Há certos filmes que se beneficiam do contexto no qual foram realizados. Nos anos 60, por exemplo, em Hollywood, não se podia falar, de forma aberta, em homossexualismo. Se algum personagem tivesse essa característica, os diretores tinham que dar um jeito de sugerir isso, sem explicitar, recorrendo a criatividade.
Otto Preminger, conhecido, além de grande diretor, como um "quebrador de tabus", mostrou em seu filme "Tempestade sobre Washington" (Advise and consent, 1962, o melhor filme já feito até hoje sobre política) uma cena que se passava num bar gay. Mas, uma obra que enfocava durante toda a sua projeção a angústia de ser um homossexual numa época em que isso era alvo de um preconceito enorme e até enquadrado como crime em alguns países, era algo inédito, pelo menos no "cinemão" de Hollywood. Quem conseguiu o feito foi John Huston, em "O pecado de todos nós" (Reflections in a golden eye, 1967). A palavra "gay" nunca é citada, mas sabemos que o Major Penderton (Marlon Brando) tem outras preferências. Huston usa de muitas sugestões, como o fato do Major não se relacionar sexualmente com sua mulher (Elizabeth Taylor) e o modo como ele observa o Recruta Williams (Robert Forster) cavalgar nu, além de outras "dicas".
O filme quase não tem história. Narra a rotina num forte do Exército americano, no qual Penderton vive com sua esposa, que o trai com o Sargento Morris (Brian Keith). Este, por sua vez, é casado com uma mulher problemática (Julie Harris) que entrou em estado de choque quando sua filha recém-nascida morreu. Horrorizada de viver num ambiente totalmente desprovido de sensibilidade e compaixão, ela encontra refúgio num enfermeiro filipino que, além de cuidar dela, a diverte com seus trejeitos e brincadeiras. Claro que ele é ridicularizado por todos no Forte.
A aparente paz do lugar cai por terra quando o recruta Williams observa Leonora, a esposa do major, nua, pela janela. Fica obcecado por ela. Ao mesmo tempo, a homossexualidade do Major é despertada com a visão do soldado cavalgando nu pelos bosques. A partir daí é só uma questão de tempo para todas essas paixões explodirem e causar estragos.
O filme é carregado de símbolos, o mais forte deles o cavalo, que representa a potência sexual que Leonora não encontra mais no marido. A cena em que Brando açoita o garanhão Firebird é representativa disso. Na verdade, nesta cena, Penderton está punindo sua própria sexualidade, já que o cavalo é um garanhão, representa a potência sexual masculina. Repare como na sequencia da surra, Brando chora como uma mulher, uma mulher carente, que não consegue se realizar sexualmente.
Este filme pode parecer estranho na carreira de John Huston, já que, aparentemente, não apresenta semelhanças com outros filmes do diretor. Mas só aparentemente. Em seus melhores filmes, com raras exceções, os personagens hustonianos são perdedores. Eles sempre buscam alguma coisa, com todas as suas forças e, no final, a busca resulta infrutífera. Ou eles não conseguem a coisa desejada ou, se a conseguem, a perdem logo depois. Ou, ainda, a coisa perseguida os acaba destruindo. Resumindo, é a inutilidade do esforço. Assim, a busca do Major Penderton tentando conseguir a atenção de Williams(vista com mais clareza nas cenas finais) encontra eco no fracasso dos trapaceiros de "O falcão maltês"; nos bandidos de "O segedo das jóias", nos garimpeiros de "O tesouro de Sierra Madre"; no Capitão Ahab de "Moby Dick" etc.
E Marlon Brando prova mais uma vez que é o melhor ator que o cinema já viu ou verá. Em uma atuação corajosa, visceral, perfeita, antológica.
domingo, 30 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Imprima-se a lenda !
Da chamada Trilogia da Cavalaria, que o diretor John Ford realizou entre 1948 e 1950, "Legião invencível" (She wore a yellow ribbon, 1949) é o mais convencional. O primeiro da série, "Sangue de heróis"(Fort Apache, 1948) é, não só, o melhor da trilogia, mas uma das obras-primas do diretor. Conta, de forma disfarçada, a história do massacre de Little Big Horn, no qual o General Custer e todo seu comando foram mortos pelos índios Cheyenne. Custer aparece travestido do Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) e o retrato que dele faz John Ford não é nada heróico. Vaidoso e preconceituoso ao extremo, Thursday acaba causando a morte de seus homens de forma gratuita, já que os índios estavam dispostos a discutir a paz e, devido à intransigência e arrogância do Coronel ocorre um combate e os índios, em número muito maior, acabam prevalecendo. Logo após, o Capitão York (John Wayne), em entrevista à imprensa, trata de "dourar a pilúla", apresentando Thursday/Custer como um verdadeiro mártir que se sacrificou pela paz no território. E assim nasceu a lenda do "Intrépido General Custer", nos diz John Ford.
