terça-feira, 3 de maio de 2011

Clint nos faz olhar além da superfície das coisas

Numa cena de "Os imperdoáveis" ( The unforgiven, 1992), o ex-pistoleiro, "matador de mulheres e crianças", William Munny, encontra enorme dificuldade em montar num cavalo. Numa das vezes em que ele cai no chão, observa o olhar perplexo de seus dois filhos pequenos e diz algo como: "na minha juventude eu maltratava muito os animais, batia neles e agora Deus está me punindo pelas coisas más que eu fazia".
Munny sente que merece esse "castigo" pelo seu passado. Em boa parte de sua obra, o cineasta Clint Eastwood aborda o tema do passado sempre  assombrando e, por vezes, paralisando seus personagens no presente.
Em "Dívida de sangue" (Bloodwork, 2001), o diretor interpreta o agente do FBI Terry McLabe que, após uma perseguição a um assassino em série, acaba sofrendo um ataque cardíaco. Depois de dois anos, ele consegue um novo coração, de uma mulher que morreu assassinada. McLabe vive tranquilamente em seu barco até que um dia vem lhe visitar uma mulher chamada Graciela Rivers. Ela lhe revela que é a irmã da moça cujo coração bate no peito do ex-agente e pede para que ele ache o assassino de sua irmã.
Durante o tempo que permaneceu no hospital e depois, quando finalmente consegue um novo coração, McLabe não tem certeza se ele merece aquela nova chance. Principalmente depois que ele vê um garotinho, no mesmo hospital em que ele estava, quase sem chances de receber um transplante. E ele conseguiu. Mas ele merece ? O seu passado o favorece ? Ele resolve, então, fazer valer essa segunda chance que recebeu, indo à caça do assassino da mulher que, morrendo, lhe salvou a vida. Repare que McLabe sempre coloca a mão no peito, para se lembrar do presente que recebeu e se convencer de que ele é merecedor deste presente.
Além da questão do passado assombrando o presente, outro tema frequente de Clint abordado no filme é a fragilidade das evidências, das aparências. Aquilo que parece óbvio para todos, na verdade, esconde o que realmente aconteceu. A verdade profunda das coisas, dos fatos, nunca está na superfície, naquilo que pode ser visto a olho nu. Nunca a realidade, a vida, é tão óbvia. As vezes temos que cavar fundo para encontrar o real sentido das coisas, indo muito além da superfície; outras vezes a verdade está tão na nossa cara que demoramos para lhe notar. De um modo ou de outro, o que o cineasta Clint Eastwood nos diz, de filme em filme, é que não devemos nos fiar demais nas aparências, naquilo que nos parece a verdade absoluta. Nada é tão simples, nem tão óbvio. Aliás, é assim também com os filmes de Clint. Parecem simples, até bobos em certos casos, mas por trás desta aparente simplicidade, há toda uma complexidade a ser descoberta. O que faz dele, sem sombra de dúvida, o melhor cineasta americano em atividade e um dos melhores do mundo.

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