quinta-feira, 26 de maio de 2011

O mundo complexo de Anthony Mann

O faroeste foi um gênero que nasceu quase junto com o cinema. Basta lembrar que "O grande roubo do trem" (The great train robbery), do pioneiro Edwin S.Porter, é de 1903. Ate 1924, no entanto, os filmes de western eram extremamente simples, mocinhos versus bandidos, donzelas puras em perigo, os índios malvados e os homens brancos os salvadores. Em 1924, o diretor John Ford realizou "O cavalo de ferro" (The iron horse), um faroeste que, se não chegava a ser completamente maduro artisticamente, já era um primeiro passo na direção de uma percepção de que o gênero poderia ser muito mais rico do que havia sido até então. Ford continuou realizando seus faroestes magníficos ,com uma evolução clara de um para o outro, até atingir o máximo em "Rastros de ódio" (The searchers, 1956). Mas, houve outro cineasta que também ajudou demais no desenvolvimento do gênero: Anthony Mann (1906-1967). Se John Ford procurava retratar o homem do faroeste da forma mais autêntica possível, Mann foi mais a fundo e procurou mostrar em seus personagens toda a natureza contraditória do Homem. Mocinhos e bandidos não são mais tão simples assim, uma zona cinzenta entre o bem e o mal se instala nos faroestes de Mann. Destes, um dos mais representativos é "E o sangue semeou a terra" (Bend of the river, 1952).
James Stewart interpreta Glyn McLyntock, um ex-pistoleiro que busca a regeneração ajudando um grupo de fazendeiros, guiando-os numa viagem até encontrarem terras férteis para iniciarem suas plantações.McLyntock tem uma marca de corda no pescoço, do tempo em que era bandido e a populção tentou enforcá-lo por conta própria. Ele encontra no caminho Emerson Cole (Arthur Kennedy), um homem que ainda não sabe muito bem se quer continuar fora da lei ou se quer se endireitar como McLyntock.
Como sempre acontece nos faroestes do diretor, principalmente nos estrelados por James Stewart, os dois personagens representam as duas possibilidades que se apresentam no caminho do Homem: seguir o caminho certo ou o errado, a escolha é sempre do ser humano, não é o destino, ou Deus, ou o que quer que seja, é sempre o homem que escolhe qual estrada percorrer. Não é também uma escolha definitiva, Mann sempre acredita que um homem pode mudar. Pelo menos, alguns homens. Nem Stewart nem Kennedy são personagens unilaterais, daqueles que são de um modo e continuam assim pelo resto do filme. Por vezes, o passado violento de McLyntock se expressa em seu rosto. Da mesma maneira, Cole é capaz de gestos heróicos, até arriscando a vida para salvar outras pessoas. Para Anthony Mann, nada é tão simples, muito menos o ser humano.
Conseguindo combinar uma visão de mundo e do ser humano muito pessoal e, ao mesmo tempo, respeitando as regras do espetáculo hollywoodiano, Anthony Mann é um dos mais significativos cineastas americanos da década de 50.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Rivalidades idiotas

