessão das terras, Reavis simplesmente processa o governo ! O mais impressionante de tudo isso é que este sujeito realmente existiu.
Ao contrário, portanto, do Robert Ford do primeiro filme, Reavis nem de longe sofre, por um segundo sequer, de remorso ou de consciência pesada. Ele não enxerga nada nem ninguém a sua frente para conseguir seu objetivo. Usa as pessoas a seu bel-prazer, e as que não lhe servem na concretização de seu objetivo simplesmente descarta, ou lhes dá uma quantia em dinheiro para ficarem de boca fechada. É um personagem sem nenhum escrúpulo, que fica ainda mais fascinante para o espectador pelo charme com que Vincent Price o interpreta. Sim, Reavis é um personagem fascinante porque não há como não apreciar o esforço, a dedicação, o talento com que ele opera sua fraude. Ele chega a passar três anos num convento para ganhar a confiança dos frades e poder, livremente, falsificar um livro de registros de doações de terras que se encontra na biblioteca do convento.
Embora, em comparação aos filmes que Fuller irá realizar posteriormente, "O barão aventureiro" possa ser considerado uma obra "menor" do diretor, não há como negar o talento de Fuller na condução do filme, mantendo o interesse do espectador durante o tempo todo. E também, um filme "menor" de Fuller é melhor que a maioria dos filmes produzidos no cinema atual, americano ou não.

sábado, 17 de julho de 2010

Top 5

Os cinco maiores filmes da história do cinema, na minha opinião :

1. Um corpo que cai (Vertigo, 1958, Alfred Hitchcock)

2. Rastros de ódio (The searchers, 1956, John Ford)

3. Aurora (Sunrise, 1927, F.W.Murnau)

4. Ran (Ran, 1985, Akira Kurosawa)

5. Janela indiscreta (Rear window, 1954, Alfred Hitchcock)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O triunfo da imaginação

Em "Teu nome é mulher" (Designin woman, 1957), de Vincente Minnelli, Gregory Peck e Lauren Bacall formam um casal completamente diferentes um do outro. Ele é Michael Hagen, um jornlista esportivo, ela é Marila Brown, uma estilista de moda. Vivem em mundos completamente diferentes. Por um tempo eles conseguem manter os mundos separados, e são muito felizes. Mas, é claro que esta situação não pode durar para sempre. Chega uma hora em que ocorre a colisão e aparecem as primeiras rachaduras no até então feliz casamento.
Este filme é mais um exemplo de como nos anos de ouro de Hollywood os diretores (os bons) conseguiam abordar temas sérios, como o casamento, de forma leve, mas nem por isso menos eficaz. No caso deste Designin woman, Minnelli faz um belo retrato da dificuldade na convivência em um casamento de pessoas muito diferentes entre si. Como o marido, ou a mulher, reprimem certos sentimentos para não atrapalhar a harmonia do lar. Mas, chega um momento em que esta repressão não se segura e ela acaba explodindo, normalmente, por causa de um motivo bobo, como, por exemplo, ciúmes de uma antiga namorada. Minnelli aborda tudo isso de forma muito leve, seguindo os padrões do entretenimento hollywoodiano. E, no entanto, consegue ser extremamente pessoal, em um nível artístico muito elevado.
É interessante como Minnelli faz um paralelo entre os mundos de Peck e Bacall. Ela é uma estilista de moda, convive com artistas, coreógrafos, produtores, diretores, dançarinos, ou seja, pertence ao universo da arte, da ilusão, da imaginação. Ele é um jornalista esportivo, vive em um mundo viril, em estádios de baseball, ginásios de boxe, fuma, bebe, e joga pôquer com os amigos que também fumam, bebem e falam palavrão. Ele é mais próximo da realidade, sem ilusão, nem imaginação. A mais grave das preocupações enfrentadas por Lauren Bacall é quando um vestido aparece com defeito minutos antes de um desfile. Já Gregory Peck tem de enfrentar capangas de um poderoso empresário de boxe, que não gosta das reportagens publicadas pelo jornalista sobre suas trapaças nos bastidores do esporte.
Assim, o tema preferido de Minnelli, a ilusão versus a realidade, que ele abordou em tantos musicais maravilhosos, aparece aqui também. E, como acontece nos musicais, a ilusão vence. Isto é representado na divertida cena final, quando os capangas chegam para dar uma surra em Peck e quem o salva, batendo em todos eles com passes de balé, é o coreógrafo afetado, um dos colegas de Bacall.
Para Minnelli, a imaginãção sempre irá derrotar a realidade.

