Morreu Tony Curtis. Muitos críticos o consideravam apenas um rosto bonito, ou um bom comediante. Ele foi muito mais que isso. Como comediante possuia a capacidade de se auto-parodiar, de brincar com sua imagem de galã. Isto fica visível, por exemplo, em "Anáguas a bordo"(1961), de Blake Edwards, no excepcional "Médica, bonita e solteira"(1964), de Richard Quine e, claro, na obra-prima absoluta da comédia americana, "Quanto mais quente melhor"(1959), de Billy Wilder. Neste filme, aliás, Curtis exibe todo seu repertório, já que pode-se dizer que ele interpreta 3 papéis: o do músico malandro que foge dos gangsters, a saxofonista da banda feminina e o milionário que se finge de impotente para conquistar Marilyn Monroe. Este último inspirado em Cary Grant, seu ídolo. Curtis convence nos três papéis.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A besta em mim
Dos maravilhosos filmes de terror da Universal nas décadas de 30 e 40, "O lobisomem"(1941), de George Waggner, é um dos menos conhecidos, pois acabou ficando à sombra dos mais famosos "Frankestein", de James Whale, e "Dracula", de Tod Browning. No entanto, apesar de não estar a altura dos outros dois, não lhes fica a dever muito.
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".
domingo, 12 de setembro de 2010
O caminho da loucura
George Cukor(1899-1983) ficou conhecido como o "diretor das mulheres". Não apenas porque seus filmes, geralmente, tinham mulheres como protagonistas, mas porque as atrizes adoravam trabalhar com ele, e assim tinham desempenhos memoráveis. Mas este rótulo é injusto com os atores, pois muitos deles também tiveram interpretações notáveis sob sua direção, ganhando, inclusive, Oscar, que foi o caso de James Stewart, Ronald Colman e Rex Harrison, respectivamente por "Núpcias de escândalo"(1940), "Fatalidade"(1947) e "My fair lady"(1964). Assim, para resumir, Cukor era um excepcional diretor de atores, ficando atrás apenas, a meu ver, de Elia Kazan e Sidney Lumet.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O meu Corinthians
Sei que este é um espaço prioritariamente sobre cinema, mas com a aproximação do centenário do Corinthians não resisti, como corintiano há 31 anos, a fazer uma seleção dos 11 melhores jogadores do Timão que eu vi jogar. É claro que sei a importancia de jogadores como Luizinho, Rivelino, Sócrates, entre outros, mas, como infelizmente não os vi jogar, não irei citá-los na minha seleção.
Aí vai:
Ronaldo
Giba
Marcelo
Gamarra
Kleber
Rincón
Vampeta
Neto
Marcelinho Carioca
Tevez
Ronaldo
Aí vai:
Ronaldo
Giba
Marcelo
Gamarra
Kleber
Rincón
Vampeta
Neto
Marcelinho Carioca
Tevez
Ronaldo
domingo, 22 de agosto de 2010
A guerra por dentro
Em 1998 Steven Spielberg causou comoção no público e na crítica com os famosos 45 minutos iniciais de "O resgate do soldado Ryan" (Saving private Ryan). Realmente a reconstituição do desembarque aliado na Normandia e a batalha que se seguiu foi impressionante. Mas, passados os 45 minutos, ficamos ainda um pouco artodoados com as imagens que acabamos de assistir e depois esquecemos. Spielberg não soube manter o mesmo impacto durante o restante do filme. Quando acabamos de ver o filme, ele termina na projeção, ou seja, ele não nos acompanha depois, não fica na nossa cabeça ( com exceção dos primeiros 45 minutos). Ocorre exatamente o oposto em "Capacete de aço" (The steel helmet), mais uma das obras-primas de Samuel Fuller. Neste, quando o filme termina, ficamos pensando, entre outras coisas, na estupidez do Homem.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.
A história praticamente inexiste. Durante a Guerra da Coréia um destacamento da Infantaria americana tem que chegar a um templo budista e fazer dele um Posto de Observação. Só isso.
