"Laranja mecânica" (A clockwork orange, 1971), de Stanley Kubrick, é um filme que não dá para apreender vendo uma só vez. Como toda obra-prima, é um filme no qual descobrimos coisas novas toda vez que o revemos. Possui vários níveis de entendimento. Mesmo aqueles que não gostaram (o que é quase impossível) não conseguem esquecer certas imagens do filme, ou pela sua brutalidade, ou por ser "esquisita" demais.
Falar que o trabalho de Kubrick é um estudo sobre a violência, embora seja verdade, é reduzir demais o filme. Na verdade, o diretor está mais interessado na violência institucional, do Estado contra o indivíduo, do que propriamente na violência física. Aliás, esse é um tema que aparece em outros filmes do cineasta, como em "Glória feita de sangue" (Paths of glory, 1957), "Spartacus" (idem, 1960), "Doutor Fantástico"(Dr. Strangelove, 1964) e "Nascido para matar"(Full metal jecket, 1987).
Por que Alex (Malcom McDowell, numa das maiores atuações da história da cinema) é violento ? O filme não se aprofunda muito sobre isso, mas nos dá algumas dicas. Por exemplo, no dia seguinte a mais uma noite da "boa e velha ultra-violência", Alex está no seu quarto, com uma dor nas partes genitais, portanto, não vai a escola. Sua mãe, de forma calma e compassiva, pondera que o filho já não vai a escola há uma semana. Ele enrola a resposta e a mãe, aceitando, volta a mesa para tomar o café da manhã. O pai desconfia do misterioso "trabalho" que o filho faz todas as noites, mas também não toma nenhuma providência sobre o assunto. Ou seja, os pais não estão nem aí com o filho, portanto, Alex pensa que pode tudo.
Quando ele finalmente é preso, começa a violência estatal. Não há dúvida de que Alex merece uma punição pesada, mas daí o Estado passar a utilizá-lo como cobaia num experimento de extirpação do instinto violento, com vistas a fins políticos, vai uma distância muito grande. O dever do Estado é tentar recuperar o criminoso e, se não for possível, tratar de mantê-lo atrás das grades. É claro que o tiro sai pela culatra. O enigmático final do filme, que já rendeu inúmeras interpretações, mostra que o futuro é bem sombrio, com uma possível união entre o poder político e a criminalidade. Coisa que nós, brasileiros, conhecemos muito bem.
"Laranja mecânica" é daqueles filmes que nunca irão envelhecer, do qual cada um tira uma leitura diferente, rendendo debates, na maioria das vezes, muito interessantes. Sem falar que é muito, mas muito bem filmado.
Enfim, é impossível falar desta obra-prima em algumas linhas. O melhor mesmo é ver o filme e tirar suas próprias conclusões.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
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