Na obra-prima "Vera Cruz", o diretor Robert Aldrich realizou um belo faroeste calcado na relação entre os personagens de Gary Cooper e Burt Lancaster. Dois mercenários, com motivações diferentes, que acabam criando uma relação de mútuo respeito e desconfiança. Todo o pano de fundo da Revolução Mexicana, das "malandragens" da Condessa, estão, de algum modo, atreladas à relação estabelecida entre os dois. Em enxutos 90 minutos, Aldrich cria uma obra admirável de agilidade e concisão. Na verdade, o filme é um monunento ao cinismo, raras vezes alcançado no cinema americano. O que faz de "Vera Cruz", ainda hoje, um trabalho muito atual.
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
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