O que importa para Fuller, neste caso, não é o contar uma história, mas passar para o espectador a sensação de como é estar em combate, e não importa se estamos na Coréia, na Segunda Guerra, ou na Guerra dos Cem Anos. O palco é o mesmo. Não espere heroísmos ou façanhas militares, pois, para Fuller, a única glória da guerra é sobreviver.
O líder do destacamento é o Sargento Zack (Gene Evans, fantástico), um dos mais pungentes personagens do cinema americano. Na primeira cena do filme, ele é salvo por um garotinho sul-coreano (aliados dos EUA) e age como se nada tivesse acontecido, já está brutalizado pelo ambiente. Não liga a mínina ao ver um companheiro ir pelos ares explodido por uma mina terrestre. Só se interessa, depois, em pegar a mochila do morto para ver se tem cigarros...
Zack entra em conflito com o Tenente Driscoll (Steve Brodie), um militar que ainda possui um mínimo de humanidade, não foi totalmente engolido pela brutalidade. Mas na guerra, nos diz Fuller, o que conta mesmo é o instinto de sobrevivência a qualquer custo, e isso Zack tem de sobra. Portanto, é ele quem mantém seus companheiros vivos.
Mas Fuller é inteligente demais para construir Zack apenas como um sujeito irascível e pragmático. O ser humano nunca tem apenas uma camada. Assim, na convivência com "Short round", o sul-coreanozinho que o salvou no começo do filme, Zack vai readquirindo, bem devagar, um pouco da humanidade perdida.
Quando o grupo de soldados finalmente chega ao templo budista o filme atinge seu clímax emocional. "Observados" por uma gigantesca estátua de Buda, a violência dos combates adquire uma ferocidade ainda maior, em contraponto à face compassiva e cheia de paz do Deus oriental. Buda observa impassivo a estupidez do homem. Isto pode ter vários significados. Pode ser, por exemplo, a afirmação da completa ausência de um Deus, visto que Ele não faz nada para impedir a violência. Pode significar a decepção com sua criação. A cena na qual um prisioneiro norte-coreano capturado recebe uma transfusão de sangue e o médico do destacamento apóia a bolsa de sangue nas mãos da estátua é de uma força impressionante. É por essas razões, entre outras, que o filme fica na nossa cabeça depois de o assistirmos.
Sem falar, é claro, que Fuller esteve na guerra, na linha de combate, portanto, a autenticidade do relato está mais que comprovada. Mas o que fica para o espectador não são as cenas de batalha, embora elas sejam muito bem filmadas. O que fica é uma sensação de mal-estar, que acabamos de ver como é estar em uma batalha. Fuller não mostra sangue jorrando, braços sendo arrancados, corpos mutilados. Mostra uma coisa muito mais forte e que Spielberg não soube demonstrar em seu filme: a transformação de homens em feras. E isso não se mostra com cenas de carnificina, isso é muito fácil. É preciso um enorme talento, que vem junto com a simplicidade. Por exemplo, na batalha final, quando o Sargento Zack surge em meio a fumaça com um ar perdido,olhando o vazio, perplexo. Só esta imagen vale por todos os 45 minutos iniciais do filme de Spielberg.
Além de Fuller, o unico cineasta que conseguiu chegar perto dessa sensação foi Anthony Mann em "Os que sabem morrer" (Men in war, 1957).
"Capacete de aço" é um filme que tem de ser visto, nem que seja uma única vez. Mesmo porque, se você o ver uma vez não esquece mais.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Um caso raro no cinema
Raras vezes, na história do cinema, uma refilmagem é tão boa quanto o original. Só consigo me lembrar de "Cabo do medo" (Cape fear, 1993), de Martin Scorsese, que refilmou "Círculo do Medo", de J.Lee Thompson, de 1962. Scorsese conseguiu, inclusive, em alguns aspectos, melhorar o clássico de Thompson. Mas fora esse, não me lembro de nenhuma refilmagem que sequer se comparasse ao original.
