Numa cena de "Os imperdoáveis" ( The unforgiven, 1992), o ex-pistoleiro, "matador de mulheres e crianças", William Munny, encontra enorme dificuldade em montar num cavalo. Numa das vezes em que ele cai no chão, observa o olhar perplexo de seus dois filhos pequenos e diz algo como: "na minha juventude eu maltratava muito os animais, batia neles e agora Deus está me punindo pelas coisas más que eu fazia".
Munny sente que merece esse "castigo" pelo seu passado. Em boa parte de sua obra, o cineasta Clint Eastwood aborda o tema do passado sempre assombrando e, por vezes, paralisando seus personagens no presente.
Em "Dívida de sangue" (Bloodwork, 2001), o diretor interpreta o agente do FBI Terry McLabe que, após uma perseguição a um assassino em série, acaba sofrendo um ataque cardíaco. Depois de dois anos, ele consegue um novo coração, de uma mulher que morreu assassinada. McLabe vive tranquilamente em seu barco até que um dia vem lhe visitar uma mulher chamada Graciela Rivers. Ela lhe revela que é a irmã da moça cujo coração bate no peito do ex-agente e pede para que ele ache o assassino de sua irmã.
Durante o tempo que permaneceu no hospital e depois, quando finalmente consegue um novo coração, McLabe não tem certeza se ele merece aquela nova chance. Principalmente depois que ele vê um garotinho, no mesmo hospital em que ele estava, quase sem chances de receber um transplante. E ele conseguiu. Mas ele merece ? O seu passado o favorece ? Ele resolve, então, fazer valer essa segunda chance que recebeu, indo à caça do assassino da mulher que, morrendo, lhe salvou a vida. Repare que McLabe sempre coloca a mão no peito, para se lembrar do presente que recebeu e se convencer de que ele é merecedor deste presente.
Além da questão do passado assombrando o presente, outro tema frequente de Clint abordado no filme é a fragilidade das evidências, das aparências. Aquilo que parece óbvio para todos, na verdade, esconde o que realmente aconteceu. A verdade profunda das coisas, dos fatos, nunca está na superfície, naquilo que pode ser visto a olho nu. Nunca a realidade, a vida, é tão óbvia. As vezes temos que cavar fundo para encontrar o real sentido das coisas, indo muito além da superfície; outras vezes a verdade está tão na nossa cara que demoramos para lhe notar. De um modo ou de outro, o que o cineasta Clint Eastwood nos diz, de filme em filme, é que não devemos nos fiar demais nas aparências, naquilo que nos parece a verdade absoluta. Nada é tão simples, nem tão óbvio. Aliás, é assim também com os filmes de Clint. Parecem simples, até bobos em certos casos, mas por trás desta aparente simplicidade, há toda uma complexidade a ser descoberta. O que faz dele, sem sombra de dúvida, o melhor cineasta americano em atividade e um dos melhores do mundo.
terça-feira, 3 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
O concreto e o sobrenatural se misturam no "Giallo" de Mario Bava
Filmes de episódios, na maioria das vezes, são muito irregulares. Normalmente, há uma história ótima, a outra, nem tanto e a última muito ruim. Como toda regra há exceção, esta, neste caso, é o excepcional "As 3 máscaras do terror" (Black Sabbath, 1963), de Mario Bava. São três histórias curtas, todas elas muito boas e muito bem contadas.
A primeira, "O telefone", não é bem terror, mas um suspense, com uma clara influência de Hitchcock. Conta a história de uma mulher que é aterrorizada por ligações anônimas ameaçando-a de morte. Conforme o enredo vai se desenrolando, vemos, na verdade, que tudo se resume a uma história de amor radical, envolvendo um triângulo amoroso formado pela mulher ameaçada, sua êx-amante e outro homem. É o mais sutil dos três episódios e também o mais realista.
O segundo segmento, "Wurdalak" já entra numa atmosfera fantástica. Os Wurdalak do título são uma espécie diferente de vampiro, que se alimentam do sangue apenas daqueles que eles amaram em vida. Assim, o terror não vem de fora, uma ameaça externa, mas sim do próprio ambiente familiar. A cena do garotinho, transformado num Wurdalak, chamando a mãe para entrar na casa pois está com frio é assustadora. Se o primeiro episódio lembrava Hitchcock, este lembra os filmes da Hammer.
O último conto, "Gota d´água", faz uma mistura da atmosfera dos dois episódios anteriores, isto é, há elementos "pés no chão" e também toques sobrenaturais. Conta a história de uma mulher que vai preparar o cadáver de uma senhora para ser enterrado, quando, de repente, ela vê no dedo da defunta um anel. Ela não resiste e rouba o anel. A partir daí a ladra começa a ser aterrorizada por elementos prosaicos, como gotas d´água pingando insistemente de uma torneira, ou o vento batendo uma janela. E repentinamente, no meio destes elementos concretos surge a aparição sobrenatural da própria morta ! Particularmente, este é meu segmento favorito.
Mario Bava (1914-1980) fazia parte de um gênero surgido na Itália, nos anos 60, chamado "Giallo". Era um tipo de terror mais sanguinolento, mais gráfico, as mortes eram espetacularmente coregorafadas. Embora Bava também tenha sido um mestre neste sub-gênero, quem realmente se destacou e ainda se destaca, pois continua fazendo filmes, nesse terreno, é Dario Argento. Nos filmes de Argento, a história quase não importa, é apenas um pretexto para o diretor criar cenas de morte impactantes, com cabeças voando, tripas aparecendo e outras atrocidades.
Para quem gosta de terror e suspense, "Black Sabbath" é uma ótima pedida. Vendo esta obra magnífica de Mario Bava,lamentamos o fato de não se fazerem mais filmes de terror desse jeito. É só lembrar que os vampiros de hoje são tipo "Crépúsculo", ou seja, vampiros cheios de frescura. Sou muito mais o Wurdalak de Boris Karloff que, aliás, é quem faz também a apresentação e o epílogo do filme.
A primeira, "O telefone", não é bem terror, mas um suspense, com uma clara influência de Hitchcock. Conta a história de uma mulher que é aterrorizada por ligações anônimas ameaçando-a de morte. Conforme o enredo vai se desenrolando, vemos, na verdade, que tudo se resume a uma história de amor radical, envolvendo um triângulo amoroso formado pela mulher ameaçada, sua êx-amante e outro homem. É o mais sutil dos três episódios e também o mais realista.
O segundo segmento, "Wurdalak" já entra numa atmosfera fantástica. Os Wurdalak do título são uma espécie diferente de vampiro, que se alimentam do sangue apenas daqueles que eles amaram em vida. Assim, o terror não vem de fora, uma ameaça externa, mas sim do próprio ambiente familiar. A cena do garotinho, transformado num Wurdalak, chamando a mãe para entrar na casa pois está com frio é assustadora. Se o primeiro episódio lembrava Hitchcock, este lembra os filmes da Hammer.
O último conto, "Gota d´água", faz uma mistura da atmosfera dos dois episódios anteriores, isto é, há elementos "pés no chão" e também toques sobrenaturais. Conta a história de uma mulher que vai preparar o cadáver de uma senhora para ser enterrado, quando, de repente, ela vê no dedo da defunta um anel. Ela não resiste e rouba o anel. A partir daí a ladra começa a ser aterrorizada por elementos prosaicos, como gotas d´água pingando insistemente de uma torneira, ou o vento batendo uma janela. E repentinamente, no meio destes elementos concretos surge a aparição sobrenatural da própria morta ! Particularmente, este é meu segmento favorito.
Mario Bava (1914-1980) fazia parte de um gênero surgido na Itália, nos anos 60, chamado "Giallo". Era um tipo de terror mais sanguinolento, mais gráfico, as mortes eram espetacularmente coregorafadas. Embora Bava também tenha sido um mestre neste sub-gênero, quem realmente se destacou e ainda se destaca, pois continua fazendo filmes, nesse terreno, é Dario Argento. Nos filmes de Argento, a história quase não importa, é apenas um pretexto para o diretor criar cenas de morte impactantes, com cabeças voando, tripas aparecendo e outras atrocidades.
Para quem gosta de terror e suspense, "Black Sabbath" é uma ótima pedida. Vendo esta obra magnífica de Mario Bava,lamentamos o fato de não se fazerem mais filmes de terror desse jeito. É só lembrar que os vampiros de hoje são tipo "Crépúsculo", ou seja, vampiros cheios de frescura. Sou muito mais o Wurdalak de Boris Karloff que, aliás, é quem faz também a apresentação e o epílogo do filme.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Sidney Lumet
Pela terceira semana consecutiva uma personalidade importante do cinema nos deixa. Primeiro, foi Elizabeth Taylor, depois Farley Granger e agora o diretor Sidney Lumet(1924-2011). Embora com uma carreira irregular, é preciso dizer que Lumet teve um privilégio que poucos cineastas tiveram: iniciar e encerrar a carreira com duas obras-primas.Sua estreia no cinema foi com "Doze homens e uma sentença"(1957), um poderoso drama sobre o sistema judiciário americano; seu último filme foi o excelente "Antes que o diabo saiba que você está morto" (2007), no qual as questões morais assumem o primeiro plano. Aliás, os dois fimes lidam com questões morais. Com certeza, este foi um dos temas que nortearam a obra de Lumet. A crítica às instituições também foi assunto abordado com frequencia em sua obra. Teve como alvos, como já foi dito, o sistema judiciário americano (além do já citado "Doze homens e uma sentença", o tema aparece também em "O Veredicto"); a televisão ("Rede de intrigas"); a corrupção policial ("Serpico", "Q&A, Justiça para todos"), entre outros.
No entanto, seu melhor filme, na minha opinião, é aquele que tem um enfoque mais intimista, o contundente "O homem do prego" (The pawnbroker, 1964). Rod Steiger interpreta o dono de uma casa de penhor atormentado pelas lembranças de um campo de concentração nazista. Ele se isola numa comunidade judaica na Nova Iorque dos anos 60. Na verdade, é um "morto que anda". A atuação de Steiger, tranquilamente, está entre as maiores da história do cinema. O que, aliás, remete àquela que eu considero a principal marca de Sidney Lumet: ele era um magnífico diretor de atores. Neste quesito só perdia para Elia Kazan.
Enfim, mais um grande nos deixou.
No entanto, seu melhor filme, na minha opinião, é aquele que tem um enfoque mais intimista, o contundente "O homem do prego" (The pawnbroker, 1964). Rod Steiger interpreta o dono de uma casa de penhor atormentado pelas lembranças de um campo de concentração nazista. Ele se isola numa comunidade judaica na Nova Iorque dos anos 60. Na verdade, é um "morto que anda". A atuação de Steiger, tranquilamente, está entre as maiores da história do cinema. O que, aliás, remete àquela que eu considero a principal marca de Sidney Lumet: ele era um magnífico diretor de atores. Neste quesito só perdia para Elia Kazan.
Enfim, mais um grande nos deixou.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Farley Granger
Depois de Elizabeth Taylor foi a vez de Farley Granger (1925-2011) nos deixar. Embora nunca tenha sido um astro, o ator trabalhou em filmes importantes, principalmente nos dois dirigidos por Alfred Hitchcock, as obras-primas "Festim diabólico" (1948) e, principalmente, "Pacto sinistro" (1951).
Também atuou sob a batuta de Nicholas Ray ("Amarga esperança") e Luchino Visconti ("Sedução da carne").
Em "Festim diabólico", Granger fazia o mais frágil dos dois jovens estudantes que matavam um colega apenas para ver "como era". Segundo eles, o rapaz morto era um ser inferior, portanto, não merecia continuar vivendo. Há uma clara conotação homossexual na relação dos dois. Desde o começo, parecia que o personagem de Granger não queria tomar parte no intento, mas , como era muito fraco, foi dominado por seu parceiro e levado a cometer ao crime. A medida que o filme vai se desenrolando, ele vai aos poucos cedendo à culpa e ao arrependimento. É um belíssimo trabalho de interpretação.
Em "Pacto sinistro" ele faz um famoso tenista que encontra um lunático num trem que lhe propõe uma troca de assassinatos: Granger mataria o pai de Robert Walker ( o lunático) e este eliminaria a esposa do outro, que não quer lhe dar o divórcio. Granger pensa que o excêntrico rapaz está brincando, mas não está. Embora Robert Walker roube a cena, Granger consegue segurar muito bem seu papel.
Enfim, embora nunca tenha sido um astro de primeira grandeza, pelos dois filmes que fez com Hitchcock, além dos trabalhos com Ray e Visconti, entre outros, Farley Granger terá para sempre um lugar na memória dos cinéfilos.
Também atuou sob a batuta de Nicholas Ray ("Amarga esperança") e Luchino Visconti ("Sedução da carne").
Em "Festim diabólico", Granger fazia o mais frágil dos dois jovens estudantes que matavam um colega apenas para ver "como era". Segundo eles, o rapaz morto era um ser inferior, portanto, não merecia continuar vivendo. Há uma clara conotação homossexual na relação dos dois. Desde o começo, parecia que o personagem de Granger não queria tomar parte no intento, mas , como era muito fraco, foi dominado por seu parceiro e levado a cometer ao crime. A medida que o filme vai se desenrolando, ele vai aos poucos cedendo à culpa e ao arrependimento. É um belíssimo trabalho de interpretação.
Em "Pacto sinistro" ele faz um famoso tenista que encontra um lunático num trem que lhe propõe uma troca de assassinatos: Granger mataria o pai de Robert Walker ( o lunático) e este eliminaria a esposa do outro, que não quer lhe dar o divórcio. Granger pensa que o excêntrico rapaz está brincando, mas não está. Embora Robert Walker roube a cena, Granger consegue segurar muito bem seu papel.
Enfim, embora nunca tenha sido um astro de primeira grandeza, pelos dois filmes que fez com Hitchcock, além dos trabalhos com Ray e Visconti, entre outros, Farley Granger terá para sempre um lugar na memória dos cinéfilos.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Liz Taylor
Não vou dizer que Elizabeth Taylor (1932-2011) foi uma das mais belas mulheres da história do cinema. Isto é óbvio. Tampouco vou falar sobre sua conturbada vida pessoal, seus oito casamentos, as inúmeras doenças, a fama de "destruidora de lares" etc. Isto não me interessa nem um pouco. O que importa para mim é o fato de que Liz Taylor foi uma atriz talentosíssima, e que trabalhou em filmes muito importantes para o cinema. Foi dirigida por alguns dos mestres da sétima arte. Só para citar alguns: George Stevens, Joseph L. Mankiewicz, Joseph Losey, Richard Brooks, Mike Nichols, Vincente Minnelli, entre outros. Entre os atores e atrizes com os quais contracenou figuram, entre outros : Spencer Tracy, Marlon Brando, Montgomery Clift, Paul Newman, James Dean, Rock Hudson, Robert Mitchum, Richard Burton, Katherine Hepburn. O que mais se poderia querer ?
Taylor foi daquelas mulheres que nasceram para o cinema, dava a impressão de que esta arte foi inventada apenas para que ela brilhasse. Tinha a chamada "star quality", talvez só se rivalizasse, neste aspecto, com Marilyn Monroe.
Os momentos inesquecíveis de Liz Taylor na tela do cinema são muitos. Vou citar os que me marcaram mais: em "Um lugar ao sol", na cena em que ela entra na sala de bilhar na qual Montgomery Clift está jogando, a câmera corta para o seu rosto e ela solta a expressão "uau" e dá um belo sorriso; em "Gata em teto de zinco quente", quando ela tenta seduzir o marido Paul Newman esticando suas meias; a aparição com o maiô branco transparente em "De repente no último verão"; a entrada triunfal em Roma em "Cleopatra"; no subestimado "O pecado de todos nós", quando ela chicoteia o marido Marlon Brando numa festa. Enfim, são muitos.
Elizabeth Taylor ficará para sempre marcada na hisória do cinema. Infelizmente, sempre vão ter aqueles que irão preferir se lembrar de seus casamentos, ou de seus problemas de saúde. Eu sempre me lembrarei dela por seu grande talento e pelos importantes filmes que protagonizou.
Taylor foi daquelas mulheres que nasceram para o cinema, dava a impressão de que esta arte foi inventada apenas para que ela brilhasse. Tinha a chamada "star quality", talvez só se rivalizasse, neste aspecto, com Marilyn Monroe.
Os momentos inesquecíveis de Liz Taylor na tela do cinema são muitos. Vou citar os que me marcaram mais: em "Um lugar ao sol", na cena em que ela entra na sala de bilhar na qual Montgomery Clift está jogando, a câmera corta para o seu rosto e ela solta a expressão "uau" e dá um belo sorriso; em "Gata em teto de zinco quente", quando ela tenta seduzir o marido Paul Newman esticando suas meias; a aparição com o maiô branco transparente em "De repente no último verão"; a entrada triunfal em Roma em "Cleopatra"; no subestimado "O pecado de todos nós", quando ela chicoteia o marido Marlon Brando numa festa. Enfim, são muitos.
Elizabeth Taylor ficará para sempre marcada na hisória do cinema. Infelizmente, sempre vão ter aqueles que irão preferir se lembrar de seus casamentos, ou de seus problemas de saúde. Eu sempre me lembrarei dela por seu grande talento e pelos importantes filmes que protagonizou.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Beatles e Hitchcock
Não é novidade nenhuma que a carreira da maior banda de Rock de todos os tempos, os Beatles, divide-se em duas fases. Embora a maioria da crítica e dos fãs aponte "Sgt Peppers lonely hearts club band" (1967) como o marco divisor na carreira do grupo, eu considero o anterior "Revolver" (1966) como o verdadeiro divisor de águas da banda. Na verdade, a mudança já havia se esboçado em "Rubber soul" (1965). "Sgt Peppers pode ser considerado, então, o ápice da mudança radical que se operou no conjunto. Antes dele, os Beatles faziam rock´n roll puro, com baixo, guitarra e bateria, músicas de três acordes, letras ingênuas de amor e melodia fácil. Eram músicas divertidas, vigorosas, mas que não davam conta totalmente do talento de John, Paul, George e Ringo. A partir de Rubber soul, começando com Revolver e atingindo o topo em Sgt Pepers, os Beatles deram uma guinada em sua carreira, com músicas mais complexas, utilizando outros instrumentos, como o Sitar indiano, compondo letras mais ricas poeticamente, até surreais, enfim, atingiram um nível de excelência que dificilmente será igualado na história da música.
O mesmo ocorre com o cienasta inglês Alfred Hitchcock(1899-1980). Sua carreita também divide-se em duas fases: a fase inglesa (1922-1939) e a fase americana (1940-1976). Assim como o grupo britânico, considera-se a fase inglesa da carreira de Hitchcock uma espécie de aprendizado. Seus filmes, neste período, eram leves, divertidos e quase não tinham nuances psicológicas. Assim como a mudança nos Beatles se esboçou em Rubber soul, iniciou com Revolver e atingiu o ápice em Sgt peppers, pode-se dizer que com o diretor inglês a mudança se esboçou com "The Lodger "(1927), começou com "Chantagem e confissão" (1929) e atingiu o ápice em "Os 39 degraus" (1935) (alguns críticos dividem a obra do cineasta britânico em 3 fases : a fase muda, a inglesa e a americana. Eu acho que a fase inglesa engloba também as obras mudas). A partir daí, o brilhante realizador, como os Beatles, começou a produzir obras mais complexas, com mais nuances psicológicas e com muitos mais recursos, aproveitando a aparelhagem que Hollywood proporcionava.
Enfim, além do fato de ambos serem britânicos, Beatles e Hitchcock também compartilham dessa curiosidade de terem suas carreiras claramente divididas numa prmeira e segunda fases, sendo esta uma evolução daquela. Convém lembrar também que ambos já davam sinais, em suas primeiras fases,de que algo a mais estava por vir. Por exemplo, na fase "ingênua" , Paul McCartney compôs uma obra-prima como "Yesterday"(1965). Hitchcock, por outro lado, na fase inglesa, relizou um filme muito complexo chamado "Sabotagem"(1936).
Em suas respectivas artes, música e cinema, eles representam o ponto mais alto a que se pode chegar. E ainda ninguém chegou nem perto.
O mesmo ocorre com o cienasta inglês Alfred Hitchcock(1899-1980). Sua carreita também divide-se em duas fases: a fase inglesa (1922-1939) e a fase americana (1940-1976). Assim como o grupo britânico, considera-se a fase inglesa da carreira de Hitchcock uma espécie de aprendizado. Seus filmes, neste período, eram leves, divertidos e quase não tinham nuances psicológicas. Assim como a mudança nos Beatles se esboçou em Rubber soul, iniciou com Revolver e atingiu o ápice em Sgt peppers, pode-se dizer que com o diretor inglês a mudança se esboçou com "The Lodger "(1927), começou com "Chantagem e confissão" (1929) e atingiu o ápice em "Os 39 degraus" (1935) (alguns críticos dividem a obra do cineasta britânico em 3 fases : a fase muda, a inglesa e a americana. Eu acho que a fase inglesa engloba também as obras mudas). A partir daí, o brilhante realizador, como os Beatles, começou a produzir obras mais complexas, com mais nuances psicológicas e com muitos mais recursos, aproveitando a aparelhagem que Hollywood proporcionava.
Enfim, além do fato de ambos serem britânicos, Beatles e Hitchcock também compartilham dessa curiosidade de terem suas carreiras claramente divididas numa prmeira e segunda fases, sendo esta uma evolução daquela. Convém lembrar também que ambos já davam sinais, em suas primeiras fases,de que algo a mais estava por vir. Por exemplo, na fase "ingênua" , Paul McCartney compôs uma obra-prima como "Yesterday"(1965). Hitchcock, por outro lado, na fase inglesa, relizou um filme muito complexo chamado "Sabotagem"(1936).
Em suas respectivas artes, música e cinema, eles representam o ponto mais alto a que se pode chegar. E ainda ninguém chegou nem perto.
terça-feira, 8 de março de 2011
William Wyler
Não deve haver cineasta mais desprezado atualmente que William Wyler(1902-1981). Parece que os críticos sentem um prazer incontido em menosprezar o diretor de "Ben-Hur". Por que ? Há 50 anos , Wyler era sinônimo de qualidade, de bilheteria. Passou pelas décadas de 40 e 50, principalmente, entre os mais requisitados diretores de Hollywood. Seu estilo era clássico, limpo, sem invenções. Talvez seja por isso que os críticos "moderninhos" o desprezam. Porque ele não quer reiventar o cinema a cada cena. Se contenta em contar uma boa história, da maneira mais clara possível, usando as ferramentas da arte cinematográfica. E o modo como ele usa essas ferramentas é muito eficaz, dando conta de uma cena complexa com muita simplicidade. O que deve deixar seus detratores com muita inveja, pois são incapazes de verem a beleza e a eficácia da simplicidade. Para esses críticos, o cineasta tem que ser "inovador", "revolucionário". O deus deles deve ser Lars Von Trier, uma enganação sem tamanho. Cineasta que gosta de "chocar".
Dois exemplos da "beleza da simplicidade" empregadas por Wyler: em "Os melhores anos de nossas vidas" (1946), na cena em que Frederic March retorna para casa depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial. Vemos sua esposa, Myrna Loy, e sua filha fazendo as rotineiras tarefas domésticas. A campanhia toca, a filha vai atender. Ela nem tem tempo de emitir um som, o pai tampa a boca da filha para que a esposa não perceba que ele chegou. A mulher pergunta quem é, a filha não responde. Vemos apenas as costas de Myrna Loy, que para imediatamente de enxugar os pratos, ela vira, a câmera se afasta, March vai correndo em sua direção e se abraçam. Simples, sem invenções, uma cena belíssima, que Lars Von Trier nunca teria condições de realizar. Outro exemplo da arte de William Wyler é a briga entre Gregory Peck e Charlton Heston em "Da terra nascem os homens" (The big country, 1957). Vemos apenas dois vultos trocando socos na imensidão de uma paisagem típica do velho oeste. Para não citar outros exemplos belíssimos, como a morte de Herbert Marshall em "Pérfida"; o reencontro entre Ben-Hur e Messala em "Ben-Hur"; a cena da sedução entre Samantha Eggar e Terence Stamp em "O colecionador", entre outros.
Os filmes de Wyler vão ser sempre lembrados pelos fãs de cinema quando se falarem em filmes clássicos. Será que se pode dizer o mesmo do "queridinho" da crítica, Lars Von Trier ?
Dois exemplos da "beleza da simplicidade" empregadas por Wyler: em "Os melhores anos de nossas vidas" (1946), na cena em que Frederic March retorna para casa depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial. Vemos sua esposa, Myrna Loy, e sua filha fazendo as rotineiras tarefas domésticas. A campanhia toca, a filha vai atender. Ela nem tem tempo de emitir um som, o pai tampa a boca da filha para que a esposa não perceba que ele chegou. A mulher pergunta quem é, a filha não responde. Vemos apenas as costas de Myrna Loy, que para imediatamente de enxugar os pratos, ela vira, a câmera se afasta, March vai correndo em sua direção e se abraçam. Simples, sem invenções, uma cena belíssima, que Lars Von Trier nunca teria condições de realizar. Outro exemplo da arte de William Wyler é a briga entre Gregory Peck e Charlton Heston em "Da terra nascem os homens" (The big country, 1957). Vemos apenas dois vultos trocando socos na imensidão de uma paisagem típica do velho oeste. Para não citar outros exemplos belíssimos, como a morte de Herbert Marshall em "Pérfida"; o reencontro entre Ben-Hur e Messala em "Ben-Hur"; a cena da sedução entre Samantha Eggar e Terence Stamp em "O colecionador", entre outros.
Os filmes de Wyler vão ser sempre lembrados pelos fãs de cinema quando se falarem em filmes clássicos. Será que se pode dizer o mesmo do "queridinho" da crítica, Lars Von Trier ?
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