quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um caso raro no cinema

Raras vezes, na história do cinema, uma refilmagem é tão boa quanto o original. Só consigo me lembrar de "Cabo do medo" (Cape fear, 1993), de Martin Scorsese, que refilmou "Círculo do Medo", de J.Lee Thompson, de 1962. Scorsese conseguiu, inclusive, em alguns aspectos, melhorar o clássico de Thompson. Mas fora esse, não me lembro de nenhuma refilmagem que sequer se comparasse ao original.
Além de Scorsese, outro que conseguiu esse feito, alguns anos antes, em 1983, foi Brian De Palma com sua releitura de "Scarface, a vergonha de uma nação" (1932), clássico absoluto de Howard Hawks, protótipo de todos os filmes de gângster, desde 'O poderoso chefão" até "Inimigo público".
Na essência os filmes não têm grande diferença entre si. Ambos contam a história de um criminoso (Tony Camonte de 1932, Tony Motana, na refilmagem) que começa de baixo e vai abrindo caminho a bala na hierarquia do crime organizado, até se transformar no "poderoso chefão" do tráfico de bebidas alcoólicas, na obra de Hawks (estamos em Chicago na época da Lei seca) e de cocaína no filme de De Palma. Nos dois filmes, também, o Scarface do título (chamado assim por causa de uma cicatriz no rosto) envolve-se com a namorada do patrão (Karen Morley no original, Michelle Pheiffer no remake). E o fato mais comentado das duas versões: a relação incestuosa que Tony mantém com a irmã, relação esta travestida de um ciúme doentio, mas que nas entrelinhas fica muito clara a real situação, principalmnte ele em relação a ela. A irmã chama-se Cesca no primeiro filme e é interpretada por Ann Dvorak; na refilmagem ela recebe o nome de Gina e é representada por Mary Elizabeth Mastrantonio.
Já os atores que interpretam o celerado criminoso o fazem quase da mesma maneira: Paul Muni no primeiro e Al Pacino no segundo. Ambos retratam um bandido extremamente seguro de si, arrogante, que zombam da autoridade, e é claro, extremamente violentos. Ambos também são imigrantes, Muni,da Itália; Pacino, de Cuba. Parece que na visão dos americanos, a instalação do crime na América nunca vem de dentro, dos prórios americanos, mas sempre de fora, dos imigrantes.
Falando um pouco da obra de 1932, é incrível como o filme conseguiu passar pela censura. Hoje, parece banal, mas para a época, com certeza, era um filme violentíssimo. Há várias cenas com rajadas de metralhadoras disparadas em lugares públicos. Repare na cena quando Muni consegue, pela primeira vez, adquirir metralhadoras. Ele experimenta um prazer quase sexual tocando nelas. Há também a relação com a irmã. No momento em que Tony mata George Raft, seu braço direito, por puro ciúme, antes de descobrir que ele se casou com sua irmã, a reação de Cesca é de revolta. Na cena seguinte, enquanto Tony está arrependido de seu ato, Cesca entra na sala para matá-lo. Mas, no momento em que ela ouve a polícia chegando, o sangue, ( a paixão ?) fala mais alto e ela passa a lutar ao lado do irmão. É quase como se ela estivesse, finalmente, entregando-se a ele. Nesse sentido, Hawks conseguiu ser mais ousado que De Palma..
Finalmente, os dois filmes refletem o estilo de seus diretores. O "Scarface"de Hawks é seco, direto, enxuto, sem enrolações nem grandes dramaticidades. O de De Palma é cheio dos malabarismos técnicos com a câmera que o diretor adorava. E as cenas são mais grandiosas, nada da simplicidade hawksiana ( a famosa "câmera na altura dos olhos"). Uma cena, semelhante nos dois filmes, resume a diferença entre os dois grandes cineastas: o já citado assassinato do braço direito de Tony, que ocorre nos dois filmes, por ciúmes da irmã. Hawks encena de modo muito simples: a campanhia toca, Raft atende; corte para Cesca, que faz uma cara amedontrada; tiros, Raft cai ao chão. Já DePalma, na mesma cena, quando a campanhia soa, uma música clássica começa a tocar, câmera lenta, Tony dispara, Manny Ribera cai lentamente ao chão. Desespero de Gina. Parece uma ópera ! As duas cenas são belíssimas.
Assim, as duas versões são muito boas. Mas, se eu fosse obrigado a escolher uma, escolheria a de Hawks.

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