Além de Scorsese, outro que conseguiu esse feito, alguns anos antes, em 1983, foi Brian De Palma com sua releitura de "Scarface, a vergonha de uma nação" (1932), clássico absoluto de Howard Hawks, protótipo de todos os filmes de gângster, desde 'O poderoso chefão" até "Inimigo público".
Na essência os filmes não têm grande diferença entre si. Ambos contam a história de um criminoso (Tony Camonte de 1932, Tony Motana, na refilmagem) que começa de baixo e vai abrindo caminho a bala na hierarquia do crime organizado, até se transformar no "poderoso chefão" do tráfico de bebidas alcoólicas, na obra de Hawks (estamos em Chicago na época da Lei seca) e de cocaína no filme de De Palma. Nos dois filmes, também, o Scarface do título (chamado assim por causa de uma cicatriz no rosto) envolve-se com a namorada do patrão (Karen Morley no original, Michelle Pheiffer no remake). E o fato mais comentado das duas versões: a relação incestuosa que Tony mantém com a irmã, relação esta travestida de um ciúme doentio, mas que nas entrelinhas fica muito clara a real situação, principalmnte ele em relação a ela. A irmã chama-se Cesca no primeiro filme e é interpretada por Ann Dvorak; na refilmagem ela recebe o nome de Gina e é representada por Mary Elizabeth Mastrantonio.
Já os atores que interpretam o celerado criminoso o fazem quase da mesma maneira: Paul Muni no primeiro e Al Pacino no segundo. Ambos retratam um bandido extremamente seguro de si, arrogante, que zombam da autoridade, e é claro, extremamente violentos. Ambos também são imigrantes, Muni,da Itália; Pacino, de Cuba. Parece que na visão dos americanos, a instalação do crime na América nunca vem de dentro, dos prórios americanos, mas sempre de fora, dos imigrantes.
Falando um pouco da obra de 1932, é incrível como o filme conseguiu passar pela censura. Hoje, parece banal, mas para a época, com certeza, era um filme violentíssimo. Há várias cenas com rajadas de metralhadoras disparadas em lugares públicos. Repare na cena quando Muni consegue, pela primeira vez, adquirir metralhadoras. Ele experimenta um prazer quase sexual tocando nelas. Há também a relação com a irmã. No momento em que Tony mata George Raft, seu braço direito, por puro ciúme, antes de descobrir que ele se casou com sua irmã, a reação de Cesca é de revolta. Na cena seguinte, enquanto Tony está arrependido de seu ato, Cesca entra na sala para matá-lo. Mas, no momento em que ela ouve a polícia chegando, o sangue, ( a paixão ?) fala mais alto e ela passa a lutar ao lado do irmão. É quase como se ela estivesse, finalmente, entregando-se a ele. Nesse sentido, Hawks conseguiu ser mais ousado que De Palma..
Finalmente, os dois filmes refletem o estilo de seus diretores. O "Scarface"de Hawks é seco, direto, enxuto, sem enrolações nem grandes dramaticidades. O de De Palma é cheio dos malabarismos técnicos com a câmera que o diretor adorava. E as cenas são mais grandiosas, nada da simplicidade hawksiana ( a famosa "câmera na altura dos olhos"). Uma cena, semelhante nos dois filmes, resume a diferença entre os dois grandes cineastas: o já citado assassinato do braço direito de Tony, que ocorre nos dois filmes, por ciúmes da irmã. Hawks encena de modo muito simples: a campanhia toca, Raft atende; corte para Cesca, que faz uma cara amedontrada; tiros, Raft cai ao chão. Já DePalma, na mesma cena, quando a campanhia soa, uma música clássica começa a tocar, câmera lenta, Tony dispara, Manny Ribera cai lentamente ao chão. Desespero de Gina. Parece uma ópera ! As duas cenas são belíssimas.
Assim, as duas versões são muito boas. Mas, se eu fosse obrigado a escolher uma, escolheria a de Hawks.
Além de Scorsese, outro que conseguiu esse feito, alguns anos antes, em 1983, foi Brian De Palma com sua releitura de "Scarface, a vergonha de uma nação" (1932), clássico absoluto de Howard Hawks, protótipo de todos os filmes de gângster, desde 'O poderoso chefão" até "Inimigo público".
Na essência os filmes não têm grande diferença entre si. Ambos contam a história de um criminoso (Tony Camonte de 1932, Tony Motana, na refilmagem) que começa de baixo e vai abrindo caminho a bala na hierarquia do crime organizado, até se transformar no "poderoso chefão" do tráfico de bebidas alcoólicas, na obra de Hawks (estamos em Chicago na época da Lei seca) e de cocaína no filme de De Palma. Nos dois filmes, também, o Scarface do título (chamado assim por causa de uma cicatriz no rosto) envolve-se com a namorada do patrão (Karen Morley no original, Michelle Pheiffer no remake). E o fato mais comentado das duas versões: a relação incestuosa que Tony mantém com a irmã, relação esta travestida de um ciúme doentio, mas que nas entrelinhas fica muito clara a real situação, principalmnte ele em relação a ela. A irmã chama-se Cesca no primeiro filme e é interpretada por Ann Dvorak; na refilmagem ela recebe o nome de Gina e é representada por Mary Elizabeth Mastrantonio.
Já os atores que interpretam o celerado criminoso o fazem quase da mesma maneira: Paul Muni no primeiro e Al Pacino no segundo. Ambos retratam um bandido extremamente seguro de si, arrogante, que zombam da autoridade, e é claro, extremamente violentos. Ambos também são imigrantes, Muni,da Itália; Pacino, de Cuba. Parece que na visão dos americanos, a instalação do crime na América nunca vem de dentro, dos prórios americanos, mas sempre de fora, dos imigrantes.
Falando um pouco da obra de 1932, é incrível como o filme conseguiu passar pela censura. Hoje, parece banal, mas para a época, com certeza, era um filme violentíssimo. Há várias cenas com rajadas de metralhadoras disparadas em lugares públicos. Repare na cena quando Muni consegue, pela primeira vez, adquirir metralhadoras. Ele experimenta um prazer quase sexual tocando nelas. Há também a relação com a irmã. No momento em que Tony mata George Raft, seu braço direito, por puro ciúme, antes de descobrir que ele se casou com sua irmã, a reação de Cesca é de revolta. Na cena seguinte, enquanto Tony está arrependido de seu ato, Cesca entra na sala para matá-lo. Mas, no momento em que ela ouve a polícia chegando, o sangue, ( a paixão ?) fala mais alto e ela passa a lutar ao lado do irmão. É quase como se ela estivesse, finalmente, entregando-se a ele. Nesse sentido, Hawks conseguiu ser mais ousado que De Palma..
Finalmente, os dois filmes refletem o estilo de seus diretores. O "Scarface"de Hawks é seco, direto, enxuto, sem enrolações nem grandes dramaticidades. O de De Palma é cheio dos malabarismos técnicos com a câmera que o diretor adorava. E as cenas são mais grandiosas, nada da simplicidade hawksiana ( a famosa "câmera na altura dos olhos"). Uma cena, semelhante nos dois filmes, resume a diferença entre os dois grandes cineastas: o já citado assassinato do braço direito de Tony, que ocorre nos dois filmes, por ciúmes da irmã. Hawks encena de modo muito simples: a campanhia toca, Raft atende; corte para Cesca, que faz uma cara amedontrada; tiros, Raft cai ao chão. Já DePalma, na mesma cena, quando a campanhia soa, uma música clássica começa a tocar, câmera lenta, Tony dispara, Manny Ribera cai lentamente ao chão. Desespero de Gina. Parece uma ópera ! As duas cenas são belíssimas.