domingo, 4 de julho de 2010

A violência reflexiva de Sam Peckinpah

Finalmente sai em dvd "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" (Bring me the head of Alfredo Garcia, 1974), uma das obras-primas de Sam Peckinpah, o chamado "poeta da violência".
A violência, nos filmes do diretor americano, não é gratuita, nem estética, mas reflexiva. E isto se acentua ainda mais pelo uso da câmera lenta.
A arte de Peckinpah atingiu seu ponto mais alto com o faroeste crepuscular "Meu ódio será sua herança" (The wild bunch, 1969), um estudo sobre o ciclo interminável de violência e maldade no mundo moderno. O filme começa com um grupo de crianças se divertindo vendo um caranguejo ser devorado por formigas. Termina com um massacre conduzido por velhos assaltantes. Da infância à velhice o ciclo de violência não dá trégua.
Em "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia", um rico fazendeiro mexicano, depois que sua filha engravida de Garcia, oferece uma recompensa para que alguém traga-lhe a cabeça do conquistador. Warren Oates ( em atuação magnífica) se oferece para o trabalho. O ator interpreta Benny, um americano perdido no México que sobrevive cantando em bares. Ele pega sua namorada, Elita (Isabela Vega), que teve um caso com Alfredo Garcia, e parte pelo México a procura do que ele acredita ser a grande oportunidade para dar uma guinada em sua vida. A primeira coisa que dá errada é que Garcia já está morto. Portanto, agora ele tem que procurar sua sepultura, desenterrá-lo e cortar-lhe a cabeça. Quando ele está fazendo este serviço, sob o olhar desaprovador de Elita, ele também sente-se, de certo modo, envergonhado, mas vai em frente pois não quer perder esta oportunidade de mudar a sua sorte. Mas, alguém chega antes dele e pega a cabeça. A partir daí tem início a matança e a primeira vítima é justamente Elita.
Benny consegue recuperar a cabeça, depois de ter matado muita gente. Nesta altura, o dinheiro nem é mais tão importante para ele. Ele quer saber por que a cabeça de Garcia foi pedida, dando origem a tantas mortes. Vai, então, direto na fonte, o rico latifundiário mexicano. A cena de Oates entrando na enorme fazenda, com a cabeça de Alfredo Garcia dentro de uma cesta, enquanto ocorre uma grande festa, com crianças brincando, é simplesmente sensacional. Quando ele descobre a razão de tanta violência, um capricho de um pai vaidoso, se revolta mais ainda e acontece...mais matança.
O ciclo violento em "Meu ódio será sua herança" começou porque o dono de uma ferrovia planejou uma tocaia para pegar os velhos assaltantes justamente no momento em que uma congregação religiosa fazia o seu culto e depois saía em procissão pelas ruas. Muitos inocentes morreram e outros ainda morreriam no decorrer do filme. Tudo porque um homem, ferido em seu brio de grande empresário, planejou um massacre sem pensar nas consequencias, pensando só no prejuízo que os bandidos lhe deram. Em "Alfredo Garcia", também tudo tem início por causa do orgulho ferido de um rico fazendeiro. O massacre final, neste filme, também é presenciado por crianças, que provavelmente irão levar a violência adiante. E o ciclo recomeça.
Os homens decidem resolver pela violência problemas que poderiam ser encarados de outra forma. Aí não há mais como parar. A violência é inerente ao homem, nos diz Peckinpah.
Curiosamente "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" é um dos mais violentos, mas também um dos mais ternos filmes do diretor. Há cenas lindíssimas entre Warren Oates e Isabela Vega, dois amantes condenados e que sabem disso. Numa delas, no banheiro de um hotel, Vega toma banho, sentada triste embaixo do chuveiro. Oates olha para ela com uma expressão desoladora no rosto como se dissesse: "nosso amor não pode sobreviver neste mundo e nós dois sabemos disso". Os dois, aliás, lembram outro casal condenado de Peckinpah, Steve McQueen e Ali MacGraw em "Os implacáveis".
Junto com "O intendente Sansho", de Kenji Mizoguchi, o lançamento de "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia em DVD são os grandes acontecimentos cinematográficos do ano até aqui.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Que horror !

Terminei de ler um dos piores livros da minha vida, "O fio da navalha", de W.S.Maughn. Não entendo como esse romance tem tanto cartaz. É chatíssimo. Personagens desinteressantes, narrativa frouxa, um tédio só. Assim que começo a ler um livro, ou assistir um filme, sempre vou até o fim, não importa quão chato esteja. E "O fio da navalha" é muito, muito chato.
Não vi o filme baseado no romance, dirigido por Edmund Goulding em 1946, mas tenho certeza que é melhor que o livro. Goulding era um bom diretor, e ainda por cima, o filme conta com a presença da maravilhosa Gene Tierney. Ingredientes suficientes para se prefereir, mesmo sem ter visto, o filme ao romance.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A força da simplicidade

Em "O bígamo" (The bigamist, 1953) um comerciante bem sucedido e bem casado envolve-se num romance em uma de suas viagens de negócios. Sua esposa decide adotar uma criança, pois ela não pode ter filhos. Enquanto isso, a amante engravida e ele acaba preso por bigamia.
Esta história é um prato cheio para um diretor menos capacitado colocar toneladas de música lacrimosa, cenas abundantes de choro e desespero, discussões acaloradas, até o grande verdicto final. Mas a história caiu nas mãos de Ida Lupino e a diretora fez um trabalho surpreendente. Nada do que esperamos ver em um enredo desse tipo acontece. A música é discreta, os atores são contidos. A estrutura do filme é muito simples, sem exibicionismos de natureza alguma. O tratamento dado aos personagens também impressiona pela discrição. Quando Joan Fontaine ( a esposa "oficial") descobre a traição do marido Edmond O´Brien, ela não faz um escarcéu. Fica triste, chora, mas tudo de forma contida. Do mesmo modo, a segunda esposa, a própria Ida Lupino , quando fica grávida, não faz o gênero megera, obrigando O´Brien a casar-se com ela. É ele, aliás, que insiste para que se casem. Quando, por um acaso, Lupino vê o casal andando na rua e depois o confronta, a cena não tem gritaria, nem objetos voando pela casa e se quebrando de forma estripitosa. Tudo é muito discreto, sem ênfase.
Na cena final, no tribunal, Edmond O´Brien não é apresentado como um monstro sem coração, aproveitador de duas mulheres inocentes. Nós, os espectadores, não sentimos raiva dele, e o que é mais surpreendente, as duas mulheres também não. Olham para ele como se fosse uma criança que fez uma travessura, uma grande travessura, mas sabem que na verdade ele é um bom garoto. Sem acusações, sem discursos inflamados de advogado e promotor, tudo é dito no olhar dos três atores, por sinal, excelentes atores.
Mas a maior ousadia da diretora foi terminar o filme de forma aberta. O juíz diz que o veredicto sairá dali a um semana. Os espectadores ficam esperando qual será a setença, e de repente o filme termina. Lupino não quer saber o que a sociedade pensa, importa apenas o que os três envolvidos sentem e isso ela já havia mostrado no tribunal. É a única sentença que importa.
Antes de se tornar diretora, Ida Lupino já era uma atriz de grande talento, tendo participado de importantes filmes, como "Seu último refúgio", de Raoul Walsh, "Cinzas que queimam", de Nicholas Ray, "A grande chantagem", de Robert Aldrich, "No silêncio de uma cidade", de Fritz Lang, entre outros. Como diretora, sempre realizou filmes indepedentes, na companhia que fundou junto com o marido. Isto lhe permitiu certa liberdade para dirigir os filmes da forma que quisesse. Abordou temas ousados para a época, como o estupro e o aborto. Infelizmente a companhia não teve lucro e ela foi obrigada a se voltar para áreas mais comerciais a fim de poder continuar trabalhando. Foi quando dirigiu episódios de séries de televisão como "Bonanza", "Os intocáveis", "Big Valley", entre outros.
No entanto, a marca que deixou em filmes como esse "O bígamo", garante para ela um lugar especial na galeria dos grandes cineastas americanos. Infelizmente seus filmes ainda são muito raros, tanto na televisão como em dvd. Esperamos que essa lacuna seja reparada logo e que seus filmes comecem a ser lançados.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

