segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O raio não caiu duas vezes

Na obra-prima "Vera Cruz", o diretor Robert Aldrich realizou um belo faroeste calcado na relação entre os personagens de Gary Cooper e Burt Lancaster. Dois mercenários, com motivações diferentes, que acabam criando uma relação de mútuo respeito e desconfiança. Todo o pano de fundo da Revolução Mexicana, das "malandragens" da Condessa, estão, de algum modo, atreladas à relação estabelecida entre os dois. Em enxutos 90 minutos, Aldrich cria uma obra admirável de agilidade e concisão. Na verdade, o filme é um monunento ao cinismo, raras vezes alcançado no cinema americano. O que faz de "Vera Cruz", ainda hoje, um trabalho muito atual.
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A luta pela sanidade

Uma pequena patrulha de soldados ingleses, durante a Primeira Guerra Mundial, está perdida no deserto da Mesopotâmia. Um a um eles são aniquilados por árabes, que sempre aparecem repentinamente.
Este é o fiapo de história de "A patrulha perdida" (The lost patrol, 1934), um dos menos conhecidos filmes do mestre John Ford. Assim como ele fará mais tarde em suas obras mais famosas, o diretor trabalha a paisagem como poucos, fazendo dela outro personagem do filme. Pouco a pouco, devido ao sol escaldante, à incerteza de não se saber onde está nem para onde ir e, principalmente, à ansiedade de não se saber de onde vem o próximo tiro, faz com que os soldados, paulatinamente, vão perdendo a razão.
O pelotão é comandado pelo sargento interpretado por Victor McLaglen (um dos atores preferidos de Ford), que tenta a todo o custo manter a sanidade. Entre seus comandados aparece o soldado Sanders (Boris Karloff), um fanático religioso que em tudo vê a mão de Deus ou do diabo, o que não ajuda em nada na unidade do grupo.
Embora, comparado às obras-primas mais famosas do diretor, como "Paixão dos fortes", Rastros de ódio", "O homem que matou o facínora", entre outras, este filme possa ser considerado "menor" na carreira do cineasta, ainda assim é um belo exercício cinematográfico, mostrando que John Ford não dirigia apenas faroestes, mas sabia também retratar a natureza humana.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Tony Curtis

Morreu Tony Curtis. Muitos críticos o consideravam apenas um rosto bonito, ou um bom comediante. Ele foi muito mais que isso. Como comediante possuia a capacidade de se auto-parodiar, de brincar com sua imagem de galã. Isto fica visível, por exemplo, em "Anáguas a bordo"(1961), de Blake Edwards, no excepcional "Médica, bonita e solteira"(1964), de Richard Quine e, claro, na obra-prima absoluta da comédia americana, "Quanto mais quente melhor"(1959), de Billy Wilder. Neste filme, aliás, Curtis exibe todo seu repertório, já que pode-se dizer que ele interpreta 3 papéis: o do músico malandro que foge dos gangsters, a saxofonista da banda feminina e o milionário que se finge de impotente para conquistar Marilyn Monroe. Este último inspirado em Cary Grant, seu ídolo. Curtis convence nos três papéis.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A besta em mim

Dos maravilhosos filmes de terror da Universal nas décadas de 30 e 40, "O lobisomem"(1941), de George Waggner, é um dos menos conhecidos, pois acabou ficando à sombra dos mais famosos "Frankestein", de James Whale, e "Dracula", de Tod Browning. No entanto, apesar de não estar a altura dos outros dois, não lhes fica a dever muito.
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".

domingo, 12 de setembro de 2010

O caminho da loucura

George Cukor(1899-1983) ficou conhecido como o "diretor das mulheres". Não apenas porque seus filmes, geralmente, tinham mulheres como protagonistas, mas porque as atrizes adoravam trabalhar com ele, e assim tinham desempenhos memoráveis. Mas este rótulo é injusto com os atores, pois muitos deles também tiveram interpretações notáveis sob sua direção, ganhando, inclusive, Oscar, que foi o caso de James Stewart, Ronald Colman e Rex Harrison, respectivamente por "Núpcias de escândalo"(1940), "Fatalidade"(1947) e "My fair lady"(1964). Assim, para resumir, Cukor era um excepcional diretor de atores, ficando atrás apenas, a meu ver, de Elia Kazan e Sidney Lumet.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O meu Corinthians

Sei que este é um espaço prioritariamente sobre cinema, mas com a aproximação do centenário do Corinthians não resisti, como corintiano há 31 anos, a fazer uma seleção dos 11 melhores jogadores do Timão que eu vi jogar. É claro que sei a importancia de jogadores como Luizinho, Rivelino, Sócrates, entre outros, mas, como infelizmente não os vi jogar, não irei citá-los na minha seleção.
Aí vai:
Ronaldo
Giba
Marcelo
Gamarra
Kleber
Rincón
Vampeta
Neto
Marcelinho Carioca
Tevez
Ronaldo

domingo, 22 de agosto de 2010

A guerra por dentro

Em 1998 Steven Spielberg causou comoção no público e na crítica com os famosos 45 minutos iniciais de "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan). Realmente a reconstituição do desembarque aliado na Normandia e a batalha que se seguiu foi impressionante. Mas, passados os 45 minutos, ficamos ainda um pouco artodoados com as imagens que acabamos de assistir e depois esquecemos. Spielberg não soube manter o mesmo impacto durante o restante do filme. Quando acabamos de ver o filme, ele termina na projeção, ou seja, ele não nos acompanha depois, não fica na nossa cabeça ( com exceção dos primeiros 45 minutos). Ocorre exatamente o oposto em "Capacete de aço" (The steel helmet), mais uma das obras-primas de Samuel Fuller. Neste, quando o filme termina, ficamos pensando, entre outras coisas, na estupidez do Homem.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.