No filme seguinte, "Legião invencível", Ford sentiu a necessidade de instaurar o mito novamente, percebendo, talvez, que tinha pegado um pouco pesado com uma das mais aclamadas figuras da História americana. Assim, neste filme, o diretor faz uma verdadeira ode à Cavalaria, descrevendo seus costumes, a camaradagem entre os soldados, suas pequenas intrigas, alegrias e tristezas.
A história quase inexiste. O capitão Nathan Brittles (John Wayne), prestes a se aposentar, comanda uma última missão, tentando evitar que várias tribos indígenas se unam e partam para um ataque contra o exército dos EUA. Só isso. O curioso é que o filme começa, justamente, falando do massacre de Little Big Horn. Os índios, vendo o sucesso do ataque, se entusiasmam e tentam fazer um levante. Brittles vai tentar evitar o confronto,sem sucesso, mas a Cavalaria sai vitoriosa. Sim, é uma visão extremamente romantizada do exército americano, mas, talvez, depois do rigor do filme anterior, Ford sentiu a necessidade de pegar mais leve, devolvendo ao povo americano a visão que eles sempre tiveram de seus heróis.
Encerrando a trilogia, veio depois "Rio Grande" (1950), uma história mais intimista, de conflitos familiares.
Vendo os três filmes em conjunto, fica claro a preferência do diretor pelos anônimos, aqueles homens simples e humildes, trabalhadores, que fazem a base para a grande História americana. São homens que irão ser esquecidos pela História e pelo tempo mas que, segundo Ford, foram parte fundamental na construção dos Estados Unidos.
Pode não ter sido a verdade, que a Cavalria não fosse realmente aquela camaradagem, mas que importa ? Quem disse que o cinema tem que retratar a verdade ? Como diz o repórter de "O homem que matou o facínora " (The man who shot Liberty Valence, 1962), outra das obras-primas de Ford, "quando a lenda transforma-se em fato, imprime-se a lenda". Eu sempre preferi a lenda.
No filme seguinte, "Legião invencível", Ford sentiu a necessidade de instaurar o mito novamente, percebendo, talvez, que tinha pegado um pouco pesado com uma das mais aclamadas figuras da História americana. Assim, neste filme, o diretor faz uma verdadeira ode à Cavalaria, descrevendo seus costumes, a camaradagem entre os soldados, suas pequenas intrigas, alegrias e tristezas.
A história quase inexiste. O capitão Nathan Brittles (John Wayne), prestes a se aposentar, comanda uma última missão, tentando evitar que várias tribos indígenas se unam e partam para um ataque contra o exército dos EUA. Só isso. O curioso é que o filme começa, justamente, falando do massacre de Little Big Horn. Os índios, vendo o sucesso do ataque, se entusiasmam e tentam fazer um levante. Brittles vai tentar evitar o confronto,sem sucesso, mas a Cavalaria sai vitoriosa. Sim, é uma visão extremamente romantizada do exército americano, mas, talvez, depois do rigor do filme anterior, Ford sentiu a necessidade de pegar mais leve, devolvendo ao povo americano a visão que eles sempre tiveram de seus heróis.
Encerrando a trilogia, veio depois "Rio Grande" (1950), uma história mais intimista, de conflitos familiares.
Vendo os três filmes em conjunto, fica claro a preferência do diretor pelos anônimos, aqueles homens simples e humildes, trabalhadores, que fazem a base para a grande História americana. São homens que irão ser esquecidos pela História e pelo tempo mas que, segundo Ford, foram parte fundamental na construção dos Estados Unidos.
Pode não ter sido a verdade, que a Cavalria não fosse realmente aquela camaradagem, mas que importa ? Quem disse que o cinema tem que retratar a verdade ? Como diz o repórter de "O homem que matou o facínora " (The man who shot Liberty Valence, 1962), outra das obras-primas de Ford, "quando a lenda transforma-se em fato, imprime-se a lenda". Eu sempre preferi a lenda.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Kubrick antevendo a relação entre política e criminalidade
"Laranja mecânica" (A clockwork orange, 1971), de Stanley Kubrick, é um filme que não dá para apreender vendo uma só vez. Como toda obra-prima, é um filme no qual descobrimos coisas novas toda vez que o revemos. Possui vários níveis de entendimento. Mesmo aqueles que não gostaram (o que é quase impossível) não conseguem esquecer certas imagens do filme, ou pela sua brutalidade, ou por ser "esquisita" demais.
Falar que o trabalho de Kubrick é um estudo sobre a violência, embora seja verdade, é reduzir demais o filme. Na verdade, o diretor está mais interessado na violência institucional, do Estado contra o indivíduo, do que propriamente na violência física. Aliás, esse é um tema que aparece em outros filmes do cineasta, como em "Glória feita de sangue" (Paths of glory, 1957), "Spartacus" (idem, 1960), "Doutor Fantástico"(Dr. Strangelove, 1964) e "Nascido para matar"(Full metal jecket, 1987).
