segunda-feira, 19 de julho de 2010

Adorável trapaceiro

Samuel Fuller sempre foi um crítico do ser humano. Talvez por ter sido repórter polocial, e posteriormente ter servido o exército durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, Fuller vivia rodeado de violência, sua visão do mundo e do homem não era das mais simpáticas.
Sua estreia no cinema se deu com "Eu matei Jesse James" (1948), no qual o diretor centrava o foco no traidor Robert Ford, que atirou em seu companheiro de assaltos pelas costas para pegar a recompensa. Ford, interpretado por John Ireland, passa o filme inteiro atormentado pela culpa.
À parte o fato de se tratarem de bandidos, portanto pessoas naturalmente sem caráter, ainda assim uma traição desse tipo não é algo a se louvar. A dor na consciência que Ireland sente é porque ele sabe que agora sim ele chegou ao fundo do poço, pois, além de ser bandido, também é um triador. Robert Ford é o primeiro da extensa galeria de anti-heróis que irá povoar a obra de Fuller e transforma-la numa das mais significativas da história do cinema.
Seu segundo filme é "O barão aventureiro" (1950), também protagonizado por um anti-herói, mas diferente do primeiro filme. Vincent Price ( em atuação brilhante) interpreta James Addison Reavis, um vigarista que, à força de falsificações de documentos, consegue tomar posse de quase todo o território do Arizona ! Ainda por cima, quando o governo americano começa a desconfiar de sua legitimidade e passa a protelar a cessão das terras, Reavis simplesmente processa o governo ! O mais impressionante de tudo isso é que este sujeito realmente existiu.
Ao contrário, portanto, do Robert Ford do primeiro filme, Reavis nem de longe sofre, por um segundo sequer, de remorso ou de consciência pesada. Ele não enxerga nada nem ninguém a sua frente para conseguir seu objetivo. Usa as pessoas a seu bel-prazer, e as que não lhe servem na concretização de seu objetivo simplesmente descarta, ou lhes dá uma quantia em dinheiro para ficarem de boca fechada. É um personagem sem nenhum escrúpulo, que fica ainda mais fascinante para o espectador pelo charme com que Vincent Price o interpreta. Sim, Reavis é um personagem fascinante porque não há como não apreciar o esforço, a dedicação, o talento com que ele opera sua fraude. Ele chega a passar três anos num convento para ganhar a confiança dos frades e poder, livremente, falsificar um livro de registros de doações de terras que se encontra na biblioteca do convento.
Embora, em comparação aos filmes que Fuller irá realizar posteriormente, "O barão aventureiro" possa ser considerado uma obra "menor" do diretor, não há como negar o talento de Fuller na condução do filme, mantendo o interesse do espectador durante o tempo todo. E também, um filme "menor" de Fuller é melhor que a maioria dos filmes produzidos no cinema atual, americano ou não.

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