Há um certo tipo de cinefilia que me irrita profundamente. São aqueles "cinéfilos" que escolhem um cineasta em detrimento do outro. Erguem um altar para os diretores de sua preferência e jogam pedras naquele que julgam ser o seu rival. Há varios exemplos dessa "disputa" imbecil, mas os dois que mais chamam a atenção são aqueles que colocam em "lados opostos do ringue" os cineastas Jean-Luc Godard e François Truffaut, e Buster Keaton "contra" Charles Chaplin. Segundo esses iluminados "amantes da sétima arte", se você gosta de Godard, tem que odiar Truffaut e vice-versa. O mesmo vale para a questão Keaton-Chaplin. Há algo mais burro que isso ? É claro que se pode ter preferências. Eu, por exemplo, gosto muito mais de Truffaut do que de Godard, mas não é por isso que eu vou execrar o diretor de "Acossado". Gosto de muitos filmes de Godard. Já em relação a Buster Keaton e Charles Chaplin, gosto igualmente dos dois, ambos foram gênios. Gostar mais de um não implica em odiar o outro.
Há também aquela rivalidade mais ampla, que opõe o cinemão hollywoodiano contra o cinema de arte europeu/asiático. São aqueles que acham que tudo que vem de Hollywood é descartável, diversão sem conteúdo, e tudo que vem da Europa, ou da Ásia, é arte,  profundo. Esses pobres coitados não percebem que um blockbuster hollywoodiano pode ter muito mais profundidade que um "filme cabeça" vindo da Suécia, por exemplo. Nem tudo que vem de Hollywood é lixo, e nem tudo que vem da Europa é arte superior. Mas alguns ainda acreditam nisso. Estão perdendo uma ótima oportunidade de se enriquecerem cinematograficamente. Mas sempre é tempo de despertar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Clint nos faz olhar além da superfície das coisas

Numa cena de "Os imperdoáveis" ( The unforgiven, 1992), o ex-pistoleiro, "matador de mulheres e crianças", William Munny, encontra enorme dificuldade em montar num cavalo. Numa das vezes em que ele cai no chão, observa o olhar perplexo de seus dois filhos pequenos e diz algo como: "na minha juventude eu maltratava muito os animais, batia neles e agora Deus está me punindo pelas coisas más que eu fazia".
Munny sente que merece esse "castigo" pelo seu passado. Em boa parte de sua obra, o cineasta Clint Eastwood aborda o tema do passado sempre  assombrando e, por vezes, paralisando seus personagens no presente.
Em "Dívida de sangue" (Bloodwork, 2001), o diretor interpreta o agente do FBI Terry McLabe que, após uma perseguição a um assassino em série, acaba sofrendo um ataque cardíaco. Depois de dois anos, ele consegue um novo coração, de uma mulher que morreu assassinada. McLabe vive tranquilamente em seu barco até que um dia vem lhe visitar uma mulher chamada Graciela Rivers. Ela lhe revela que é a irmã da moça cujo coração bate no peito do ex-agente e pede para que ele ache o assassino de sua irmã.
Durante o tempo que permaneceu no hospital e depois, quando finalmente consegue um novo coração, McLabe não tem certeza se ele merece aquela nova chance. Principalmente depois que ele vê um garotinho, no mesmo hospital em que ele estava, quase sem chances de receber um transplante. E ele conseguiu. Mas ele merece ? O seu passado o favorece ? Ele resolve, então, fazer valer essa segunda chance que recebeu, indo à caça do assassino da mulher que, morrendo, lhe salvou a vida. Repare que McLabe sempre coloca a mão no peito, para se lembrar do presente que recebeu e se convencer de que ele é merecedor deste presente.
Além da questão do passado assombrando o presente, outro tema frequente de Clint abordado no filme é a fragilidade das evidências, das aparências. Aquilo que parece óbvio para todos, na verdade, esconde o que realmente aconteceu. A verdade profunda das coisas, dos fatos, nunca está na superfície, naquilo que pode ser visto a olho nu. Nunca a realidade, a vida, é tão óbvia. As vezes temos que cavar fundo para encontrar o real sentido das coisas, indo muito além da superfície; outras vezes a verdade está tão na nossa cara que demoramos para lhe notar. De um modo ou de outro, o que o cineasta Clint Eastwood nos diz, de filme em filme, é que não devemos nos fiar demais nas aparências, naquilo que nos parece a verdade absoluta. Nada é tão simples, nem tão óbvio. Aliás, é assim também com os filmes de Clint. Parecem simples, até bobos em certos casos, mas por trás desta aparente simplicidade, há toda uma complexidade a ser descoberta. O que faz dele, sem sombra de dúvida, o melhor cineasta americano em atividade e um dos melhores do mundo.