O diretor americano Martin Ritt (1914-1990), a meu ver, teve três fases mais ou menos delimitadas: a primeira, como um simples diretor de estúdio, fazendo filmes por encomenda, sem grande esforço pessoal. São desta fase filmes como "Orquidea negra" (1958), "O mercador de almas" (1958), "Paris vive à noite" (1961), entre outros. São filmes agradáveis de se ver, mas que você esquece logo que acaba a projeção. Ritt começou a dar sinais de que podia ser mais que um "pau mandado" no filme "O indomado"(1962). Embora não seja um grande filme, "Hud", o título original, possui algumas boas qualidades que foram mais bem lapidadas em seus dois filmes seguintes, "Quatro confissões" (1964), refilmagem da obra-prima "Rashomon" de Akira Kurosawa e , principalmente em " O espião que saiu do frio" (1965), uma espécie de versão desglamourizada de "007".
Mas é a partir de "Hombre" (1967), que começa a fase mais esplendorosa da carreira de Ritt e que o coloca, definitivamente, entre os mais importantes cineastas do cinema americano. Deste filme em diante, o diretor assume de vez sua postura política esquerdista, fazendo filmes que defendem os trabalhadores pobres contra as corporações poderosas e exploradoras. Mas não pense que Ritt é um maniqueísta, fazendo divisões burras do tipo "os trabalhadores são coitadinhos bonzinhos, e os patrões malvados sem coração". Nada disso. Nos filmes dessa fase, os personagens são muito bem delineados, há os patrões conscienciosos e também há os trabalhadores sem escrúpulos. Sem dúvida nenhuma, a obra-prima desta fase e de toda a obra de Ritt é "Ver-te-ei no inferno" (The Molly Maguires, 1971). A história de um policial (Richard Harris) que se infiltra numa mina de carvão para descobrir quem é o líder de uma série de sabotagens que vem acontecendo no lugar. Observando as condições sub-humanas dos mineiros, o policial, por vezes, pensa em esquecer a sua missão e se juntar aos sabotadores. Mas, no final, o dever fala mais alto. A cena final, um diálogo entre ele e o líder da rebelião, interpretado por Sean Connery, é daqueles momentos antológicos do cinema. Esta fase magnífica vai até 1979, com "Norma Rae", outra vigorosa denúncia contra as condições sub-humanas de trabalho, desta vez numa fábrica têxtil. Aqui, o diretor junta os conflitos pessoais da protagonista, com o lado social.
Em seus últimos filmes, a chamada terceira fase, Ritt deu uma maneirada. Parece que ele cansou de gritar contra as injustiças e passou a realizar filmes mais tranquilos, serenos, como "O romance de Murphy" (1982), uma história de amor agridoce, assim como seu último filme, "Stanley e Iris" (1990). Os dois filmes são ótimos, principalmente o primeiro, mas a fase mais vigorosa do diretor havia acabado.
Assim, do período que vai de 1967 até 1979, Martin Ritt foi um dos mais importantes cineastas americanos. E pela imensa qualidade dos filmes que ele realizou neste período, o cineasta tem um lugar certo na história do cinema.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário