segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É preciso passar pelo inferno para chegar ao céu

Não é novidade nenhuma afirmar que Martin Scorsese é um cineasta profundamente ligado às suas raízes católicas. Seus personagens estão sempre, direta ou indiretamente, buscando a redenção, expiando os pecados ("Touro indomável"), ou , de forma um tanto torta, tentando salvar o mundo, como se tivessem recebido uma missão divina ("Taxi driver"). As duas coisas ocorrem com o personagem de Nicolas Cage neste belíssimo "Vivendo no limite "(Bringing out the dead, 1999), um subestimado filme do diretor de "Caminhos perigosos", que merece figurar entre as grandes obras do cineasta.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.

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