"Maldição" (House by the river, 1950) é um dos mais cruéis filmes de Fritz Lang. Desde que chegou aos Estados Unidos em 1933, fugindo do nascente nazismo na Alemanha, Lang sempre apontou sua câmera para as rachaduras do chamado american way of life. Logo em seu primeiro filme americano, "Fúria" (Fury, 1936) o diretor contava a história de um homem inocente (Spencer Tracy) que é preso e quase linchado pela população enfurecida. Escapando por pouco de uma tentativa de linchamento dentro da própria cadeia, ele passa a planejar uma terrível vingança contra todos que o perseguiram. A vingança, aliás, é um dos temas frequentes na filmografia de Lang. É na obra-prima "Os corruptos" (The big heat, 1953) que este tema irá ganhar sua força máxima, tornando-o um dos maiores filmes americanos de todos os tempos. Como se vê, Fritz Lang não compartilha muito do ideal de felicidade e sucesso tão propagados como imagem da América.
Outro tema dominante na obra do diretor é a pesada mão do destino que cai impiedosamente sobre seus personagens. Normalmente causado por um evento banal, seus personagens, inocentemente são engendrados numa trama que os leva cada vez mais para baixo, quase à beira da destruição. É o que acontece, por exemplo, com Edward G. Robinson em "Almas perversas" (Scarlet street, 1945). Após ajudar uma "donzela em apuros", o pacato bancário interpretado por Robinson é seduzido pela mulher (Joan Bennett), que junto com seu comparsa (Dan Dureya) bolam um esquema para arrancar todo o dinheiro do pobre homem. Cego de paixão pela mulher que o engana, ele acaba seus dias como mendigo. A mão do destino foi implacável. Isso acontece com vários personagens de Lang, por exemplo, com a Anne Baxter de "A gardênia azul " (Blue gardenia, 1953), Glenn Ford em "Desejo humano" (Human desire, 1954), entre outros. Também acontece com Louis Hayward neste "Maldição", mas ele consegue, de certo modo, escapar do destino, a princípio.
A história : Hayward interpreta Stephen Byrne, um escritor fracassado casado com uma mulher rica, Marjorie (Jane Wyatt). Aproveitando uma bela tarde em que ela está fora, ele decide seduzir sua criada, Emily. A sedução não dá muito certo e ele acaba, acidentalmente, matando-a. Novamente, uma ação banal desencadeando uma tempestade sobre o personagem. Byrne pede ajuda a seu irmão, John (Lee Bowman), que relutantemente acaba o ajudando. Acontece que o saco no qual os dois despacharam o corpo da pobre criada rio abaixo tem o nome de John escrito. Ele passa a ser, assim, o principal suspeito da morte de Emily, deixando Stephen livre de qualquer suspeita.
O que diferencia Stephen Byrne de outros personagens languianos, no entanto, é que em nenhum momento Hayward se deixa abater pelos acontecimentos. Ao contrário, ele capitaliza em cima do "desaparecimento" da criada, escrevendo um romance sobre o assunto que vende como água. Também não tem nenhum escrúpulo em deixar que o seu irmão, que sempre o ajudou durante toda a vida, sofra as consequencias do ato que ele praticou. De certo modo, então, Louis Hayward desafia o destino, ao contrário dos outros personagens de Lang, que parecem aceitar o que o destino lhes oferece.
A partir do momento em que ele não assume a culpa, passa a ter uma outra personalidade, torna-se cruel com sua esposa, sai toda noite com prostitutas e continua a escrever romances sobre o assassinato que cometeu, pois é disso que o público gosta. Ele passa a se sentir poderoso, manipulando todos a sua volta e adora isso. Mas ninguém consegue desafiar o destino eternamente e uma hora as contas irão se ajustar para ele.
Nunca, como aqui, Fritz Lang foi tão longe na análise do lado obscuro da natureza humana. É surpreendente que o filme tenha conseguido sair, sem cortes ou suavizado, numa época em que o cinema americano era duramente vigiado pelos censores "guardiões da moral".
"Maldição" é um dos melhores filmes de Lang, mas curiosamente é um dos menos conhecidos. Não há astros famosos, mas os atores estão muito bem, em especial Louis Hayward. A fotografia em preto e branco é lindíssima, principalmente nas cenas em que aparece o rio à noite.
Em resumo, uma obra-prima.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
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