quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A besta em mim

Dos maravilhosos filmes de terror da Universal nas décadas de 30 e 40, "O lobisomem"(1941), de George Waggner, é um dos menos conhecidos, pois acabou ficando à sombra dos mais famosos "Frankestein", de James Whale, e "Dracula", de Tod Browning. No entanto, apesar de não estar a altura dos outros dois, não lhes fica a dever muito.
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".

domingo, 12 de setembro de 2010

O caminho da loucura

George Cukor(1899-1983) ficou conhecido como o "diretor das mulheres". Não apenas porque seus filmes, geralmente, tinham mulheres como protagonistas, mas porque as atrizes adoravam trabalhar com ele, e assim tinham desempenhos memoráveis. Mas este rótulo é injusto com os atores, pois muitos deles também tiveram interpretações notáveis sob sua direção, ganhando, inclusive, Oscar, que foi o caso de James Stewart, Ronald Colman e Rex Harrison, respectivamente por "Núpcias de escândalo"(1940), "Fatalidade"(1947) e "My fair lady"(1964). Assim, para resumir, Cukor era um excepcional diretor de atores, ficando atrás apenas, a meu ver, de Elia Kazan e Sidney Lumet.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.