Não é novidade nenhuma afirmar que Martin Scorsese é um cineasta profundamente ligado às suas raízes católicas. Seus personagens estão sempre, direta ou indiretamente, buscando a redenção, expiando os pecados ("Touro indomável"), ou , de forma um tanto torta, tentando salvar o mundo, como se tivessem recebido uma missão divina ("Taxi driver"). As duas coisas ocorrem com o personagem de Nicolas Cage neste belíssimo "Vivendo no limite "(Bringing out the dead, 1999), um subestimado filme do diretor de "Caminhos perigosos", que merece figurar entre as grandes obras do cineasta.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Douglas Sirk mostra as rachaduras do american way of life
Uma panorâmica passa pelas impecáveis casas de classe mádia de uma típica cidadezinha americana da década de 50. No terraço de uma dessas casas, Cary Scott (Jane Wyman) toma chá com uma amiga (Agnes Moorehead). Sabemos, pela conversa das duas, que Cary é uma viúva ainda hesitante em encontrar um novo amor, apesar da insistência da amiga e dos filhos, já adultos.Na cena seguinte, Cary convida seu jardineiro, Scott (Rock Hudson) para uma xícara de chá, totalmente inocente. Mas esses encontros inocentes se sucedem e os dois acabam se apaixonando. É aí que aquele mundo perfeito, de casas com gramas perfeitamente aparadas, filhos lindos e inteligentes, festas no Country Club, acaba mostrando sua verdadeira face.Por tras da reluzente fachada, há um mundo de preconceito, egoísmo e mesquinharia.
A palavra melodrama adquiriu, com o correr dos anos, uma conotação pejorativa, devido, principalmente, às novelas de péssima qualidade com as quais a TV nos brinda ao longo dos anos. No entanto, artistas talentosos como Douglas Sirk, diretor deste "Tudo que o céu permite" (All that heaven allows, 1955) mostram que o gênero podia, e pode, ser muito mais profundo do que o rótulo faz parecer.
O que nas mãos de um cineasta menos capacitado ( ou dos autores de novelas da Globo) seria uma vulgar história de amor impossível, nas mãos do mestre Sirk transforma-se num sofisticado estudo sobre as relações familiares e sobre a mentalidade pequeno burguesa numa cidadezinha do interior americano. Cidadezinha, aliás, que poderia ser qualquer uma do mundo.
Logo no começo, naquela já referida panorâmica, vemos carros de cores berrantes passando na rua, mulheres de vestidos chamativos. Nas festas promovidas pela comunuidade local também somos apresentados a um mundo de opulência e exibicionismo. Sirk, ao utilizar essas cores berrantes, exageradas, quer enfatizar a artificialidade e falsidade deste mundo, construído sobre aparências muito frágeis, mas que comandam a vida das pessoas. Os espelhos espalhados pelos cenários, que o diretor tanto gostava, destacam ainda mais este ambiente de superficialidade.
Outro ponto a destacar no filme é o impressionante egoísmo dos filhos de Jane Wyman. Sirk sempre gostou de filmar conflitos familiares que, de vez em quando, acabam em tragédia ("Palavras ao vento", "Imitação da vida"), a fim de mostrar que uma das mais sólidas instituições americanas ( e não só americana) não é tão forte assim. Um simples caso de amor pode derrubar a fortaleza, mostrando os podres de cada um. Os filhos de Cary fazem um escândalo quando a mãe anuncia seu casamento com o jardineiro, preocupados não com a felicidade da mãe, mas com sua própria posicão na sociedade, "o que os outros vão pensar "? Quando, pressionada por tudo e todos, Wyman desiste do casamento, os filhos, que haviam saído de casa, voltam e comemoram o natal como se nada tivesse acontecido. Não estão nem aí com a tristeza da mãe. Inclusive, anunciam que vão sair, não só de casa, mas da cidade ! A decepção estampada no rosto da grande atriz é de uma força impressionante, mostrando como o cinema, quando feito por grandes artistas, pode ser uma arte tão poderosa como qualquer outra. E isso, trabalhando num gênero popular, o melodrama, com astros famosos e num grande estúdio Hollywoodiano ! Sirk detona a sociedade americana trabalhando em seu próprio jardim, usando seus recursos e, principalmente, utilizando seu principal veículo de comunicação, o cinema. E o filme foi um sucesso !
