terça-feira, 27 de julho de 2010

Os monstros humanos de Tod Browning

"O monstro do circo" (The unknown, 1927), de Tod Browning, é um dos filmes mais românticos do cinema. O sacrifício que o personagem principal, Alonzo (Lon Chaney, excepcional), faz para conquistar a mulher por quem é apaixonado, Nanon (Joan Crawford, em um dos seus primeiros papéis) é digno dos atos mais abnegados de amor da história universal.
Mas, estamos num filme de Tod Browning, portanto, as coisas não são assim tão convencionais. Na verdade, Alonzo é um criminoso, e tem uma característica anatômica que é muito perceptível: ele tem um dedo polegar duplo. Para fugir da polícia, então, Alonzo se esconde num circo e prende os braços às costas com a ajuda de uma espécie de corpete, e passa a ser uma das atrações do circo como atirador de faca, com os pés. Nanon, a filha do dono do circo, torna-se sua grande amiga e ele se apaixona perdidamente por ela. No entanto, ela é uma mulher que cresceu traumatizada por sofrer sucessivos assédios de homens, assim, ela tem ojeriza ao simples toque das mãos de qualquer homem. O que acaba tornando-a uma figura trágica, pois ela ama sinceramente Malabar (John Kerry), outro integrante do circo, e ele a ama também. Mas, por causa do seu problema, ela não pode suportar o contato de seus braços.
Como se vê, não são personagens comuns, e, ao mesmo tempo, são muito complexos, com abertura para diversas interpretações. Alonzo, por exemplo, é capaz de matar a sangue frio o pai de Nanon, quando este descobre a sua farsa, vendo que, na realidade, ele tem sim braços. Mas também é capaz de ser extremamente terno quando está junto de Nanon, e , como ficou escrito no início do texto, faz um sacrifício enorme para tê-la. Nanon não sabe que foi Alonzo quem matou seu pai, no entanto, ele é obsessivo com a ideia de casar com ela. Ele é alertado, então, por seu fiel companheiro, o anão Cojo, de que se eles realmente se casarem, ela vai acabar descobrindo não só que ele tem braços, portanto a enganou, como também irá ficar sabendo que foi ele quem matou seu pai, pois ela viu uma mão com dois polegares o estrangulando. Toma então uma medida drástica, por puro amor. Alonzo chantageia um médico, antigo companheiro de crimes, para que ele ampute seus braços ! Quer gesto de amor mais nobre que este ? Aí vem a tragédia. Quando Alonzo se recupera da operação, ele retorna ao circo, esperando conquistar Nanon. Descobre, no entanto, que ela se recuperou da sua "alergia" aos homens e vai se casar com Malabar. O momento desta revelação e a reação de Lon Chaney é um dos grandes momentos da interpretação no cinema da era muda. Quando Alonzo se recupera do choque, prepara uma terrível vingança...
O amor impossível. Este é um tema frequente na filmografia de Tod Browning, diretor que deve ser urgentemente redescoberto tanto pelo público como pela crítica. Seus personagens amam demais, mas por diferentes razões, este amor nunca irá se concretizar. É quando este excesso de amor transforma-se em ódio, e a natureza obscura do ser humano manifesta-se. Isso acontece com o anão de "Monstros" (Freaks, 1932, um dos mais malditos filmes da história do cinema), apaixonado por uma pessoa "normal", e também com o conde Drácula, interpretado por Bela Lugosi no filme homônimo de 1931, até hoje a melhor versão do romance de Bram Stoker, ao lado do "Nosferatu", de Murnau.
Browning é conhecido como diretor de filmes de terror, mas seu cinema vai muito além disso. Em seus filmes, o ser humano aparece em toda sua complexidade. Seus personagens nunca são simplesmente bons ou maus, são muito mais amplos que isso. Frequentemente são as duas coisas ao mesmo tempo, como Alonzo, e como nós todos, não ?
O único defeito de "O monstro do circo" é que é muito curto. Mas, em seus enxutos 50 minutos a obra de Browning possui muito mais riqueza humana do que muitos filmes pretensamente "artísticos" soltos por aí.

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