"Aurora": a beleza em forma de filme

Será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora"?(Sunrise, 1927) ? Dirigido por um dos mais importantes cineastas da sétima arte, o alemão F.W.Murnau, em sua estreia nos EUA, o filme é ainda do período mudo, mas é tão bom que nem nos damos conta disso. O enredo é simples: George O´Brien é um rapaz do campo, casado com Janet Gaynor ( ganhadora do Oscar por sua interpretação), que é seduzido por uma mulher da cidade. Ela o convence a matar sua esposa e ir embora com ela. Mesmo hesitante ele aceita a proposta, mas na hora H recua. Sua esposa foge desesperada, ele a alcança e depois de muito esforço faz as pazes com ela. Os dois, então, passam um dia inesquecível, divertindo-se como nunca antes. Na hora de voltar para casa, no mesmo barco no qual ele tentou assassiná-la, desaba uma violenta tempestade, o barco vira. Os dois acabam se salvando e o filme termina com a aurora do título. O filme acaba, mas o amor deles recomeça mais forte do que nunca.
Contando a história assim, ainda por cima sem som, tem-se a impressão de que é um filme monótono, sem graça. Puro engano. Murnau enche a tela de imagens lindíssimas. Longe, no entanto, de serem meramente decorativas, elas tem uma força expressiva impressionante. Só para citar duas cenas memoráveis: a primeira, quando eles estão no barco e vemos o olhar atormentado de O´Brien preparando-se para praticar o assassinato. Toda a sequencia no barco, com o cachorro soltando-se da corrente e pulando na água ao encontro de sua dona, percebendo instintivamente o que está para acontecer, até o momento em que Gaynor, de mãos juntas em oração, suplica ao marido que não a mate e ele finalmente desiste, é uma aula de direção cinematográfica; a segunda cena inesquecível é quando O´Brien e Gaynor fazem as pazes. Os dois caminham pelas agitadas ruas da metrópole e, de repente, se beijam. Subitamente, toda a confusão da cidade pára, os carros e as pessoas somem e o casal reconciliado encontra-se num campo verdejante, cheio de árvores e bosques, representando a paz que eles reencontraram. É o mais perto que o cinema chegou até hoje da representação da essência do sentimento amoroso.
O filme tem de tudo: drama, romance, comédia, suspense, aventura ( na sequencia da tempestade). Resumindo, Murnau filmou a vida, com suas alegrias e tristezas, surpresas e decepções. E filmou, sobretudo, o ser humano, com suas falhas e virtudes e com a possibilidade de uma segunda chance. O casal passa por todos os estágios da existência humana num único dia. E, no fim, eles renascem, para começar novamente o ciclo da vida. Só que, desta vez, eles estão mais sábios e vão saber desviar dos percalços no caminho. Não de todos, é claro, pois a vida sempre reserva surpresas, mas irão ter força suficiente para enfrentar tudo de cabeça erguida, sabedores que são de que depois de uma tempestade sempre vem a calmaria.
Murnau realizou outros filmes fascinantes. Só para citar duas de suas obras-primas, podemos lembrar de "Nosferatu" e "A última gargalhada", mas "Aurora" permanece imbatível.
Respondendo à pergunta do começo deste texto; será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora" ? A resposta é fácil: não, não existe.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Titanic: o choque dos mundos e a insignificância do Homem