"Tudo que o céu permite" é uma aula de sofisticação dramática poucas vezes vistas na história da sétima arte.
A palavra melodrama adquiriu, com o correr dos anos, uma conotação pejorativa, devido, principalmente, às novelas de péssima qualidade com as quais a TV nos brinda ao longo dos anos. No entanto, artistas talentosos como Douglas Sirk, diretor deste "Tudo que o céu permite" (All that heaven allows, 1955) mostram que o gênero podia, e pode, ser muito mais profundo do que o rótulo faz parecer.
O que nas mãos de um cineasta menos capacitado ( ou dos autores de novelas da Globo) seria uma vulgar história de amor impossível, nas mãos do mestre Sirk transforma-se num sofisticado estudo sobre as relações familiares e sobre a mentalidade pequeno burguesa numa cidadezinha do interior americano. Cidadezinha, aliás, que poderia ser qualquer uma do mundo.
Logo no começo, naquela já referida panorâmica, vemos carros de cores berrantes passando na rua, mulheres de vestidos chamativos. Nas festas promovidas pela comunuidade local também somos apresentados a um mundo de opulência e exibicionismo. Sirk, ao utilizar essas cores berrantes, exageradas, quer enfatizar a artificialidade e falsidade deste mundo, construído sobre aparências muito frágeis, mas que comandam a vida das pessoas. Os espelhos espalhados pelos cenários, que o diretor tanto gostava, destacam ainda mais este ambiente de superficialidade.
Outro ponto a destacar no filme é o impressionante egoísmo dos filhos de Jane Wyman. Sirk sempre gostou de filmar conflitos familiares que, de vez em quando, acabam em tragédia ("Palavras ao vento", "Imitação da vida"), a fim de mostrar que uma das mais sólidas instituições americanas ( e não só americana) não é tão forte assim. Um simples caso de amor pode derrubar a fortaleza, mostrando os podres de cada um. Os filhos de Cary fazem um escândalo quando a mãe anuncia seu casamento com o jardineiro, preocupados não com a felicidade da mãe, mas com sua própria posicão na sociedade, "o que os outros vão pensar "? Quando, pressionada por tudo e todos, Wyman desiste do casamento, os filhos, que haviam saído de casa, voltam e comemoram o natal como se nada tivesse acontecido. Não estão nem aí com a tristeza da mãe. Inclusive, anunciam que vão sair, não só de casa, mas da cidade ! A decepção estampada no rosto da grande atriz é de uma força impressionante, mostrando como o cinema, quando feito por grandes artistas, pode ser uma arte tão poderosa como qualquer outra. E isso, trabalhando num gênero popular, o melodrama, com astros famosos e num grande estúdio Hollywoodiano ! Sirk detona a sociedade americana trabalhando em seu próprio jardim, usando seus recursos e, principalmente, utilizando seu principal veículo de comunicação, o cinema. E o filme foi um sucesso !
"Tudo que o céu permite" é uma aula de sofisticação dramática poucas vezes vistas na história da sétima arte.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O raio não caiu duas vezes
Na obra-prima "Vera Cruz", o diretor Robert Aldrich realizou um belo faroeste calcado na relação entre os personagens de Gary Cooper e Burt Lancaster. Dois mercenários, com motivações diferentes, que acabam criando uma relação de mútuo respeito e desconfiança. Todo o pano de fundo da Revolução Mexicana, das "malandragens" da Condessa, estão, de algum modo, atreladas à relação estabelecida entre os dois. Em enxutos 90 minutos, Aldrich cria uma obra admirável de agilidade e concisão. Na verdade, o filme é um monunento ao cinismo, raras vezes alcançado no cinema americano. O que faz de "Vera Cruz", ainda hoje, um trabalho muito atual.
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .
Sete anos depois, o diretor faria "O último por-do-sol"(The last sunset), claramente um trabalho de encomenda. No entanto, uma encomenda que incluía um bom roteiro do renomando Dalton Trumbo e um elenco estelar. Mas, ou por não ter tido a liberdade criativa que gostaria, ou por simplesmente não estar muito animado com o projeto, o fato é que "The last sunset" resultou num filme frouxo, que não lembra em nada a exuberancia de Vera Cruz e, tampouco, o estilo vigoroso do autor de "A morte num beijo".
