O que menos importa em "Avatar" (Avatar, 2009) de James Cameron, é a tal revolução tecnológica que o filme apresentou, e que o transformou no "filme-evento" da última década. Realmente é impressionante a criação, por computador, do planeta de Pandora, com seus habitantes azuis e animais alados. Ainda mais se vistos na tela grande do cinema. No entanto, como a tecnologia é algo que está sempre evoluindo, provavelmente daqui a 5 ou 7 anos, as tecnicas usadas no filme já estarão ultrapassadas. Sendo assim, o que garantirá "Avatar" como uma obra que transcende as inovações tecnológicas são suas qualidades cinematográficas, ou seja, uma boa história, personangens consistentes, direção criativa e uma visão de mundo pessoal. Afortunadamente, quem desenvolveu o projeto foi James Cameron, cineasta que sempre soube aliar a tecnica com uma grande capacidade narrativa, megalomanias à parte. Se caísse nas mãos de um Michael bay da vida, o fime causaria certa sensação por causa das inovações, mas seria esquecido no momento em que acabasse a sessão.
A história é uma clara metáfora sobre o poder imperialista dos Estados Unidos. O ex-fuzileiro naval Jake Sully (Sam Worthington) é escolhido para servir de informante sobre o planeta Pandora, no qual habita o povo na´vi. Este povo vive na mais total harmonia com a natureza. O "povo do céu" (nós) quer colonizar Pandora por causa de uma substância riquíssima que só se encontra lá. Jake, aos poucos, irá abraçar o estilo de vida dos na´vi , a ponto de trair sua própria gente. Sim, a história é cheia de clichês e ,em última instância, nem era necessário criar todo um mundo através da computação, mas o filme funciona por causa do grande talento cinematogtráfico de Cameron. O diretor já havia abordado o embate entre a natureza e a tecnologia em seu filme anterior, "Titanic" (Titanic, 1997), no qual a primeira levava a melhor, na forma de um iceberg que destruiu em uma hora a "oitava maravilha do mundo", um navio sofisticadíssimo, que era "infundável", segundo a arrogância de seus criadores. Em "Avatar" a natureza também vence, não sem grandes perdas e sacrifícios por parte do povo na´vi.
A crítica aos EUA é feita de forma muito forte através da figura do comandante militar da operação colonizadora em Pandora. "O que nós queremos, nós pegamos" é o seu lema. Uma clara referência aos anos Bush ( pai e filho). Pode soar meio ingênuo, no fim das contas, mas, novamente, a perícia narrativa de Cameron supre este "defeito".
Não sei até que ponto é benéfica para o cinema este excesso de tecnologia. Afinal, não é sempre que haverá um James Cameron no comando. No final, o que garante a permanência de um filme é seu valor humano, não os efeitos especiais. Como disse certa vez Francis Ford Coppola, "a tecnologia faz parte da criatividade, mas nunca pode ser a fonte da criatividade". James Cameron entendeu isto muito bem, esperamos que a nova geração também entenda.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Sem mocinhos e bandidos
"Terra bruta"(Two rode together, 1961), de John Ford, é uma variação do tema de "Rastros de ódio" (The searchers, 1956), do mesmo diretor. A questão do resgate de brancos, capturados por índios. A diferença é que, no primeiro, o Ethan Edwards de John Wayne é um homem amargurado, em constante guerra consigo mesmo; já no segundo, o personagem interpretado por James Stewart (numa das melhores atuações de sua carreira),o "folgado" xerife Guthrie McCabe não tem nada de amargura, nem de conflitos internos. Aceita a incumbência de resgatar os brancos puramente pelo dinheiro. É acompanhado em sua jornada pelo Sargento Gary (Richrad Widmark) que, embora amigo de McCabe é o seu exato oposto. Com um alto senso de dever e moral, é o militar ideal tantas vezes retratado por John Ford. As conversas entre os dois rendem momentos deliciosos.
Ford relativiza o papel de vilão dos índios, fazendo os brancos parecerem muito mais odiosos que os comanches. A cena do baile é um exemplo claro disso.
