quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O desconcerto do mundo segundo Woody Allen

"Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo". A frase de Renato Russo, da música "Há tempos" da Legião Urbana, poderia perfeitamente servir de epígrafe ao filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Whatever works, 2009). Nele, Larry David vive Boris, um sujeito completamnete neurótico, hipocondríaco, niilista, enfim, um desesperançado da raça humana. Acredita firmemente que não existe nenhum Deus comamdando nosso destino, e que tudo que nos acontece é resultado do acaso. Boris encontra uma jovem chamada Melody (Evan Rachel Wood), uma caipira que fugiu de casa e vai parar no apartamento do misantropo Boris. Não espere o clichê de que ela o modifica e ele se torna um ser humano melhor. Ele continua o mesmo, só que agora passa sua descrença no Homem para a jovem ingênua que, na verdade, apenas repete os seus "ensinamentos" mas não entende nada do que ele diz.
É óbvio que o personagem interpretado por Larry David representa a visão de mundo do próprio Woody Allen. É só dar uma olhada em sua filmografia para constatar que o diretor novaiorquino é ele mesmo um descrente no mundo e no ser humano. Também é óbvio que Allen é ateu, e mostra isso em quase todos os seus filmes. O grande lance, aqui, é o diretor mostrar sua desesperança com o mundo moderno através de dialogos afiadíssimos e muito engraçados. Já virou  clássica a tirada de que Deus é um decorador.
Muito tem se falado que os filmes recentes do cineasta representam uma decadência se comparado às peéolas que ele dirigiu nos anos 70 e 80. Pode até ser que seus filmes, a partir da década de 90, tenham sofrido um decréscimo de qualidade, mas, de maneira alguma, são filmes ruins.Muito longe disso. Na verdade, o único trabalho do diretor nesse período mais recente que me deixou um pouco decepcionado foi "Vicky Cristina Barcelona". De resto, gostei de todos os outros. Uns mais, outros menos, mas todos com um talento e uma criatividade impressionantes.
"Tudo pode dar certo" é uma obra divertidíssima sobre, como diria Camões, o "desconcerto do mundo".

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