A mais avançada tecnologia criada pelo homem não é páreo para a natureza. Esta é, em linhas gerais, a tese defendida por James Cameron em seu épico de 1997 "Titanic". À época de seu lançamento as qualidades do filme foram esquecidas por causa da febre Leonardo DiCaprio, que se apoderou de adolescentes em todo o mundo. Os críticos, de maneira geral, numa atitude esnobe, desprezaram o filme por causa da tietagem em cima do então jovem astro. É claro que alguns defenderam o trabalho de Cameron, mas não a maioria, pelo menos no Brasil. No entanto, passados mais de dez anos, já passou da hora de se valorizar esse belo filme que vai muito além de um romance lacrimoso e de uma audácia tecnica até então sem precedentes.
O pobretão Jack Dawson (DiCaprio) embarca no Titanic após ganhar uma aposta, encontra a pobre menina rica Rose DeWitter(Kate Winslet), os dois se apaixonam. Rose vai se casar com um milionário esnobe, interpretado por Billy Zane. O triângulo amoroso, mais que convencional, está montado. No entanto, ele é apenas um pretexto para Cameron falar do que realmente inporta na primeira metade do filme : a rígida divisão de classes dentro do luxuoso transatlântico, que, na realidade,acaba sendo um espelho da própria sociedade. Quando esses dois mundos se unem, no romance de Jack e Rose, ocorre a catástrofe : o Titanic choca-se com um iceberg e vai afundando aos poucos. Não há harmonia possível entre os de cima e os de baixo da pirâmide social. Um ponto de vista bem pessimista sobre o funcionamento do mundo. A união do rico com o pobre só pode provocar desastre. Perceba que o iceberg bate no navio exatamente no momento em que Rose decide fugir com Jack. É como se dissesse : não mexam na ordem natural das coisas, se não, a natureza se vinga. E vingou-se, realmente, matando mais de 1500 pessoas.
A segunda metade do filme, demonstrativa da afirmativa o "homem lobo do homem", com todos a bordo lutando entre si para sobreviver, mostra que embora a união dos mundos não seja algo pláusivel, não há muita diferença assim entre eles. No final, todos querem se sair bem, por quaisquer meios. Na hora da dificuldade esquecem-se noções de solidariedade e bondade.
Mas o que mais chama a atenão nessa segunda parte do filme é a estupefação do comandante e do engenheiro do Titanic. Crente que construíram um navio inafundável ,eles não acreditam no que vêem. A fragilidade do ser humano frente a natureza é realmente de se espantar. Pela nossa própria arrogância não percebemos isso, mas somos muitos pequenos, insiginificantes, frente a imensidão do universo.
Mas, é claro, para não deixar o espectador muito melancólico, Cameron, muito sabiamente, deu ênfase ao romance entre Leonardo DiCaprio e kate Winslet. Impossível de se concretizar, pelo menos neste mundo, mas com força suficiente para nos fazer acreditar que ainda é possível viver-se em harmonia neste mundo decadente e brutalizado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A verdade, nada mais que a verdade

