sábado, 25 de dezembro de 2010

Uma aula de cinema

O protagonista de "Cortina rasgada" (Torn curtain, 1966), de Alfred Hitchcock, o físico nuclear Michael Armstrong (Paul Newman), não é o mais agradável dos personagens. Estamos na Guerra fria, e Armstrong atravessa a Cortina de Ferro, fingindo cooperar com os comunistas, mas, na verdade, os engana, ganhando a confiança de um grande cientista local a fim de aprender seus segredos e levá-los para os Estados Unidos. Apesar de, teoricamente, estar do lado "do bem", a atitude em si do físico americano não é das mais louváveis, afinal, ele se aproveita da boa fé de pessoas que queriam ajudá-lo.
Armstrong é mais um dos protagonistas de caráter duvidoso, mas com um rosto bonito e cheio de charme criados pelo mestre Alfred Hitchcock. O que diferencia o personagem de Newman dos outros tipos hitchcockianos é o seu amadorismo. Afinal, ele é um acadêmico, um cientista, e se enreda numa trama que  envolve mortes, tiros, fugas etc. Exemplo disso é a admirável cena do assassinato de Gromek, até hoje chocante. Sem nenhum som, vemos toda a difuculdade que um não-profissional tem de eliminar uma pessoa, não é tão fácil como outros filmes nos fazem parecer. Por essas e outras, "Cortina rasgada" passa longe de ser um fime de propaganda. Afinal, o amrericano não é exatamente um mocinho.
O filme, a meu ver, divide-se em duas partes: a primeira é todo o processo que Armstrong coloca em marcha para arrancar o segredo do professor Lindt; a segunda é a fuga do casal Newman-Julie Andrews, mais uma aula de suspense minstrada por seu mestre maior. Esta parte inclui a ajuda de uma refugiada polonesa (excelente participação de Lila Kedrova) e um clímax extremamente bem encenado num teatro lírico.
A maioria da crítica coloca este entre as obras menores de Hitchcock. Besteira ! É um de seus melhores trabalhos, que só cresce com o tempo. Uma coisa que poderia emperrar o filme, mas não o faz, é o casal de protagonistas. Tanto Paul Newman como Julie Andrews não eram atores tipicamente hitchcockianos, como, por exemplo, James Stewart e Ingrid Bergman, mas, sendo ótimos atores, dão conta muito bem do recado.
Enfim, "Cortina rasgada" é mais uma das muitas obras-primas do maior cineasta de todos os tempos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O desconcerto do mundo segundo Woody Allen

"Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo". A frase de Renato Russo, da música "Há tempos" da Legião Urbana, poderia perfeitamente servir de epígrafe ao filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Whatever works, 2009). Nele, Larry David vive Boris, um sujeito completamnete neurótico, hipocondríaco, niilista, enfim, um desesperançado da raça humana. Acredita firmemente que não existe nenhum Deus comamdando nosso destino, e que tudo que nos acontece é resultado do acaso. Boris encontra uma jovem chamada Melody (Evan Rachel Wood), uma caipira que fugiu de casa e vai parar no apartamento do misantropo Boris. Não espere o clichê de que ela o modifica e ele se torna um ser humano melhor. Ele continua o mesmo, só que agora passa sua descrença no Homem para a jovem ingênua que, na verdade, apenas repete os seus "ensinamentos" mas não entende nada do que ele diz.
É óbvio que o personagem interpretado por Larry David representa a visão de mundo do próprio Woody Allen. É só dar uma olhada em sua filmografia para constatar que o diretor novaiorquino é ele mesmo um descrente no mundo e no ser humano. Também é óbvio que Allen é ateu, e mostra isso em quase todos os seus filmes. O grande lance, aqui, é o diretor mostrar sua desesperança com o mundo moderno através de dialogos afiadíssimos e muito engraçados. Já virou  clássica a tirada de que Deus é um decorador.
Muito tem se falado que os filmes recentes do cineasta representam uma decadência se comparado às peéolas que ele dirigiu nos anos 70 e 80. Pode até ser que seus filmes, a partir da década de 90, tenham sofrido um decréscimo de qualidade, mas, de maneira alguma, são filmes ruins.Muito longe disso. Na verdade, o único trabalho do diretor nesse período mais recente que me deixou um pouco decepcionado foi "Vicky Cristina Barcelona". De resto, gostei de todos os outros. Uns mais, outros menos, mas todos com um talento e uma criatividade impressionantes.
"Tudo pode dar certo" é uma obra divertidíssima sobre, como diria Camões, o "desconcerto do mundo".

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É preciso passar pelo inferno para chegar ao céu

Não é novidade nenhuma afirmar que Martin Scorsese é um cineasta profundamente ligado às suas raízes católicas. Seus personagens estão sempre, direta ou indiretamente, buscando a redenção, expiando os pecados ("Touro indomável"), ou , de forma um tanto torta, tentando salvar o mundo, como se tivessem recebido uma missão divina ("Taxi driver"). As duas coisas ocorrem com o personagem de Nicolas Cage neste belíssimo "Vivendo no limite "(Bringing out the dead, 1999), um subestimado filme do diretor de "Caminhos perigosos", que merece figurar entre as grandes obras do cineasta.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Douglas Sirk mostra as rachaduras do american way of life