Há algumas coisas interessantes no filme, como o personagem de Joseph Cotten, um fazendeiro bêbado e manco, que esconde um segredo de covardia pessoal. O próprio foragido da justiça, interpretado por Kirk Douglas, também é muito bem construído. Podendo, num momento, declamar versos sobre a natureza e Deus e, no outro, num acesso de ódio, quase matar um cachorro. Sua própria vestimenta, camisa e calças pretas, com um lenço amarelo no pescoço, denuncia a ambivalência do personagem.
Aldrich tentou dar o seu toque pessoal ao filme, fazendo estabelecer entre Douglas e Rock Hudson uma relação parecida com a de Lancaster e Cooper em "Vera Cruz", mas não deu muito certo. Isto aconteceu basicamente por duas razões. Primeiro, como foi dito anteriormente, no filme de 1954, tudo girava em torno da relação entre os dois, portanto, nunca perdíamos de vista o foco principal da obra. Já em "O último por-do-sol", há muitas coisas paralelas acontecendo, como a condução do rebanho da Cidade do México até o Texas, três bandidos que se infiltram entre eles, as complicações sentimentais envolvendo a personagem de Dorothy Malone e, até, um conflito Edipiano! Além dessas dispersões, o outro fator para a malograda tentativa de reeditar a dobradinha de "Vera Cruz", é que, neste, tanto Gary Cooper quanto Burt Lancaster têm atuações magníficas, um complementa o outro. A química é perfeita. Já no filme de 1961, Kirk Douglas mantém o nível dos outros dois, mas não é acompanhado por Rock Hudson, o qual, muito provavelmente, foi empurrado goela abaixo de Aldrich. Fosse um outro ator, como o próprio Burt Lancaster, ou Richard Widmark, por exemplo, a coisa seria diferente. Hudson era ótimo em comédias e nos melodramas de Douglas Sirk, mas não era, de maneira alguma, um ator "aldrichiano".
Enfim, "The last sunset", é um filme que se deixa ver com facilidade, mas está entre as obras menores de Robert Aldrich, um dos mais importantes cineastas americanos .
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A luta pela sanidade
Uma pequena patrulha de soldados ingleses, durante a Primeira Guerra Mundial, está perdida no deserto da Mesopotâmia. Um a um eles são aniquilados por árabes, que sempre aparecem repentinamente.
Este é o fiapo de história de "A patrulha perdida" (The lost patrol, 1934), um dos menos conhecidos filmes do mestre John Ford. Assim como ele fará mais tarde em suas obras mais famosas, o diretor trabalha a paisagem como poucos, fazendo dela outro personagem do filme. Pouco a pouco, devido ao sol escaldante, à incerteza de não se saber onde está nem para onde ir e, principalmente, à ansiedade de não se saber de onde vem o próximo tiro, faz com que os soldados, paulatinamente, vão perdendo a razão.
O pelotão é comandado pelo sargento interpretado por Victor McLaglen (um dos atores preferidos de Ford), que tenta a todo o custo manter a sanidade. Entre seus comandados aparece o soldado Sanders (Boris Karloff), um fanático religioso que em tudo vê a mão de Deus ou do diabo, o que não ajuda em nada na unidade do grupo.
Embora, comparado às obras-primas mais famosas do diretor, como "Paixão dos fortes", Rastros de ódio", "O homem que matou o facínora", entre outras, este filme possa ser considerado "menor" na carreira do cineasta, ainda assim é um belo exercício cinematográfico, mostrando que John Ford não dirigia apenas faroestes, mas sabia também retratar a natureza humana.
Este é o fiapo de história de "A patrulha perdida" (The lost patrol, 1934), um dos menos conhecidos filmes do mestre John Ford. Assim como ele fará mais tarde em suas obras mais famosas, o diretor trabalha a paisagem como poucos, fazendo dela outro personagem do filme. Pouco a pouco, devido ao sol escaldante, à incerteza de não se saber onde está nem para onde ir e, principalmente, à ansiedade de não se saber de onde vem o próximo tiro, faz com que os soldados, paulatinamente, vão perdendo a razão.
