domingo, 4 de julho de 2010

A violência reflexiva de Sam Peckinpah

Finalmente sai em dvd "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" (Bring me the head of Alfredo Garcia, 1974), uma das obras-primas de Sam Peckinpah, o chamado "poeta da violência".
A violência, nos filmes do diretor americano, não é gratuita, nem estética, mas reflexiva. E isto se acentua ainda mais pelo uso da câmera lenta.
A arte de Peckinpah atingiu seu ponto mais alto com o faroeste crepuscular "Meu ódio será sua herança" (The wild bunch, 1969), um estudo sobre o ciclo interminável de violência e maldade no mundo moderno. O filme começa com um grupo de crianças se divertindo vendo um caranguejo ser devorado por formigas. Termina com um massacre conduzido por velhos assaltantes. Da infância à velhice o ciclo de violência não dá trégua.
Em "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia", um rico fazendeiro mexicano, depois que sua filha engravida de Garcia, oferece uma recompensa para que alguém traga-lhe a cabeça do conquistador. Warren Oates ( em atuação magnífica) se oferece para o trabalho. O ator interpreta Benny, um americano perdido no México que sobrevive cantando em bares. Ele pega sua namorada, Elita (Isabela Vega), que teve um caso com Alfredo Garcia, e parte pelo México a procura do que ele acredita ser a grande oportunidade para dar uma guinada em sua vida. A primeira coisa que dá errada é que Garcia já está morto. Portanto, agora ele tem que procurar sua sepultura, desenterrá-lo e cortar-lhe a cabeça. Quando ele está fazendo este serviço, sob o olhar desaprovador de Elita, ele também sente-se, de certo modo, envergonhado, mas vai em frente pois não quer perder esta oportunidade de mudar a sua sorte. Mas, alguém chega antes dele e pega a cabeça. A partir daí tem início a matança e a primeira vítima é justamente Elita.
Benny consegue recuperar a cabeça, depois de ter matado muita gente. Nesta altura, o dinheiro nem é mais tão importante para ele. Ele quer saber por que a cabeça de Garcia foi pedida, dando origem a tantas mortes. Vai, então, direto na fonte, o rico latifundiário mexicano. A cena de Oates entrando na enorme fazenda, com a cabeça de Alfredo Garcia dentro de uma cesta, enquanto ocorre uma grande festa, com crianças brincando, é simplesmente sensacional. Quando ele descobre a razão de tanta violência, um capricho de um pai vaidoso, se revolta mais ainda e acontece...mais matança.
O ciclo violento em "Meu ódio será sua herança" começou porque o dono de uma ferrovia planejou uma tocaia para pegar os velhos assaltantes justamente no momento em que uma congregação religiosa fazia o seu culto e depois saía em procissão pelas ruas. Muitos inocentes morreram e outros ainda morreriam no decorrer do filme. Tudo porque um homem, ferido em seu brio de grande empresário, planejou um massacre sem pensar nas consequencias, pensando só no prejuízo que os bandidos lhe deram. Em "Alfredo Garcia", também tudo tem início por causa do orgulho ferido de um rico fazendeiro. O massacre final, neste filme, também é presenciado por crianças, que provavelmente irão levar a violência adiante. E o ciclo recomeça.
Os homens decidem resolver pela violência problemas que poderiam ser encarados de outra forma. Aí não há mais como parar. A violência é inerente ao homem, nos diz Peckinpah.
Curiosamente "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" é um dos mais violentos, mas também um dos mais ternos filmes do diretor. Há cenas lindíssimas entre Warren Oates e Isabela Vega, dois amantes condenados e que sabem disso. Numa delas, no banheiro de um hotel, Vega toma banho, sentada triste embaixo do chuveiro. Oates olha para ela com uma expressão desoladora no rosto como se dissesse: "nosso amor não pode sobreviver neste mundo e nós dois sabemos disso". Os dois, aliás, lembram outro casal condenado de Peckinpah, Steve McQueen e Ali MacGraw em "Os implacáveis".
Junto com "O intendente Sansho", de Kenji Mizoguchi, o lançamento de "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia em DVD são os grandes acontecimentos cinematográficos do ano até aqui.

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