Por que Alex (Malcom McDowell, numa das maiores atuações da história da cinema) é violento ? O filme não se aprofunda muito sobre isso, mas nos dá algumas dicas. Por exemplo, no dia seguinte a mais uma noite da "boa e velha ultra-violência", Alex está no seu quarto, com uma dor nas partes genitais, portanto, não vai a escola. Sua mãe, de forma calma e compassiva, pondera que o filho já não vai a escola há uma semana. Ele enrola a resposta e a mãe, aceitando, volta a mesa para tomar o café da manhã. O pai desconfia do misterioso "trabalho" que o filho faz todas as noites, mas também não toma nenhuma providência sobre o assunto. Ou seja, os pais não estão nem aí com o filho, portanto, Alex pensa que pode tudo.
Quando ele finalmente é preso, começa a violência estatal. Não há dúvida de que Alex merece uma punição pesada, mas daí o Estado passar a utilizá-lo como cobaia num experimento de extirpação do instinto violento, com vistas a fins políticos, vai uma distância muito grande. O dever do Estado é tentar recuperar o criminoso e, se não for possível, tratar de mantê-lo atrás das grades. É claro que o tiro sai pela culatra. O enigmático final do filme, que já rendeu inúmeras interpretações, mostra que o futuro é bem sombrio, com uma possível união entre o poder político e a criminalidade. Coisa que nós, brasileiros, conhecemos muito bem.
"Laranja mecânica" é daqueles filmes que nunca irão envelhecer, do qual cada um tira uma leitura diferente, rendendo debates, na maioria das vezes, muito interessantes. Sem falar que é muito, mas muito bem filmado.
Enfim, é impossível falar desta obra-prima em algumas linhas. O melhor mesmo é ver o filme e tirar suas próprias conclusões.
Falar que o trabalho de Kubrick é um estudo sobre a violência, embora seja verdade, é reduzir demais o filme. Na verdade, o diretor está mais interessado na violência institucional, do Estado contra o indivíduo, do que propriamente na violência física. Aliás, esse é um tema que aparece em outros filmes do cineasta, como em "Glória feita de sangue" (Paths of glory, 1957), "Spartacus" (idem, 1960), "Doutor Fantástico"(Dr. Strangelove, 1964) e "Nascido para matar"(Full metal jecket, 1987).
Por que Alex (Malcom McDowell, numa das maiores atuações da história da cinema) é violento ? O filme não se aprofunda muito sobre isso, mas nos dá algumas dicas. Por exemplo, no dia seguinte a mais uma noite da "boa e velha ultra-violência", Alex está no seu quarto, com uma dor nas partes genitais, portanto, não vai a escola. Sua mãe, de forma calma e compassiva, pondera que o filho já não vai a escola há uma semana. Ele enrola a resposta e a mãe, aceitando, volta a mesa para tomar o café da manhã. O pai desconfia do misterioso "trabalho" que o filho faz todas as noites, mas também não toma nenhuma providência sobre o assunto. Ou seja, os pais não estão nem aí com o filho, portanto, Alex pensa que pode tudo.
Quando ele finalmente é preso, começa a violência estatal. Não há dúvida de que Alex merece uma punição pesada, mas daí o Estado passar a utilizá-lo como cobaia num experimento de extirpação do instinto violento, com vistas a fins políticos, vai uma distância muito grande. O dever do Estado é tentar recuperar o criminoso e, se não for possível, tratar de mantê-lo atrás das grades. É claro que o tiro sai pela culatra. O enigmático final do filme, que já rendeu inúmeras interpretações, mostra que o futuro é bem sombrio, com uma possível união entre o poder político e a criminalidade. Coisa que nós, brasileiros, conhecemos muito bem.
"Laranja mecânica" é daqueles filmes que nunca irão envelhecer, do qual cada um tira uma leitura diferente, rendendo debates, na maioria das vezes, muito interessantes. Sem falar que é muito, mas muito bem filmado.
Enfim, é impossível falar desta obra-prima em algumas linhas. O melhor mesmo é ver o filme e tirar suas próprias conclusões.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Diferente, mas igual
Quem conhece o cinema de Dario Argento sabe que o mestre do horror italiano não liga muito para histórias ou para a construção de personagens. Ele está mais interessado na criação de atmosferas pertubadoras, que sugerem ao espectador que há algo errado naquele lugar, fazendo isso através, geralmente, da utilização da cor vermelha nos cenários, de uma câmera altamente móvel, que "anda" pra todos os lados e da música.
