domingo, 22 de agosto de 2010

A guerra por dentro

Em 1998 Steven Spielberg causou comoção no público e na crítica com os famosos 45 minutos iniciais de "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan). Realmente a reconstituição do desembarque aliado na Normandia e a batalha que se seguiu foi impressionante. Mas, passados os 45 minutos, ficamos ainda um pouco artodoados com as imagens que acabamos de assistir e depois esquecemos. Spielberg não soube manter o mesmo impacto durante o restante do filme. Quando acabamos de ver o filme, ele termina na projeção, ou seja, ele não nos acompanha depois, não fica na nossa cabeça ( com exceção dos primeiros 45 minutos). Ocorre exatamente o oposto em "Capacete de aço" (The steel helmet), mais uma das obras-primas de Samuel Fuller. Neste, quando o filme termina, ficamos pensando, entre outras coisas, na estupidez do Homem.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.

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