Em "O estranho"(The stranger, 1946), de Orson Welles, o próprio diretor interpreta um pacato professor de História muma tranquila cidadezinha do interior americano chamada Harper. Seu nome "oficial" é Charles Rankin e apesar de ser considerado um tanto esquisito, arredio, ele é respeitado pela comunidade local. Tanto é respeitado que se casa com a filha do Magistrado local, Mary, interpretada por Loretta Young.
No dia do casamento chega à Harper o Sr.Wilson (Edward G.Robinson), que se apresenta como um colecionador de antiguidades. Ele ganha a confiança da família do juíz, especialmente do irmão de Mary, Noah, a quem ele conta que na verdade não é um colecionador de antiguidades, mas sim um detetive da Comissão Aliada Para Crimes de Guerra e está em Harper à procura de um nazista fugitivo chamado Franz Kindler. Wilson acredita que o pacato professor Rankin, na realidade, é Kindler, o nazista foragido.
Desde o começo do filme nós, os espectadores, já sabemos de tudo isso. Sabemos que Edward G.Robinson é um detetive e que Orson Welles é Franz Kindler. Mas o que interessa a Welles, como diretor, é mostrar que por trás das mais banais aparências esconde-se os mais sórdidos segredos. O professor Charles Rankin não tem nada de especial, é tímido, desajeitado, passaria desapercebido em qualquer lugar. E, ainda por cima, tem um hobby esquisito, ele é fanático por relógios. Quem iria prestar atençao num sujeito assim ? Certamente a polícia local nem iria pensar em investigá-lo. No entanto, por trás dessa máscara de normalidade esconde-se uma perversa mente nazista, que está se preparando para atacar de novo.
O hobby por relógios, por coincidência, também é o passatempo preferido do detetive Wilson. O tempo, portanto, é um dos temas principais do filme, e também, da obra de Orson Welles. Aqui, Kindler mexe nos ponteiros como se quisesse acelerar o tempo, para chegar mais rápido a época do tão sonhado domínio nazista. Todo o tempo livre, lá está ele, na torre da igreja, consertando o relógio. Em sua casa, também, ele está constantemente mexendo nos relógios espalhados pelos aposentos, como se o tempo fosse correr ao simples toque de seus dedos, como se fosse....Deus. É o que ele diz, aliás, ao final do filme, quando está acuado na torre da igreja e observa as pessoas lá embaixo.Ele fala que se sente como Deus observando tudo de cima.
Como Deus também se sentem Charles Foster Kane, o detetive Quinlan, e outros personagens da obra do autor de "Cidadão Kane".
Outro tema wellsiano abordado no filme é a busca pela verdade e a dificuldade em aceitá-la. Loretta Young não quer acreditar que se casou com um nazista, e até o último momento procura ajudá-lo de todas as formas. Na verdade, como o detetive logo percebe, não é tanto a revelação de que seu marido é um criminoso que a pertuba, é o fato de que ela se enganou tanto a ponto de amar um nazista que a deixa a beira de um ataque de nervos. Segura de suas convicções morais, filha de um respeitado juíz, ela não aceita o fato de que se deixou enganar tão facilmente. A verdade é difícil de se descobrir e de se aceitar na obra de Welles. Os personagens de "Cidadão Kane" passam o filme inteiro tentando descobir o segredo por trás do magnata da imprensa e não conseguem fazê-lo. Quando todo mundo pensava, ao final de "A marca da maldade"("touch of evil", 1958) que o detetive Quinlan fosse um tira corrupto, que plantava evidências para incriminar suspeitos que ele achava fossem culpados, descobre-se que, na realidade, ele acertara todos os palpites e os suspeitos eram realmente culpados. É claro que o comportamento truculento de Quinlan não ajudava em nada as pessoas a pensarem diferente. Novamente as aparências encobrindo a realidade, a verdade. Mas o que é a verdade ? Essa pergunta Welles nos faz de filme em filme, e o que ele parece querer dizer é que nunca iremos além da superficie das coisas, ou porque não temos capacidade para ir além, ou porque não queremos ir além, com medo de descobrirmos uma fraqueza em nós mesmos, como acontece com Loretta Young neste belo filme.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Billy Wilder e o humano ridículo