Assim, as duas versões são muito boas. Mas, se eu fosse obrigado a escolher uma, escolheria a de Hawks.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Pode-se desafiar o destino ?
"Maldição" (House by the river, 1950) é um dos mais cruéis filmes de Fritz Lang. Desde que chegou aos Estados Unidos em 1933, fugindo do nascente nazismo na Alemanha, Lang sempre apontou sua câmera para as rachaduras do chamado american way of life. Logo em seu primeiro filme americano, "Fúria" (Fury, 1936) o diretor contava a história de um homem inocente (Spencer Tracy) que é preso e quase linchado pela população enfurecida. Escapando por pouco de uma tentativa de linchamento dentro da própria cadeia, ele passa a planejar uma terrível vingança contra todos que o perseguiram. A vingança, aliás, é um dos temas frequentes na filmografia de Lang. É na obra-prima "Os corruptos" (The big heat, 1953) que este tema irá ganhar sua força máxima, tornando-o um dos maiores filmes americanos de todos os tempos. Como se vê, Fritz Lang não compartilha muito do ideal de felicidade e sucesso tão propagados como imagem da América.
Outro tema dominante na obra do diretor é a pesada mão do destino que cai impiedosamente sobre seus personagens. Normalmente causado por um evento banal, seus personagens, inocentemente são engendrados numa trama que os leva cada vez mais para baixo, quase à beira da destruição. É o que acontece, por exemplo, com Edward G. Robinson em "Almas perversas" (Scarlet street, 1945). Após ajudar uma "donzela em apuros", o pacato bancário interpretado por Robinson é seduzido pela mulher (Joan Bennett), que junto com seu comparsa (Dan Dureya) bolam um esquema para arrancar todo o dinheiro do pobre homem. Cego de paixão pela mulher que o engana, ele acaba seus dias como mendigo. A mão do destino foi implacável. Isso acontece com vários personagens de Lang, por exemplo, com a Anne Baxter de "A gardênia azul " (Blue gardenia, 1953), Glenn Ford em "Desejo humano" (Human desire, 1954), entre outros. Também acontece com Louis Hayward neste "Maldição", mas ele consegue, de certo modo, escapar do destino, a princípio.
A história : Hayward interpreta Stephen Byrne, um escritor fracassado casado com uma mulher rica, Marjorie (Jane Wyatt). Aproveitando uma bela tarde em que ela está fora, ele decide seduzir sua criada, Emily. A sedução não dá muito certo e ele acaba, acidentalmente, matando-a. Novamente, uma ação banal desencadeando uma tempestade sobre o personagem. Byrne pede ajuda a seu irmão, John (Lee Bowman), que relutantemente acaba o ajudando. Acontece que o saco no qual os dois despacharam o corpo da pobre criada rio abaixo tem o nome de John escrito. Ele passa a ser, assim, o principal suspeito da morte de Emily, deixando Stephen livre de qualquer suspeita.
O que diferencia Stephen Byrne de outros personagens languianos, no entanto, é que em nenhum momento Hayward se deixa abater pelos acontecimentos. Ao contrário, ele capitaliza em cima do "desaparecimento" da criada, escrevendo um romance sobre o assunto que vende como água. Também não tem nenhum escrúpulo em deixar que o seu irmão, que sempre o ajudou durante toda a vida, sofra as consequencias do ato que ele praticou. De certo modo, então, Louis Hayward desafia o destino, ao contrário dos outros personagens de Lang, que parecem aceitar o que o destino lhes oferece.
A partir do momento em que ele não assume a culpa, passa a ter uma outra personalidade, torna-se cruel com sua esposa, sai toda noite com prostitutas e continua a escrever romances sobre o assassinato que cometeu, pois é disso que o público gosta. Ele passa a se sentir poderoso, manipulando todos a sua volta e adora isso. Mas ninguém consegue desafiar o destino eternamente e uma hora as contas irão se ajustar para ele.