O pelotão é comandado pelo sargento interpretado por Victor McLaglen (um dos atores preferidos de Ford), que tenta a todo o custo manter a sanidade. Entre seus comandados aparece o soldado Sanders (Boris Karloff), um fanático religioso que em tudo vê a mão de Deus ou do diabo, o que não ajuda em nada na unidade do grupo.
Embora, comparado às obras-primas mais famosas do diretor, como "Paixão dos fortes", Rastros de ódio", "O homem que matou o facínora", entre outras, este filme possa ser considerado "menor" na carreira do cineasta, ainda assim é um belo exercício cinematográfico, mostrando que John Ford não dirigia apenas faroestes, mas sabia também retratar a natureza humana.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Tony Curtis
Morreu Tony Curtis. Muitos críticos o consideravam apenas um rosto bonito, ou um bom comediante. Ele foi muito mais que isso. Como comediante possuia a capacidade de se auto-parodiar, de brincar com sua imagem de galã. Isto fica visível, por exemplo, em "Anáguas a bordo"(1961), de Blake Edwards, no excepcional "Médica, bonita e solteira"(1964), de Richard Quine e, claro, na obra-prima absoluta da comédia americana, "Quanto mais quente melhor"(1959), de Billy Wilder. Neste filme, aliás, Curtis exibe todo seu repertório, já que pode-se dizer que ele interpreta 3 papéis: o do músico malandro que foge dos gangsters, a saxofonista da banda feminina e o milionário que se finge de impotente para conquistar Marilyn Monroe. Este último inspirado em Cary Grant, seu ídolo. Curtis convence nos três papéis.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.
E no âmbito dramático seu talento também está mais do que comprovado. Basta vê-lo como o irmão de Kirk Douglas em "Vikings Os conquistadores"(1958), também como o racista de "Acorrentados"(1959), de Stanley Kramer, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar. Vale destacar, ainda, sua participação em "Spartacus"(1960), de Stanley Kubrick, principalmente na cena homoerótica entre ele e Laurence Olivier na banheira do palácio romano.
No entanto, sua atuação dramática mais marcante foi, sem dúvida nenhuma, como Alberto de Salvo, o "estrangulador de Boston", em "O homem que odiava as mulheres"(1968), obra-prima de Richard Fleischer. As cenas passadas no hospital psquiatrico, nas quais ele é interrogado por Henry Fonda, são uma aula de direção e atuação. De Salvo comete os crimes sem consciência do que está fazendo, por conta de uma doença mental. Na sua cabeça, ele não fez nada, não entende porquê foi preso. Com o prosseguimento do interrogatório ele vai, aos poucos, através de flashes de memória, percebendo o que fez, ou seja, estrangulou várias mulheres. O desespero em seu rosto quando ele se dá conta disto é impressionante.
Nas décadas de 70 e 80 Curtis entrou em decadência, mas mesmo assim ainda conseguiu oferecer ótimas atuações, como em "O último magnata"(1976), de Elia Kazan e em "Malícia atômica"(1985), de Nicolas Roeg.
E os últimos remanescentes da Hollywood clássica estão indo embora. Tony Curtis, com certeza, foi um de seus maiores representantes. Vamos ver se agora, depois de morto, os críticos lhe dão o devido valor.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A besta em mim
Dos maravilhosos filmes de terror da Universal nas décadas de 30 e 40, "O lobisomem"(1941), de George Waggner, é um dos menos conhecidos, pois acabou ficando à sombra dos mais famosos "Frankestein", de James Whale, e "Dracula", de Tod Browning. No entanto, apesar de não estar a altura dos outros dois, não lhes fica a dever muito.
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".
O filme conta a história de Larry Talbot (Lon Chaney Jr, menos carismático que o pai), uma espécie de filho pródigo que retorna a casa de seu pai (Claude Rains, ótimo como sempre) após uma temporada nos Estados Unidos. Pelo breve diálogo que ocorre entre eles logo no começo do filme percebemos que sua relação sempre foi distante, e que agora ambos procuram uma reaproximação.
Num passeio a noite com uma jovem moradora do local (Evelyn Ankers) e uma amiga, esta acaba sendo atacada por um lobo. Larry mata o lobo, mas, infelizmente, não consegue chegar a tempo de salvar a moça. Na luta, o animal o fere e ele acaba se transformando num lobisomem.