Se a obra de Billy Wilder falasse, ela diria : como o ser humano é ridículo ! Desde sua estreia como diretor em 1942 com "A incrível Suzana", até seu último filme "Amigos amigos negócios à parte" em 1983, Wilder nunca teve o ser humano em grande conta.
Para escapar de situações embaraçosas, ou para subir na vida, os personagens de Wilder fazem de tudo, por mais patético que seja. Em "A incrível Suzana", por exemplo, para pagar uma passagem de trem pela metade do preço, Ginger Rogers finge ser uma garotinha de 12 anos. Ela passa quase todo o filme segurando uma bexiga e chupando um pirulito (nos tempos politicamente corretos de hoje será que Wilder se safaria dessa ou iriam acusá-lo de pedofilia ?). Uma adulta fingindo ser criança para pagar menos por uma passgaem de trem ! Sim, patético, muito.
Quase sempre, em seus filmes, esta situação é levada como comédia (normalmente com diálogos maravilhosos),mas também, por vezes, é abordada de maneira séria e até trágica, como é o caso de "Pacto de sangue"(1943). Para colocar as mãos no seguro de vida de seu marido, Barbara Stanwyck planeja sua morte, junto com o corretor de seguros Fred Macmurray. A morte tem que parecer um acidente para que eles ponham a mão na bolada. Mas é óbvio que o plano falha e os dois acabam morrendo.
A personagem símbolo desse espetáculo do ridículo orquestrado por Wilder ao longo de sua obra é, sem dúvida nenhuma, a Norma Desmond de "Crepúsculo dos deuses"(1953), personificada por Gloria Swanson. Atriz da época do cinema mudo que se recusa a aceitar que seu tempo já passou, contrói um mausoléu particular no qual ela é o centro de tudo. Fora dali, no entanto, ninguém se lembra que ela existe. Quando alguém menciona seu nome, a outra pessoa invariavelmente diz: "Norma Desmond ? Ela já não morreu ?" Além de pensar que ainda é uma grande estrela, ela também se acha jovem e se comporta como tal. Nesse sentido, o gigolô interpretado por William Holden mata a charada quando diz:"Não há nada de errado em se ter 50, a não ser que se pense ter 20 ! Há muitas Normas Desmonds espalhadas por aí, inclusive aqui no Brasil, é só ligar a televisão...
Tom Ewell, em "O pecado mora ao lado"(1955) também tem seu quê de ridículo. Sozinho em seu apartamento depois de ter mandado a esposa e o filho para o litoral passar férias, ele se sente atraído pela nova vizinha do apartamento de cima, Marilyn Monroe. Atormentado, ele imagina toda a espécie de situação, como sua mulher descobrindo tudo e atirando nele e, também, para aliviar a "culpa", ele imagina sua própria mulher o traindo ! No entanto, nada acontece, Marilyn é apenas uma moça ingênua que nem sequer é consciente de sua sensualidade (Aliás, como Marilyn Monroe tinha jeito para comédia, impressionante ). Este filme diz muito mais sobre fidelidade, ou infidelidade, do que muitos outros pretensamente sérios sobre o mesmo assunto.
Mas a lista de personagens patéticos continua, e vai desde um escritor alcoólatra ("Farrapo Humano"), passando por dois homens vestidos de mulher ("Quanto mais quente melhor") até um funcionário subalterno que, para subir de cargo, se presta a emprestar seu apartamento para seu chefe manter encontros extraconjugais ("Se meu apartamento falasse").
E Billy Wilder mostra esse ridículo humano, não com tristeza, ou melancolia, mas com um sorriso nos lábios, colocando um espelho a nossa frente e dizendo :vocês não têm capacidade de resolver seus problemas de forma digna e honesta, mas, não vamos chorar por causa disso, afinal, ninguém é perfeito.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Huston é autor por blocos

