Uma panorâmica passa pelas impecáveis casas de classe mádia de uma típica cidadezinha americana da década de 50. No terraço de uma dessas casas, Cary Scott (Jane Wyman) toma chá com uma amiga (Agnes Moorehead). Sabemos, pela conversa das duas, que Cary é uma viúva ainda hesitante em encontrar um novo amor, apesar da insistência da amiga e dos filhos, já adultos.Na cena seguinte, Cary convida seu jardineiro, Scott (Rock Hudson) para uma xícara de chá, totalmente inocente. Mas esses encontros inocentes se sucedem e os dois acabam se apaixonando. É aí que aquele mundo perfeito, de casas com gramas perfeitamente aparadas, filhos lindos e inteligentes, festas no Country Club, acaba mostrando sua verdadeira face.Por tras da reluzente fachada, há um mundo de preconceito, egoísmo e mesquinharia.
A palavra melodrama adquiriu, com o correr dos anos, uma conotação pejorativa, devido, principalmente, às novelas de péssima qualidade com as quais a TV nos brinda ao longo dos anos. No entanto, artistas talentosos como Douglas Sirk, diretor deste "Tudo que o céu permite" (All that heaven allows, 1955) mostram que o gênero podia, e pode, ser muito mais profundo do que o rótulo faz parecer.
O que nas mãos de um cineasta menos capacitado ( ou dos autores de novelas da Globo) seria uma vulgar história de amor impossível, nas mãos do mestre Sirk transforma-se num sofisticado estudo sobre as relações familiares e sobre a mentalidade pequeno burguesa numa cidadezinha do interior americano. Cidadezinha, aliás, que poderia ser qualquer uma do mundo.
Logo no começo, naquela já referida panorâmica, vemos carros de cores berrantes passando na rua, mulheres de vestidos chamativos. Nas festas promovidas pela comunuidade local também somos apresentados a um mundo de opulência e exibicionismo. Sirk, ao utilizar essas cores berrantes, exageradas, quer enfatizar a artificialidade e falsidade deste mundo, construído sobre aparências muito frágeis, mas que comandam a vida das pessoas. Os espelhos espalhados pelos cenários, que o diretor tanto gostava, destacam ainda mais este ambiente de superficialidade.
Outro ponto a destacar no filme é o impressionante egoísmo dos filhos de Jane Wyman. Sirk sempre gostou de filmar conflitos familiares que, de vez em quando, acabam em tragédia ("Palavras ao vento", "Imitação da vida"), a fim de mostrar que uma das mais sólidas instituições americanas ( e não só americana) não é tão forte assim. Um simples caso de amor pode derrubar a fortaleza, mostrando os podres de cada um. Os filhos de Cary fazem um escândalo quando a mãe anuncia seu casamento com o jardineiro, preocupados não com a felicidade da mãe, mas com sua própria posicão na sociedade, "o que os outros vão pensar "? Quando, pressionada por tudo e todos, Wyman desiste do casamento, os filhos, que haviam saído de casa, voltam e comemoram o natal como se nada tivesse acontecido. Não estão nem aí com a tristeza da mãe. Inclusive, anunciam que vão sair, não só de casa, mas da cidade ! A decepção estampada no rosto da grande atriz é de uma força impressionante, mostrando como o cinema, quando feito por grandes artistas, pode ser uma arte tão poderosa como qualquer outra. E isso, trabalhando num gênero popular, o melodrama, com astros famosos e num grande estúdio Hollywoodiano ! Sirk detona a sociedade americana trabalhando em seu próprio jardim, usando seus recursos e, principalmente, utilizando seu principal veículo de comunicação, o cinema. E o filme foi um sucesso !
"Tudo que o céu permite" é uma aula de sofisticação dramática poucas vezes vistas na história da sétima arte.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário