Depois de Elizabeth Taylor foi a vez de Farley Granger (1925-2011) nos deixar. Embora nunca tenha sido um astro, o ator trabalhou em filmes importantes, principalmente nos dois dirigidos por Alfred Hitchcock, as obras-primas "Festim diabólico" (1948) e, principalmente, "Pacto sinistro" (1951).
Também atuou sob a batuta de Nicholas Ray ("Amarga esperança") e Luchino Visconti ("Sedução da carne").
Em "Festim diabólico", Granger fazia o mais frágil dos dois jovens estudantes que matavam um colega apenas para ver "como era". Segundo eles, o rapaz morto era um ser inferior, portanto, não merecia continuar vivendo. Há uma clara conotação homossexual na relação dos dois. Desde o começo, parecia que o personagem de Granger não queria tomar parte no intento, mas , como era muito fraco, foi dominado por seu parceiro e levado a cometer ao crime. A medida que o filme vai se desenrolando, ele vai aos poucos cedendo à culpa e ao arrependimento. É um belíssimo trabalho de interpretação.
Em "Pacto sinistro" ele faz um famoso tenista que encontra um lunático num trem que lhe propõe uma troca de assassinatos: Granger mataria o pai de Robert Walker ( o lunático) e este eliminaria a esposa do outro, que não quer lhe dar o divórcio. Granger pensa que o excêntrico rapaz está brincando, mas não está. Embora Robert Walker roube a cena, Granger consegue segurar muito bem seu papel.
Enfim, embora nunca tenha sido um astro de primeira grandeza, pelos dois filmes que fez com Hitchcock, além dos trabalhos com Ray e Visconti, entre outros, Farley Granger terá para sempre um lugar na memória dos cinéfilos.
quinta-feira, 31 de março de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
Liz Taylor
Não vou dizer que Elizabeth Taylor (1932-2011) foi uma das mais belas mulheres da história do cinema. Isto é óbvio. Tampouco vou falar sobre sua conturbada vida pessoal, seus oito casamentos, as inúmeras doenças, a fama de "destruidora de lares" etc. Isto não me interessa nem um pouco. O que importa para mim é o fato de que Liz Taylor foi uma atriz talentosíssima, e que trabalhou em filmes muito importantes para o cinema. Foi dirigida por alguns dos mestres da sétima arte. Só para citar alguns: George Stevens, Joseph L. Mankiewicz, Joseph Losey, Richard Brooks, Mike Nichols, Vincente Minnelli, entre outros. Entre os atores e atrizes com os quais contracenou figuram, entre outros : Spencer Tracy, Marlon Brando, Montgomery Clift, Paul Newman, James Dean, Rock Hudson, Robert Mitchum, Richard Burton, Katherine Hepburn. O que mais se poderia querer ?
Taylor foi daquelas mulheres que nasceram para o cinema, dava a impressão de que esta arte foi inventada apenas para que ela brilhasse. Tinha a chamada "star quality", talvez só se rivalizasse, neste aspecto, com Marilyn Monroe.
Os momentos inesquecíveis de Liz Taylor na tela do cinema são muitos. Vou citar os que me marcaram mais: em "Um lugar ao sol", na cena em que ela entra na sala de bilhar na qual Montgomery Clift está jogando, a câmera corta para o seu rosto e ela solta a expressão "uau" e dá um belo sorriso; em "Gata em teto de zinco quente", quando ela tenta seduzir o marido Paul Newman esticando suas meias; a aparição com o maiô branco transparente em "De repente no último verão"; a entrada triunfal em Roma em "Cleopatra"; no subestimado "O pecado de todos nós", quando ela chicoteia o marido Marlon Brando numa festa. Enfim, são muitos.
Elizabeth Taylor ficará para sempre marcada na hisória do cinema. Infelizmente, sempre vão ter aqueles que irão preferir se lembrar de seus casamentos, ou de seus problemas de saúde. Eu sempre me lembrarei dela por seu grande talento e pelos importantes filmes que protagonizou.
Taylor foi daquelas mulheres que nasceram para o cinema, dava a impressão de que esta arte foi inventada apenas para que ela brilhasse. Tinha a chamada "star quality", talvez só se rivalizasse, neste aspecto, com Marilyn Monroe.
Os momentos inesquecíveis de Liz Taylor na tela do cinema são muitos. Vou citar os que me marcaram mais: em "Um lugar ao sol", na cena em que ela entra na sala de bilhar na qual Montgomery Clift está jogando, a câmera corta para o seu rosto e ela solta a expressão "uau" e dá um belo sorriso; em "Gata em teto de zinco quente", quando ela tenta seduzir o marido Paul Newman esticando suas meias; a aparição com o maiô branco transparente em "De repente no último verão"; a entrada triunfal em Roma em "Cleopatra"; no subestimado "O pecado de todos nós", quando ela chicoteia o marido Marlon Brando numa festa. Enfim, são muitos.
Elizabeth Taylor ficará para sempre marcada na hisória do cinema. Infelizmente, sempre vão ter aqueles que irão preferir se lembrar de seus casamentos, ou de seus problemas de saúde. Eu sempre me lembrarei dela por seu grande talento e pelos importantes filmes que protagonizou.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Beatles e Hitchcock
Não é novidade nenhuma que a carreira da maior banda de Rock de todos os tempos, os Beatles, divide-se em duas fases. Embora a maioria da crítica e dos fãs aponte "Sgt Peppers lonely hearts club band" (1967) como o marco divisor na carreira do grupo, eu considero o anterior "Revolver" (1966) como o verdadeiro divisor de águas da banda. Na verdade, a mudança já havia se esboçado em "Rubber soul" (1965). "Sgt Peppers pode ser considerado, então, o ápice da mudança radical que se operou no conjunto. Antes dele, os Beatles faziam rock´n roll puro, com baixo, guitarra e bateria, músicas de três acordes, letras ingênuas de amor e melodia fácil. Eram músicas divertidas, vigorosas, mas que não davam conta totalmente do talento de John, Paul, George e Ringo. A partir de Rubber soul, começando com Revolver e atingindo o topo em Sgt Pepers, os Beatles deram uma guinada em sua carreira, com músicas mais complexas, utilizando outros instrumentos, como o Sitar indiano, compondo letras mais ricas poeticamente, até surreais, enfim, atingiram um nível de excelência que dificilmente será igualado na história da música.
O mesmo ocorre com o cienasta inglês Alfred Hitchcock(1899-1980). Sua carreita também divide-se em duas fases: a fase inglesa (1922-1939) e a fase americana (1940-1976). Assim como o grupo britânico, considera-se a fase inglesa da carreira de Hitchcock uma espécie de aprendizado. Seus filmes, neste período, eram leves, divertidos e quase não tinham nuances psicológicas. Assim como a mudança nos Beatles se esboçou em Rubber soul, iniciou com Revolver e atingiu o ápice em Sgt peppers, pode-se dizer que com o diretor inglês a mudança se esboçou com "The Lodger "(1927), começou com "Chantagem e confissão" (1929) e atingiu o ápice em "Os 39 degraus" (1935) (alguns críticos dividem a obra do cineasta britânico em 3 fases : a fase muda, a inglesa e a americana. Eu acho que a fase inglesa engloba também as obras mudas). A partir daí, o brilhante realizador, como os Beatles, começou a produzir obras mais complexas, com mais nuances psicológicas e com muitos mais recursos, aproveitando a aparelhagem que Hollywood proporcionava.
Enfim, além do fato de ambos serem britânicos, Beatles e Hitchcock também compartilham dessa curiosidade de terem suas carreiras claramente divididas numa prmeira e segunda fases, sendo esta uma evolução daquela. Convém lembrar também que ambos já davam sinais, em suas primeiras fases,de que algo a mais estava por vir. Por exemplo, na fase "ingênua" , Paul McCartney compôs uma obra-prima como "Yesterday"(1965). Hitchcock, por outro lado, na fase inglesa, relizou um filme muito complexo chamado "Sabotagem"(1936).
Em suas respectivas artes, música e cinema, eles representam o ponto mais alto a que se pode chegar. E ainda ninguém chegou nem perto.
O mesmo ocorre com o cienasta inglês Alfred Hitchcock(1899-1980). Sua carreita também divide-se em duas fases: a fase inglesa (1922-1939) e a fase americana (1940-1976). Assim como o grupo britânico, considera-se a fase inglesa da carreira de Hitchcock uma espécie de aprendizado. Seus filmes, neste período, eram leves, divertidos e quase não tinham nuances psicológicas. Assim como a mudança nos Beatles se esboçou em Rubber soul, iniciou com Revolver e atingiu o ápice em Sgt peppers, pode-se dizer que com o diretor inglês a mudança se esboçou com "The Lodger "(1927), começou com "Chantagem e confissão" (1929) e atingiu o ápice em "Os 39 degraus" (1935) (alguns críticos dividem a obra do cineasta britânico em 3 fases : a fase muda, a inglesa e a americana. Eu acho que a fase inglesa engloba também as obras mudas). A partir daí, o brilhante realizador, como os Beatles, começou a produzir obras mais complexas, com mais nuances psicológicas e com muitos mais recursos, aproveitando a aparelhagem que Hollywood proporcionava.
Enfim, além do fato de ambos serem britânicos, Beatles e Hitchcock também compartilham dessa curiosidade de terem suas carreiras claramente divididas numa prmeira e segunda fases, sendo esta uma evolução daquela. Convém lembrar também que ambos já davam sinais, em suas primeiras fases,de que algo a mais estava por vir. Por exemplo, na fase "ingênua" , Paul McCartney compôs uma obra-prima como "Yesterday"(1965). Hitchcock, por outro lado, na fase inglesa, relizou um filme muito complexo chamado "Sabotagem"(1936).
Em suas respectivas artes, música e cinema, eles representam o ponto mais alto a que se pode chegar. E ainda ninguém chegou nem perto.
terça-feira, 8 de março de 2011
William Wyler
Não deve haver cineasta mais desprezado atualmente que William Wyler(1902-1981). Parece que os críticos sentem um prazer incontido em menosprezar o diretor de "Ben-Hur". Por que ? Há 50 anos , Wyler era sinônimo de qualidade, de bilheteria. Passou pelas décadas de 40 e 50, principalmente, entre os mais requisitados diretores de Hollywood. Seu estilo era clássico, limpo, sem invenções. Talvez seja por isso que os críticos "moderninhos" o desprezam. Porque ele não quer reiventar o cinema a cada cena. Se contenta em contar uma boa história, da maneira mais clara possível, usando as ferramentas da arte cinematográfica. E o modo como ele usa essas ferramentas é muito eficaz, dando conta de uma cena complexa com muita simplicidade. O que deve deixar seus detratores com muita inveja, pois são incapazes de verem a beleza e a eficácia da simplicidade. Para esses críticos, o cineasta tem que ser "inovador", "revolucionário". O deus deles deve ser Lars Von Trier, uma enganação sem tamanho. Cineasta que gosta de "chocar".
Dois exemplos da "beleza da simplicidade" empregadas por Wyler: em "Os melhores anos de nossas vidas" (1946), na cena em que Frederic March retorna para casa depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial. Vemos sua esposa, Myrna Loy, e sua filha fazendo as rotineiras tarefas domésticas. A campanhia toca, a filha vai atender. Ela nem tem tempo de emitir um som, o pai tampa a boca da filha para que a esposa não perceba que ele chegou. A mulher pergunta quem é, a filha não responde. Vemos apenas as costas de Myrna Loy, que para imediatamente de enxugar os pratos, ela vira, a câmera se afasta, March vai correndo em sua direção e se abraçam. Simples, sem invenções, uma cena belíssima, que Lars Von Trier nunca teria condições de realizar. Outro exemplo da arte de William Wyler é a briga entre Gregory Peck e Charlton Heston em "Da terra nascem os homens" (The big country, 1957). Vemos apenas dois vultos trocando socos na imensidão de uma paisagem típica do velho oeste. Para não citar outros exemplos belíssimos, como a morte de Herbert Marshall em "Pérfida"; o reencontro entre Ben-Hur e Messala em "Ben-Hur"; a cena da sedução entre Samantha Eggar e Terence Stamp em "O colecionador", entre outros.
Os filmes de Wyler vão ser sempre lembrados pelos fãs de cinema quando se falarem em filmes clássicos. Será que se pode dizer o mesmo do "queridinho" da crítica, Lars Von Trier ?
Dois exemplos da "beleza da simplicidade" empregadas por Wyler: em "Os melhores anos de nossas vidas" (1946), na cena em que Frederic March retorna para casa depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial. Vemos sua esposa, Myrna Loy, e sua filha fazendo as rotineiras tarefas domésticas. A campanhia toca, a filha vai atender. Ela nem tem tempo de emitir um som, o pai tampa a boca da filha para que a esposa não perceba que ele chegou. A mulher pergunta quem é, a filha não responde. Vemos apenas as costas de Myrna Loy, que para imediatamente de enxugar os pratos, ela vira, a câmera se afasta, March vai correndo em sua direção e se abraçam. Simples, sem invenções, uma cena belíssima, que Lars Von Trier nunca teria condições de realizar. Outro exemplo da arte de William Wyler é a briga entre Gregory Peck e Charlton Heston em "Da terra nascem os homens" (The big country, 1957). Vemos apenas dois vultos trocando socos na imensidão de uma paisagem típica do velho oeste. Para não citar outros exemplos belíssimos, como a morte de Herbert Marshall em "Pérfida"; o reencontro entre Ben-Hur e Messala em "Ben-Hur"; a cena da sedução entre Samantha Eggar e Terence Stamp em "O colecionador", entre outros.
Os filmes de Wyler vão ser sempre lembrados pelos fãs de cinema quando se falarem em filmes clássicos. Será que se pode dizer o mesmo do "queridinho" da crítica, Lars Von Trier ?
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
A força da natureza
O que menos importa em "Avatar" (Avatar, 2009) de James Cameron, é a tal revolução tecnológica que o filme apresentou, e que o transformou no "filme-evento" da última década. Realmente é impressionante a criação, por computador, do planeta de Pandora, com seus habitantes azuis e animais alados. Ainda mais se vistos na tela grande do cinema. No entanto, como a tecnologia é algo que está sempre evoluindo, provavelmente daqui a 5 ou 7 anos, as tecnicas usadas no filme já estarão ultrapassadas. Sendo assim, o que garantirá "Avatar" como uma obra que transcende as inovações tecnológicas são suas qualidades cinematográficas, ou seja, uma boa história, personangens consistentes, direção criativa e uma visão de mundo pessoal. Afortunadamente, quem desenvolveu o projeto foi James Cameron, cineasta que sempre soube aliar a tecnica com uma grande capacidade narrativa, megalomanias à parte. Se caísse nas mãos de um Michael bay da vida, o fime causaria certa sensação por causa das inovações, mas seria esquecido no momento em que acabasse a sessão.
A história é uma clara metáfora sobre o poder imperialista dos Estados Unidos. O ex-fuzileiro naval Jake Sully (Sam Worthington) é escolhido para servir de informante sobre o planeta Pandora, no qual habita o povo na´vi. Este povo vive na mais total harmonia com a natureza. O "povo do céu" (nós) quer colonizar Pandora por causa de uma substância riquíssima que só se encontra lá. Jake, aos poucos, irá abraçar o estilo de vida dos na´vi , a ponto de trair sua própria gente. Sim, a história é cheia de clichês e ,em última instância, nem era necessário criar todo um mundo através da computação, mas o filme funciona por causa do grande talento cinematogtráfico de Cameron. O diretor já havia abordado o embate entre a natureza e a tecnologia em seu filme anterior, "Titanic" (Titanic, 1997), no qual a primeira levava a melhor, na forma de um iceberg que destruiu em uma hora a "oitava maravilha do mundo", um navio sofisticadíssimo, que era "infundável", segundo a arrogância de seus criadores. Em "Avatar" a natureza também vence, não sem grandes perdas e sacrifícios por parte do povo na´vi.
A crítica aos EUA é feita de forma muito forte através da figura do comandante militar da operação colonizadora em Pandora. "O que nós queremos, nós pegamos" é o seu lema. Uma clara referência aos anos Bush ( pai e filho). Pode soar meio ingênuo, no fim das contas, mas, novamente, a perícia narrativa de Cameron supre este "defeito".
Não sei até que ponto é benéfica para o cinema este excesso de tecnologia. Afinal, não é sempre que haverá um James Cameron no comando. No final, o que garante a permanência de um filme é seu valor humano, não os efeitos especiais. Como disse certa vez Francis Ford Coppola, "a tecnologia faz parte da criatividade, mas nunca pode ser a fonte da criatividade". James Cameron entendeu isto muito bem, esperamos que a nova geração também entenda.
A história é uma clara metáfora sobre o poder imperialista dos Estados Unidos. O ex-fuzileiro naval Jake Sully (Sam Worthington) é escolhido para servir de informante sobre o planeta Pandora, no qual habita o povo na´vi. Este povo vive na mais total harmonia com a natureza. O "povo do céu" (nós) quer colonizar Pandora por causa de uma substância riquíssima que só se encontra lá. Jake, aos poucos, irá abraçar o estilo de vida dos na´vi , a ponto de trair sua própria gente. Sim, a história é cheia de clichês e ,em última instância, nem era necessário criar todo um mundo através da computação, mas o filme funciona por causa do grande talento cinematogtráfico de Cameron. O diretor já havia abordado o embate entre a natureza e a tecnologia em seu filme anterior, "Titanic" (Titanic, 1997), no qual a primeira levava a melhor, na forma de um iceberg que destruiu em uma hora a "oitava maravilha do mundo", um navio sofisticadíssimo, que era "infundável", segundo a arrogância de seus criadores. Em "Avatar" a natureza também vence, não sem grandes perdas e sacrifícios por parte do povo na´vi.
A crítica aos EUA é feita de forma muito forte através da figura do comandante militar da operação colonizadora em Pandora. "O que nós queremos, nós pegamos" é o seu lema. Uma clara referência aos anos Bush ( pai e filho). Pode soar meio ingênuo, no fim das contas, mas, novamente, a perícia narrativa de Cameron supre este "defeito".
Não sei até que ponto é benéfica para o cinema este excesso de tecnologia. Afinal, não é sempre que haverá um James Cameron no comando. No final, o que garante a permanência de um filme é seu valor humano, não os efeitos especiais. Como disse certa vez Francis Ford Coppola, "a tecnologia faz parte da criatividade, mas nunca pode ser a fonte da criatividade". James Cameron entendeu isto muito bem, esperamos que a nova geração também entenda.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Sem mocinhos e bandidos
"Terra bruta"(Two rode together, 1961), de John Ford, é uma variação do tema de "Rastros de ódio" (The searchers, 1956), do mesmo diretor. A questão do resgate de brancos, capturados por índios. A diferença é que, no primeiro, o Ethan Edwards de John Wayne é um homem amargurado, em constante guerra consigo mesmo; já no segundo, o personagem interpretado por James Stewart (numa das melhores atuações de sua carreira),o "folgado" xerife Guthrie McCabe não tem nada de amargura, nem de conflitos internos. Aceita a incumbência de resgatar os brancos puramente pelo dinheiro. É acompanhado em sua jornada pelo Sargento Gary (Richrad Widmark) que, embora amigo de McCabe é o seu exato oposto. Com um alto senso de dever e moral, é o militar ideal tantas vezes retratado por John Ford. As conversas entre os dois rendem momentos deliciosos.
Ford relativiza o papel de vilão dos índios, fazendo os brancos parecerem muito mais odiosos que os comanches. A cena do baile é um exemplo claro disso.
Não há dúvida de que no final da carreira Ford quis se desculpar, talvez em nome de todo o cinema americano, da maneira como os índios vinham sido retratados na tela. Não fez isso fazendo obras condescendentes, mostrando os índios como "coitadinhos". Expôs os dois lados da moeda, mostrando os defeitos e virtudes tanto dos brancos como dos índios.
Nesse sentido, pode-se falar numa espécie de trilogia informal sobre a questão indígena, composta dos filmes "Rastros de ódio", este "Terra bruta" e fechando com "Crepúsculo de uma raça" (The cheyenne autumn, 1964), este sim, um pedido mais claro de desculpas.
"Terra bruta" vem sendo prejudicado, ao longo dos anos, porque os críticos insistem em compará-lo a "Rastros de ódio", uma obra-prima incontestável de toda a história do cinema. É preciso separar os dois filmes. "Two rode together" merece uma revisão indepedente.
Ford relativiza o papel de vilão dos índios, fazendo os brancos parecerem muito mais odiosos que os comanches. A cena do baile é um exemplo claro disso.
Não há dúvida de que no final da carreira Ford quis se desculpar, talvez em nome de todo o cinema americano, da maneira como os índios vinham sido retratados na tela. Não fez isso fazendo obras condescendentes, mostrando os índios como "coitadinhos". Expôs os dois lados da moeda, mostrando os defeitos e virtudes tanto dos brancos como dos índios.
Nesse sentido, pode-se falar numa espécie de trilogia informal sobre a questão indígena, composta dos filmes "Rastros de ódio", este "Terra bruta" e fechando com "Crepúsculo de uma raça" (The cheyenne autumn, 1964), este sim, um pedido mais claro de desculpas.
"Terra bruta" vem sendo prejudicado, ao longo dos anos, porque os críticos insistem em compará-lo a "Rastros de ódio", uma obra-prima incontestável de toda a história do cinema. É preciso separar os dois filmes. "Two rode together" merece uma revisão indepedente.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
O assassinato como negócio
Que Charles Chaplin é o maior gênio da história do cinema não há dúvida. No entanto, quando se fala em seu nome, a primeira coisa que vem à mente é a figura do "vagabundo" com suas calças largas e velhas, seus sapatos grandes, o jeito engraçado de andar rodopiando a bengala, o cumprimento com o chapéu e o indefectível bigodinho. Realmente, o personagem criado pelo ator/diretor/roteirista/compositor é o mais icônico não só do cinema, mas de toda a cultura do século XX. E os filmes realizados e protagonizados por Carlitos (como ficou conhecido no Brasil) são, realmente, notáveis e engraçadíssimos, desde os curta-metragens da Keystone até os longas como "O Circo" (The circus, 1928) , "Luzes da cidade"( City lights, 1931), entre outros.
Mas, nem sempre, Chaplin foi Carlitos. Ainda em 1923 ele realizou o pungente drama "Casamento ou luxo" (A woman in Paris). Após "O grande ditador" (The great dictator, 1941), o diretor foi quase que exilado dos Estados Unidos por suspeita de ser comunista. Passou a realizar filmes apenas esporadicamente, sempre com um olhar extremamente crítico para o país que o abrigou e depois o expulsou (Chaplin era inglês). O mais ácido desses filmes foi, sem dúvida nenhuma, "Monseiur Verdoux" (idem, 1947), uma comédia de humor negro muito à frente de seu tempo, por isso mesmo, um fracasso quando de seu lançamento. Conta a história do caixa de banco Henri Verdoux ( o próprio Chaplin) que, devido à depressão econômica americana de 1929, acaba perdendo o emprego após 30 anos. Para sustentar a mulher inválida e o filho, não encontrando outro trabalho em sua idade avançada, ele passa a se casar com viúvas ricas, as mata, e fica com o dinheiro.
Todas as situações do filme são mostradas com muito humor, como a tentativa de assassinato de uma de suas vítimas (Martha Hyer) num barco.
Num mundo capitalista, o assassinato torna-se um empreendimento legítimo, um negócio como qualquer outro, com seus riscos e suas recompensas. Na antológica sequencia do julgamento, Verdoux diz que o próprio mundo encoraja o assassinato, com os governos construindo armas de destruição em massa, entrando em conflitos. Mata-se milhões de pessoas na guerra, torna-se um herói; mata uma pessoa em tempo de paz e se torna um assassino. A lógica de Verdoux/Chaplin é implacável. Num mundo vil, violento, como o nosso, para sobrevivermos, também temos que ser vis e violentos. O mundo nos ensina isso. Não é nada pessoal, apenas uma questão de sobrevivência. Afinal, num mundo capitalista somos medidos pelo dinheiro que possuímos.
É claro que um filme com um argumento desses iria assustar as platéias da década de 40, ainda traumatizadas pelos seis anos de conflito bélico. Mesmo hoje quando, apesar de oficiamente não termos mais censura mas, em compensação, temos a praga do politicamente correto, o filme de Chaplin ainda causa uma certa surpresa. Provavelmete os moralistas de plantão iriam chiar. É claro que Chaplin não está encorajando o assassinato, ele mostra, apenas, que o mundo como se apresenta, cria condições para isso.
Pode parecer um filme depressivo, mórbido, mas não é nada disso. É divertidíssimo, com cenas muito engraçadas. O melhor filme de Chaplin.
Mas, nem sempre, Chaplin foi Carlitos. Ainda em 1923 ele realizou o pungente drama "Casamento ou luxo" (A woman in Paris). Após "O grande ditador" (The great dictator, 1941), o diretor foi quase que exilado dos Estados Unidos por suspeita de ser comunista. Passou a realizar filmes apenas esporadicamente, sempre com um olhar extremamente crítico para o país que o abrigou e depois o expulsou (Chaplin era inglês). O mais ácido desses filmes foi, sem dúvida nenhuma, "Monseiur Verdoux" (idem, 1947), uma comédia de humor negro muito à frente de seu tempo, por isso mesmo, um fracasso quando de seu lançamento. Conta a história do caixa de banco Henri Verdoux ( o próprio Chaplin) que, devido à depressão econômica americana de 1929, acaba perdendo o emprego após 30 anos. Para sustentar a mulher inválida e o filho, não encontrando outro trabalho em sua idade avançada, ele passa a se casar com viúvas ricas, as mata, e fica com o dinheiro.
Todas as situações do filme são mostradas com muito humor, como a tentativa de assassinato de uma de suas vítimas (Martha Hyer) num barco.
Num mundo capitalista, o assassinato torna-se um empreendimento legítimo, um negócio como qualquer outro, com seus riscos e suas recompensas. Na antológica sequencia do julgamento, Verdoux diz que o próprio mundo encoraja o assassinato, com os governos construindo armas de destruição em massa, entrando em conflitos. Mata-se milhões de pessoas na guerra, torna-se um herói; mata uma pessoa em tempo de paz e se torna um assassino. A lógica de Verdoux/Chaplin é implacável. Num mundo vil, violento, como o nosso, para sobrevivermos, também temos que ser vis e violentos. O mundo nos ensina isso. Não é nada pessoal, apenas uma questão de sobrevivência. Afinal, num mundo capitalista somos medidos pelo dinheiro que possuímos.
É claro que um filme com um argumento desses iria assustar as platéias da década de 40, ainda traumatizadas pelos seis anos de conflito bélico. Mesmo hoje quando, apesar de oficiamente não termos mais censura mas, em compensação, temos a praga do politicamente correto, o filme de Chaplin ainda causa uma certa surpresa. Provavelmete os moralistas de plantão iriam chiar. É claro que Chaplin não está encorajando o assassinato, ele mostra, apenas, que o mundo como se apresenta, cria condições para isso.
Pode parecer um filme depressivo, mórbido, mas não é nada disso. É divertidíssimo, com cenas muito engraçadas. O melhor filme de Chaplin.
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