Uma panorâmica passa pelas impecáveis casas de classe mádia de uma típica cidadezinha americana  da década de 50. No terraço de uma dessas casas, Cary Scott (Jane Wyman) toma chá com uma amiga (Agnes Moorehead). Sabemos, pela conversa das duas, que Cary é uma viúva ainda hesitante em encontrar um novo amor, apesar da insistência da amiga e dos filhos, já adultos.Na cena seguinte, Cary convida seu jardineiro, Scott (Rock Hudson) para uma xícara de chá, totalmente inocente. Mas esses encontros inocentes se sucedem e os dois acabam se apaixonando. É aí que aquele mundo perfeito, de casas com gramas perfeitamente aparadas, filhos lindos e inteligentes, festas no Country Club, acaba mostrando sua verdadeira face.Por tras da reluzente fachada, há um mundo de preconceito, egoísmo e mesquinharia.
A palavra melodrama adquiriu, com o correr dos anos, uma conotação pejorativa, devido, principalmente, às novelas de péssima qualidade com as quais a TV nos brinda ao longo dos anos. No entanto, artistas talentosos como Douglas Sirk, diretor deste "Tudo que o céu permite" (All that heaven allows, 1955) mostram que o gênero podia, e pode, ser muito mais profundo do que o rótulo faz parecer.
O que nas mãos de um cineasta menos capacitado ( ou dos autores de novelas da Globo) seria uma vulgar história de amor impossível, nas mãos do mestre Sirk transforma-se num sofisticado estudo sobre as relações familiares e sobre a mentalidade pequeno burguesa numa cidadezinha do interior americano. Cidadezinha, aliás, que poderia ser qualquer uma do mundo.
Logo no começo, naquela já referida panorâmica, vemos carros de cores berrantes passando na rua, mulheres de vestidos chamativos. Nas festas promovidas pela comunuidade local também somos apresentados a um mundo de opulência e exibicionismo. Sirk, ao utilizar essas cores berrantes, exageradas, quer enfatizar a artificialidade e falsidade deste mundo, construído sobre aparências muito frágeis, mas que comandam a vida das pessoas. Os espelhos espalhados pelos cenários, que o diretor tanto gostava, destacam ainda mais este ambiente de superficialidade.
Outro ponto a destacar no filme é o impressionante egoísmo dos filhos de Jane Wyman. Sirk sempre gostou de filmar conflitos familiares que, de vez em quando, acabam em tragédia ("Palavras ao vento", "Imitação da vida"), a fim de mostrar que uma das mais sólidas instituições americanas ( e não só americana) não é tão forte assim. Um simples caso de amor pode derrubar a fortaleza, mostrando os podres de cada um. Os filhos de Cary fazem um escândalo quando a mãe anuncia seu casamento com o jardineiro, preocupados não com a felicidade da mãe, mas com sua própria posicão na sociedade, "o que os outros vão pensar "? Quando, pressionada por tudo e todos, Wyman desiste do casamento, os filhos, que haviam saído de casa, voltam e comemoram o natal como se nada tivesse acontecido. Não estão nem aí com a tristeza da mãe. Inclusive, anunciam que vão sair, não só de casa, mas da cidade ! A decepção estampada no rosto da grande atriz é de uma força impressionante, mostrando como o cinema, quando feito por grandes artistas, pode ser uma arte tão poderosa como qualquer outra. E isso, trabalhando num gênero popular, o melodrama, com astros famosos e num grande estúdio Hollywoodiano ! Sirk detona a sociedade americana trabalhando em seu próprio jardim, usando seus recursos e, principalmente, utilizando seu principal veículo de comunicação, o cinema. E o filme foi um sucesso !
"Tudo que o céu permite" é uma aula de sofisticação dramática poucas vezes vistas na história da sétima arte.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O raio não caiu duas vezes

Na obra-prima "Vera Cruz", o diretor Robert Aldrich realizou um belo faroeste calcado na relação entre os personagens de Gary Cooper e Burt Lancaster. Dois mercenários, com motivações diferentes, que acabam criando uma relação de mútuo respeito e desconfiança. Todo o pano de fundo da Revolução Mexicana, das "malandragens" da Condessa, estão, de algum modo, atreladas à relação estabelecida entre os dois. Em enxutos 90 minutos, Aldrich cria uma obra admirável de agilidade e concisão. Na verdade, o filme é um monunento ao cinismo, raras vezes alcançado no cinema americano. O que faz de "Vera Cruz", ainda hoje, um trabalho muito atual.
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A luta pela sanidade

Uma pequena patrulha de soldados ingleses, durante a Primeira Guerra Mundial, está perdida no deserto da Mesopotâmia. Um a um eles são aniquilados por árabes, que sempre aparecem repentinamente.
Este é o fiapo de história de "A patrulha perdida" (The lost patrol, 1934), um dos menos conhecidos filmes do mestre John Ford. Assim como ele fará mais tarde em suas obras mais famosas, o diretor trabalha a paisagem como poucos, fazendo dela outro personagem do filme. Pouco a pouco, devido ao sol escaldante, à incerteza de não se saber onde está nem para onde ir e, principalmente, à ansiedade de não se saber de onde vem o próximo tiro, faz com que os soldados, paulatinamente, vão perdendo a razão.
O pelotão é comandado pelo sargento interpretado por Victor McLaglen (um dos atores preferidos de Ford), que tenta a todo o custo manter a sanidade. Entre seus comandados aparece o soldado Sanders (Boris Karloff), um fanático religioso que em tudo vê a mão de Deus ou do diabo, o que não ajuda em nada na unidade do grupo.
Embora, comparado às obras-primas mais famosas do diretor, como "Paixão dos fortes", Rastros de ódio", "O homem que matou o facínora", entre outras, este filme possa ser considerado "menor" na carreira do cineasta, ainda assim é um belo exercício cinematográfico, mostrando que John Ford não dirigia apenas faroestes, mas sabia também retratar a natureza humana.