domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais um "loser" para a galeria de John Huston

Há certos filmes que se beneficiam do contexto no qual foram realizados. Nos anos 60, por exemplo, em Hollywood, não se podia falar, de forma aberta, em homossexualismo. Se algum personagem tivesse essa característica, os diretores tinham que dar um jeito de sugerir isso, sem explicitar, recorrendo a criatividade.
Otto Preminger, conhecido, além de grande diretor, como um "quebrador de tabus", mostrou em seu filme "Tempestade sobre Washington" (Advise and consent, 1962, o melhor filme já feito até hoje sobre política) uma cena que se passava num bar gay. Mas, uma obra que enfocava durante toda a sua projeção a angústia de ser um homossexual numa época em que isso era alvo de um preconceito enorme e até enquadrado como crime em alguns países, era algo inédito, pelo menos no "cinemão" de Hollywood. Quem conseguiu o feito foi John Huston, em "O pecado de todos nós" (Reflections in a golden eye, 1967). A palavra "gay" nunca é citada, mas sabemos que o Major Penderton (Marlon Brando) tem outras preferências. Huston usa de muitas sugestões, como o fato do Major não se relacionar sexualmente com sua mulher (Elizabeth Taylor) e o  modo como ele observa o Recruta Williams (Robert Forster) cavalgar nu, além de outras "dicas".
O filme quase não tem história. Narra a rotina num forte do Exército americano, no qual Penderton vive com sua esposa, que o trai com o Sargento Morris (Brian Keith). Este, por sua vez, é casado com uma mulher problemática (Julie Harris) que entrou em estado de choque quando sua filha recém-nascida morreu. Horrorizada de viver num ambiente totalmente desprovido de sensibilidade e compaixão, ela encontra refúgio num enfermeiro filipino que, além de cuidar dela, a diverte com seus trejeitos e brincadeiras. Claro que ele é ridicularizado por todos no Forte.
A aparente paz do lugar cai por terra quando o recruta Williams observa Leonora, a esposa do major, nua, pela janela. Fica obcecado por ela. Ao mesmo tempo, a homossexualidade do Major é despertada com a visão do soldado cavalgando nu pelos bosques. A partir daí é só uma questão de tempo para todas essas paixões explodirem e causar estragos.
O filme é carregado de símbolos, o mais forte deles o cavalo, que representa a potência sexual que Leonora não encontra mais no marido. A cena em que Brando açoita o garanhão Firebird é representativa disso. Na verdade, nesta cena, Penderton está punindo sua própria sexualidade, já que o cavalo é um garanhão, representa a potência sexual masculina. Repare como na sequencia da surra, Brando chora como uma mulher, uma mulher carente, que não consegue se realizar sexualmente.
Este filme pode parecer estranho na carreira de John Huston, já que, aparentemente, não apresenta semelhanças com outros filmes do diretor. Mas só aparentemente. Em seus melhores filmes, com raras exceções, os personagens hustonianos são perdedores. Eles sempre buscam alguma coisa, com todas as suas forças e, no final, a busca resulta infrutífera. Ou eles não conseguem a coisa desejada ou, se a conseguem, a perdem logo depois. Ou, ainda, a coisa perseguida os acaba destruindo. Resumindo, é a inutilidade do esforço. Assim, a busca do Major Penderton tentando conseguir a atenção de Williams(vista com mais clareza nas cenas finais) encontra eco no fracasso dos trapaceiros de "O falcão maltês"; nos bandidos de "O segedo das jóias", nos garimpeiros de "O tesouro de Sierra Madre"; no Capitão Ahab de "Moby Dick" etc.
E Marlon Brando prova mais uma vez que é o melhor ator que o cinema já viu ou verá. Em uma atuação corajosa, visceral, perfeita, antológica.

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