Os "turcos" do cahiers du cinema, Truffaut à frente, detestavam John Huston, acusavam-no de ser um cineasta sem estilo pessoal definido. Ao contrário de Hitchcock, ou Lubitsch, ele não teria nenhuma característica, ou características, em especial, que o diferenciasse dos demais cineastas.
Estilisticamente isso até pode ser verdade. Huston não era dado a grandes arroubos tecnicos, mas, quanto ao conteúdo e aos personagens ele tem sim uma coerência. Veja-se, por exemplo, O falcão maltês (1941, sua estreia no cinema), O tesouro de Sierra Madre (1948) e O segredo das jóias (1950). Estes três filmes mostram personagens desesperados a procura de algo supostamente muito valioso, colocando a ambição pessoal acima de qualquer consideração moral. Em "O falcão maltês", o detetive Sam Spade (encarnado à perfeição por Humphery Bogart, que criou o arquétipo do detetive durão no cinema) e um punhado de personagens, literalmente se matam na busca pelo falcão do título, uma relíquia de valor incalculável incrustada de pedras preciosas. Quando finalmente ele é encontrado, trata-se de uma enganação, falso. Todo o esforço e as matanças foram em vão. Em "O tesouro de Sierra Madre", a busca pelo ouro nas montanhas mexicanas termina com todo o ouro encontrado sendo literalmente soprado pelo vento. Mais um esforço em vão. Finalmente, em "O segredo das jóias", o assalto a joalheria cuidadosa e meticulosamente planejado, acaba em morte ou em prisão para os envolvidos. Novamente, como diria Shakespeare, muito barulho por nada. Pode-se dizer que os temas principais desses três grandes filmes de Huston são a ambição e, principamente, a inutilidade do esforço.
Outro bloco de filmes que mostra que John Huston era sim um autor com uma visão de mundo particular, é o formado por "Paixões em fúria"(1948) "Uma aventura na África"(1951) e "O céu por testemunha"(1957). Os três filmes mostram personagens, muito diferentes entre si, confinados em um único ambiente, sendo obrigados a conviver em harmonia para sobreviver. Em "Paixões em fúria é um gangster ( Edward G. Robinson) que mantém como reféns numa casa de veraneio personagens que irão, no decorrer da experiência, mostrar quem realmente são. Isolados e acuados, vão ter que esquecer suas diferenças e lidar com a situação, saindo dela invariavelmente mais fortes. No caso de "Uma aventura na África, o capitão de um barquinho mambembe, beberrão e preguiçoso, e uma missionária, terão que atravessar sozinhos as perigosas correntezas das águas africanas, a fim de fugirem dos alemães durante a primeira guerra mundial. Também vão ter que resolver suas diferenças a fim de sobreviver. Já em "O céu por testemunha", durante a segunda guerra mundial, um soldado americano vai parar numa ilha aparentemente deserta. No entanto, logo ele descobre que não está ali sozinho, tem a companhia de uma freira. Os dois opostos novamente terão que unir forças a fim de se manterem vivos.
Há quem diga que a complicada produção de "Freud, além da alma"(1962), "libertou" Huston para, dali em diante, ele realizar filmes com muito mais densidade psicológica. O que parece ser verdade, já que é a partir daí que aparecem as grandes obras hustonianas, como "A noite da iguana"(1964), o excepcional "Os pecados de todos nós"(1967) com uma atuação magnífica de Marlon Brando, o faroeste surrealista "Roy Bean, o homem da lei"(1972), o denso drama "A cidade dos desiludidos"(1972), o angustiante "À sombra do vulcão"(1982), a deliciosa paródia dos filmes de máfia "A honra do podreoso Prizzi"(1985) e, finalmente, seu testamento cinematográfico com "Os vivos e os mortos"(1987), o qual ele dirigiu numa cadeira de rodas e com um tubo de oxigênio.
É claro que Huston fez sua quota de filmes ruins ( O bárbaro e a gueixa, Caminhando com o amor e a morte, Fuga para vitória e poucos mais), mas, no geral, sua obra é muito sólida e há sim a marca de seu realizador. Se não de forma contínua, mas aos "pedaços", com blocos de filmes com os mesmos temas, desenvolvidos ora como drama, ora como comédia, ora misturando os dois. John Huston merece, de fato, estar entre os grandes do cinema americano. Além disso, ele era também um grande ator, basta ver sua atuação em "Chinatown"(1974), de Roman Polanski.

Começando

Este blog irá tratar prioritariamente sobre cinema clássico, mas, é claro, também irá falar de filmes atuais. Ocasionalmente também falará sobre Rock clássico e futebol.