sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O assassinato como negócio

Que Charles Chaplin é o maior gênio da história do cinema não há dúvida. No entanto, quando se fala em seu nome, a primeira coisa que vem à mente é a figura do "vagabundo" com suas calças largas e velhas, seus sapatos grandes, o jeito engraçado de andar rodopiando a bengala, o cumprimento com o chapéu e o indefectível bigodinho. Realmente, o personagem criado pelo ator/diretor/roteirista/compositor é o mais icônico não só do cinema, mas de toda a cultura do século XX. E os filmes realizados e protagonizados por Carlitos (como ficou conhecido no Brasil) são, realmente, notáveis e engraçadíssimos, desde os curta-metragens da Keystone até os longas como "O Circo" (The circus, 1928) , "Luzes da cidade"( City lights, 1931), entre outros.
Mas, nem sempre, Chaplin foi Carlitos. Ainda em 1923 ele realizou o pungente drama "Casamento ou luxo" (A woman in Paris). Após "O grande ditador" (The great dictator, 1941), o diretor foi quase que exilado dos Estados Unidos por suspeita de ser comunista. Passou a realizar filmes apenas esporadicamente, sempre com um olhar extremamente crítico para o país que o abrigou e depois o expulsou (Chaplin era inglês). O mais ácido desses filmes foi, sem dúvida nenhuma, "Monseiur Verdoux" (idem, 1947), uma comédia de humor negro muito à frente de seu tempo, por isso mesmo, um fracasso quando de seu lançamento. Conta a história do caixa de banco Henri Verdoux ( o próprio Chaplin) que, devido à depressão econômica americana de 1929, acaba perdendo o emprego após 30 anos. Para sustentar a mulher inválida e o filho, não encontrando outro trabalho em sua idade avançada, ele passa a se casar com viúvas ricas, as mata, e fica com o dinheiro.
Todas as situações do filme são mostradas com muito humor, como a tentativa de assassinato de uma de suas vítimas (Martha Hyer) num barco.
Num mundo capitalista, o assassinato torna-se um empreendimento legítimo, um negócio como qualquer outro, com seus riscos e suas recompensas. Na antológica sequencia do julgamento, Verdoux diz que o próprio mundo encoraja o assassinato, com os governos construindo armas de destruição em massa, entrando em conflitos. Mata-se milhões de pessoas na guerra, torna-se um herói; mata uma pessoa em tempo de paz e se torna um assassino. A lógica de Verdoux/Chaplin é implacável. Num mundo vil, violento, como o nosso, para sobrevivermos, também temos que ser vis e violentos. O mundo nos ensina isso. Não é nada pessoal, apenas uma questão de sobrevivência. Afinal, num mundo capitalista somos medidos pelo dinheiro que possuímos.
É claro que um filme com um argumento desses iria assustar as platéias da década de 40, ainda traumatizadas pelos seis anos de conflito bélico. Mesmo hoje quando, apesar de oficiamente não termos mais censura mas, em compensação, temos a praga do politicamente correto, o filme de Chaplin ainda causa uma certa surpresa. Provavelmete os moralistas de plantão iriam chiar. É claro que Chaplin não está encorajando o assassinato, ele mostra, apenas, que o mundo como se apresenta, cria condições para isso.
Pode parecer um filme depressivo, mórbido, mas não é nada disso. É divertidíssimo, com cenas muito engraçadas. O melhor filme de Chaplin.

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