Larry talbot é um personagem trágico. No começo do filme o vemos chegand0 despreocupado e feliz na casa paterna. Tem tudo para se reconciliar com o pai, até se apaixona pela mocinha da loja de antiguidades e é correspondido.Mas, assim como acontece no cinema noir, o destino chega com toda a sua força, na forma de um lobo, e faz de Talbot sua presa. Agindo apenas pelo instinto, sem ter chance de pensar, ele sai toda a noite e mata uma pessoa. Na manhã seguinte ele percebe o que fez e fica desesperado. Fica ainda mais atormentado pois sabe que na noite seguinte ele irá repetir a dose. É uma sina terrível, contra a qual ele sabe não ter forças para lutar.
Nas conversas que ele tem com o pai fica claro o conflito entre a razão e o sobrenatural. Homem prático, Sir John Talbot não é capaz de crer numa lenda absurda de homens transformados em lobos, ainda mais quando atinge um membro de sua família. No entanto ele irá provar, da forma mais traumática possível, que há coisas que a razão, a ciência, não pode explicar. De acordo com o tom trágico do filme, o pai mata o filho, quando este está transformado em lobisomem. Só percebe isso depois que o dia amanhece e as feições do animal vão dando lugar ao rosto de seu filho.
"O lobisomem" é um filme de terror muito mais profundo do que pode supor o título. É aquele horror contra o qual não temos nenhum controle, que pode chegar inesperadamente e nos transformar, contra a nossa vontade, em verdadeiros assassinos. O horror das vítimas termina, mas o nosso dura a vida toda. É como aquela música de Johnny Cash, "The beast in me".
domingo, 12 de setembro de 2010
O caminho da loucura
George Cukor(1899-1983) ficou conhecido como o "diretor das mulheres". Não apenas porque seus filmes, geralmente, tinham mulheres como protagonistas, mas porque as atrizes adoravam trabalhar com ele, e assim tinham desempenhos memoráveis. Mas este rótulo é injusto com os atores, pois muitos deles também tiveram interpretações notáveis sob sua direção, ganhando, inclusive, Oscar, que foi o caso de James Stewart, Ronald Colman e Rex Harrison, respectivamente por "Núpcias de escândalo"(1940), "Fatalidade"(1947) e "My fair lady"(1964). Assim, para resumir, Cukor era um excepcional diretor de atores, ficando atrás apenas, a meu ver, de Elia Kazan e Sidney Lumet.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.
Das atrizes que trabalharam com ele, uma que ganhou o Oscar foi Ingrid Bergman por "À meia-luz"(1944). Neste filme, a sueca interpreta Paula Alquist, sobrinha de uma famosa atriz que morre brutalmente assassinada em um crime que jamais foi solucionado. Para fugir da tragédia, Paula vai para a Itália, onde toma aulas de canto e se apaixona por seu acompanhante ao piano, o charmoso Anton (Charles Boyer, ótimo). Os dois se casam e vão viver na antiga casa da tia de Paula, onde ocorreu o crime. Mas logo fica muito claro que Anton não tem as melhores das intenções, começando pouco a pouco a enlouquecer Paula, com o objetivo de ficar com o domínio da propriedade e de procurar algumas jóias valiosas que não foram encontradas após a sua morte.
Além de excelente diretor de atores, Cukor mostra neste filme que também sabe trabalhar muito bem o ambiente, no caso, o casarão onde os dois vão morar. Trabalhando com luz e sombras quase como num noir, Cukor faz da mansão um outro personagem do filme.
Mas o que chama mesmo a atenção no filme é o gradativo definhamento mental de Bergman. Manipulada como uma marionete pelo maquiavélico Boyer, ela consegue transmitir uma sensação de desespero impressionante. Paula é salva por um policial da Scotland Yard (Joseph Cotten), que nunca se conformou com o fato de o assassinato da tia de Paula ter ficado sem solução, assim, começa a investigar o marido da sobrinha e acaba descobrindo seus planos.
Além do par principal, merece destaque também a impagável atuação de Angela Lansbury, ainda bem jovem, como a petulante e assanhada empregada do casal.
"À meia-luz" é um drama muito bem conduzido e maginificamente interpretado, merecendo lugar de destaque na ilustre filmografia de Cukor.
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