Nunca, como aqui, Fritz Lang foi tão longe na análise do lado obscuro da natureza humana. É surpreendente que o filme tenha conseguido sair, sem cortes ou suavizado, numa época em que o cinema americano era duramente vigiado pelos censores "guardiões da moral".
"Maldição" é um dos melhores filmes de Lang, mas curiosamente é um dos menos conhecidos. Não há astros famosos, mas os atores estão muito bem, em especial Louis Hayward. A fotografia em preto e branco é lindíssima, principalmente nas cenas em que aparece o rio à noite.
Em resumo, uma obra-prima.
Outro tema dominante na obra do diretor é a pesada mão do destino que cai impiedosamente sobre seus personagens. Normalmente causado por um evento banal, seus personagens, inocentemente são engendrados numa trama que os leva cada vez mais para baixo, quase à beira da destruição. É o que acontece, por exemplo, com Edward G. Robinson em "Almas perversas" (Scarlet street, 1945). Após ajudar uma "donzela em apuros", o pacato bancário interpretado por Robinson é seduzido pela mulher (Joan Bennett), que junto com seu comparsa (Dan Dureya) bolam um esquema para arrancar todo o dinheiro do pobre homem. Cego de paixão pela mulher que o engana, ele acaba seus dias como mendigo. A mão do destino foi implacável. Isso acontece com vários personagens de Lang, por exemplo, com a Anne Baxter de "A gardênia azul " (Blue gardenia, 1953), Glenn Ford em "Desejo humano" (Human desire, 1954), entre outros. Também acontece com Louis Hayward neste "Maldição", mas ele consegue, de certo modo, escapar do destino, a princípio.
A história : Hayward interpreta Stephen Byrne, um escritor fracassado casado com uma mulher rica, Marjorie (Jane Wyatt). Aproveitando uma bela tarde em que ela está fora, ele decide seduzir sua criada, Emily. A sedução não dá muito certo e ele acaba, acidentalmente, matando-a. Novamente, uma ação banal desencadeando uma tempestade sobre o personagem. Byrne pede ajuda a seu irmão, John (Lee Bowman), que relutantemente acaba o ajudando. Acontece que o saco no qual os dois despacharam o corpo da pobre criada rio abaixo tem o nome de John escrito. Ele passa a ser, assim, o principal suspeito da morte de Emily, deixando Stephen livre de qualquer suspeita.
O que diferencia Stephen Byrne de outros personagens languianos, no entanto, é que em nenhum momento Hayward se deixa abater pelos acontecimentos. Ao contrário, ele capitaliza em cima do "desaparecimento" da criada, escrevendo um romance sobre o assunto que vende como água. Também não tem nenhum escrúpulo em deixar que o seu irmão, que sempre o ajudou durante toda a vida, sofra as consequencias do ato que ele praticou. De certo modo, então, Louis Hayward desafia o destino, ao contrário dos outros personagens de Lang, que parecem aceitar o que o destino lhes oferece.
A partir do momento em que ele não assume a culpa, passa a ter uma outra personalidade, torna-se cruel com sua esposa, sai toda noite com prostitutas e continua a escrever romances sobre o assassinato que cometeu, pois é disso que o público gosta. Ele passa a se sentir poderoso, manipulando todos a sua volta e adora isso. Mas ninguém consegue desafiar o destino eternamente e uma hora as contas irão se ajustar para ele.
Nunca, como aqui, Fritz Lang foi tão longe na análise do lado obscuro da natureza humana. É surpreendente que o filme tenha conseguido sair, sem cortes ou suavizado, numa época em que o cinema americano era duramente vigiado pelos censores "guardiões da moral".
"Maldição" é um dos melhores filmes de Lang, mas curiosamente é um dos menos conhecidos. Não há astros famosos, mas os atores estão muito bem, em especial Louis Hayward. A fotografia em preto e branco é lindíssima, principalmente nas cenas em que aparece o rio à noite.
Em resumo, uma obra-prima.
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