Não há dúvida de que no final da carreira Ford quis se desculpar, talvez em nome de todo o cinema americano, da maneira como os índios vinham sido retratados na tela. Não fez isso fazendo obras condescendentes, mostrando os índios como "coitadinhos". Expôs os dois lados da moeda, mostrando os defeitos e virtudes tanto dos brancos como dos índios.
Nesse sentido, pode-se falar numa espécie de trilogia informal sobre a questão indígena, composta dos filmes "Rastros de ódio", este "Terra bruta" e fechando com "Crepúsculo de uma raça" (The cheyenne autumn, 1964), este sim, um pedido mais claro de desculpas.
"Terra bruta" vem sendo prejudicado, ao longo dos anos, porque os críticos insistem em compará-lo a "Rastros de ódio", uma obra-prima incontestável de toda a história do cinema. É preciso separar os dois filmes. "Two rode together" merece uma revisão indepedente.
Ford relativiza o papel de vilão dos índios, fazendo os brancos parecerem muito mais odiosos que os comanches. A cena do baile é um exemplo claro disso.
Não há dúvida de que no final da carreira Ford quis se desculpar, talvez em nome de todo o cinema americano, da maneira como os índios vinham sido retratados na tela. Não fez isso fazendo obras condescendentes, mostrando os índios como "coitadinhos". Expôs os dois lados da moeda, mostrando os defeitos e virtudes tanto dos brancos como dos índios.
Nesse sentido, pode-se falar numa espécie de trilogia informal sobre a questão indígena, composta dos filmes "Rastros de ódio", este "Terra bruta" e fechando com "Crepúsculo de uma raça" (The cheyenne autumn, 1964), este sim, um pedido mais claro de desculpas.
"Terra bruta" vem sendo prejudicado, ao longo dos anos, porque os críticos insistem em compará-lo a "Rastros de ódio", uma obra-prima incontestável de toda a história do cinema. É preciso separar os dois filmes. "Two rode together" merece uma revisão indepedente.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
O assassinato como negócio
Que Charles Chaplin é o maior gênio da história do cinema não há dúvida. No entanto, quando se fala em seu nome, a primeira coisa que vem à mente é a figura do "vagabundo" com suas calças largas e velhas, seus sapatos grandes, o jeito engraçado de andar rodopiando a bengala, o cumprimento com o chapéu e o indefectível bigodinho. Realmente, o personagem criado pelo ator/diretor/roteirista/compositor é o mais icônico não só do cinema, mas de toda a cultura do século XX. E os filmes realizados e protagonizados por Carlitos (como ficou conhecido no Brasil) são, realmente, notáveis e engraçadíssimos, desde os curta-metragens da Keystone até os longas como "O Circo" (The circus, 1928) , "Luzes da cidade"( City lights, 1931), entre outros.
Mas, nem sempre, Chaplin foi Carlitos. Ainda em 1923 ele realizou o pungente drama "Casamento ou luxo" (A woman in Paris). Após "O grande ditador" (The great dictator, 1941), o diretor foi quase que exilado dos Estados Unidos por suspeita de ser comunista. Passou a realizar filmes apenas esporadicamente, sempre com um olhar extremamente crítico para o país que o abrigou e depois o expulsou (Chaplin era inglês). O mais ácido desses filmes foi, sem dúvida nenhuma, "Monseiur Verdoux" (idem, 1947), uma comédia de humor negro muito à frente de seu tempo, por isso mesmo, um fracasso quando de seu lançamento. Conta a história do caixa de banco Henri Verdoux ( o próprio Chaplin) que, devido à depressão econômica americana de 1929, acaba perdendo o emprego após 30 anos. Para sustentar a mulher inválida e o filho, não encontrando outro trabalho em sua idade avançada, ele passa a se casar com viúvas ricas, as mata, e fica com o dinheiro.
Todas as situações do filme são mostradas com muito humor, como a tentativa de assassinato de uma de suas vítimas (Martha Hyer) num barco.
Num mundo capitalista, o assassinato torna-se um empreendimento legítimo, um negócio como qualquer outro, com seus riscos e suas recompensas. Na antológica sequencia do julgamento, Verdoux diz que o próprio mundo encoraja o assassinato, com os governos construindo armas de destruição em massa, entrando em conflitos. Mata-se milhões de pessoas na guerra, torna-se um herói; mata uma pessoa em tempo de paz e se torna um assassino. A lógica de Verdoux/Chaplin é implacável. Num mundo vil, violento, como o nosso, para sobrevivermos, também temos que ser vis e violentos. O mundo nos ensina isso. Não é nada pessoal, apenas uma questão de sobrevivência. Afinal, num mundo capitalista somos medidos pelo dinheiro que possuímos.
É claro que um filme com um argumento desses iria assustar as platéias da década de 40, ainda traumatizadas pelos seis anos de conflito bélico. Mesmo hoje quando, apesar de oficiamente não termos mais censura mas, em compensação, temos a praga do politicamente correto, o filme de Chaplin ainda causa uma certa surpresa. Provavelmete os moralistas de plantão iriam chiar. É claro que Chaplin não está encorajando o assassinato, ele mostra, apenas, que o mundo como se apresenta, cria condições para isso.
Pode parecer um filme depressivo, mórbido, mas não é nada disso. É divertidíssimo, com cenas muito engraçadas. O melhor filme de Chaplin.
Mas, nem sempre, Chaplin foi Carlitos. Ainda em 1923 ele realizou o pungente drama "Casamento ou luxo" (A woman in Paris). Após "O grande ditador" (The great dictator, 1941), o diretor foi quase que exilado dos Estados Unidos por suspeita de ser comunista. Passou a realizar filmes apenas esporadicamente, sempre com um olhar extremamente crítico para o país que o abrigou e depois o expulsou (Chaplin era inglês). O mais ácido desses filmes foi, sem dúvida nenhuma, "Monseiur Verdoux" (idem, 1947), uma comédia de humor negro muito à frente de seu tempo, por isso mesmo, um fracasso quando de seu lançamento. Conta a história do caixa de banco Henri Verdoux ( o próprio Chaplin) que, devido à depressão econômica americana de 1929, acaba perdendo o emprego após 30 anos. Para sustentar a mulher inválida e o filho, não encontrando outro trabalho em sua idade avançada, ele passa a se casar com viúvas ricas, as mata, e fica com o dinheiro.
Todas as situações do filme são mostradas com muito humor, como a tentativa de assassinato de uma de suas vítimas (Martha Hyer) num barco.
Num mundo capitalista, o assassinato torna-se um empreendimento legítimo, um negócio como qualquer outro, com seus riscos e suas recompensas. Na antológica sequencia do julgamento, Verdoux diz que o próprio mundo encoraja o assassinato, com os governos construindo armas de destruição em massa, entrando em conflitos. Mata-se milhões de pessoas na guerra, torna-se um herói; mata uma pessoa em tempo de paz e se torna um assassino. A lógica de Verdoux/Chaplin é implacável. Num mundo vil, violento, como o nosso, para sobrevivermos, também temos que ser vis e violentos. O mundo nos ensina isso. Não é nada pessoal, apenas uma questão de sobrevivência. Afinal, num mundo capitalista somos medidos pelo dinheiro que possuímos.
É claro que um filme com um argumento desses iria assustar as platéias da década de 40, ainda traumatizadas pelos seis anos de conflito bélico. Mesmo hoje quando, apesar de oficiamente não termos mais censura mas, em compensação, temos a praga do politicamente correto, o filme de Chaplin ainda causa uma certa surpresa. Provavelmete os moralistas de plantão iriam chiar. É claro que Chaplin não está encorajando o assassinato, ele mostra, apenas, que o mundo como se apresenta, cria condições para isso.
Pode parecer um filme depressivo, mórbido, mas não é nada disso. É divertidíssimo, com cenas muito engraçadas. O melhor filme de Chaplin.
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