Outra característica do diretor italiano são as cenas de morte altamente estilizadas, até coreografadas, o que faz com que as cenas de assassinato em seus filmes sejam bonitas. É isso que se observa, por exemplo, no clássico "Suspiria"(1977).
Em seu mais recente filme, "Giallo, reféns do medo" (Giallo, 2009), Argento retoma esses elementos de uma forma mais leve, pode-se dizer. As cenas brutais estão lá, o vermelho também, mas, desta vez, o diretor parece mais interessado, realmente, em contar uma história e em caracterizar psicologicamente os personagens. Adrien Brody interpreta o inspetor de polícia Enzo Avolfi, que investiga uma série de assassinatos de mulheres bonitas cometidos por um serial killer. Uma das vítimas do psicopata é a modelo Celine, cuja irmã, Linda (Emmanuelle Seigner) junta-se ao inspetor na busca para recuperá-la. Ao contrário dos outros filmes de Argento, temos aqui flashbacks explicativos que mostram tanto a motivação do assassino como a razão de Enzo ser tão taciturno.Ambos compartilham um passado sombrio, que tem reflexo em suas ações no presente. Deste modo, o filme é mais um thriller se suspense, do que propriamente uma obra de horror. Mas, nas cenas de morte, especialmente nos flashbacks, não há dúvida, estamos vendo um filme de Dario Argento.
Para pessoas que se impressionam fácil, é bom passar bem longe desse filme, mas quem já está acostumado com o cinema fantástico de Argento é só sentar e aproveitar.
Outra característica do diretor italiano são as cenas de morte altamente estilizadas, até coreografadas, o que faz com que as cenas de assassinato em seus filmes sejam bonitas. É isso que se observa, por exemplo, no clássico "Suspiria"(1977).
Em seu mais recente filme, "Giallo, reféns do medo" (Giallo, 2009), Argento retoma esses elementos de uma forma mais leve, pode-se dizer. As cenas brutais estão lá, o vermelho também, mas, desta vez, o diretor parece mais interessado, realmente, em contar uma história e em caracterizar psicologicamente os personagens. Adrien Brody interpreta o inspetor de polícia Enzo Avolfi, que investiga uma série de assassinatos de mulheres bonitas cometidos por um serial killer. Uma das vítimas do psicopata é a modelo Celine, cuja irmã, Linda (Emmanuelle Seigner) junta-se ao inspetor na busca para recuperá-la. Ao contrário dos outros filmes de Argento, temos aqui flashbacks explicativos que mostram tanto a motivação do assassino como a razão de Enzo ser tão taciturno.Ambos compartilham um passado sombrio, que tem reflexo em suas ações no presente. Deste modo, o filme é mais um thriller se suspense, do que propriamente uma obra de horror. Mas, nas cenas de morte, especialmente nos flashbacks, não há dúvida, estamos vendo um filme de Dario Argento.
Para pessoas que se impressionam fácil, é bom passar bem longe desse filme, mas quem já está acostumado com o cinema fantástico de Argento é só sentar e aproveitar.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Uma aula de cinema
O protagonista de "Cortina rasgada" (Torn curtain, 1966), de Alfred Hitchcock, o físico nuclear Michael Armstrong (Paul Newman), não é o mais agradável dos personagens. Estamos na Guerra fria, e Armstrong atravessa a Cortina de Ferro, fingindo cooperar com os comunistas, mas, na verdade, os engana, ganhando a confiança de um grande cientista local a fim de aprender seus segredos e levá-los para os Estados Unidos. Apesar de, teoricamente, estar do lado "do bem", a atitude em si do físico americano não é das mais louváveis, afinal, ele se aproveita da boa fé de pessoas que queriam ajudá-lo.
Armstrong é mais um dos protagonistas de caráter duvidoso, mas com um rosto bonito e cheio de charme criados pelo mestre Alfred Hitchcock. O que diferencia o personagem de Newman dos outros tipos hitchcockianos é o seu amadorismo. Afinal, ele é um acadêmico, um cientista, e se enreda numa trama que envolve mortes, tiros, fugas etc. Exemplo disso é a admirável cena do assassinato de Gromek, até hoje chocante. Sem nenhum som, vemos toda a difuculdade que um não-profissional tem de eliminar uma pessoa, não é tão fácil como outros filmes nos fazem parecer. Por essas e outras, "Cortina rasgada" passa longe de ser um fime de propaganda. Afinal, o amrericano não é exatamente um mocinho.
O filme, a meu ver, divide-se em duas partes: a primeira é todo o processo que Armstrong coloca em marcha para arrancar o segredo do professor Lindt; a segunda é a fuga do casal Newman-Julie Andrews, mais uma aula de suspense minstrada por seu mestre maior. Esta parte inclui a ajuda de uma refugiada polonesa (excelente participação de Lila Kedrova) e um clímax extremamente bem encenado num teatro lírico.
A maioria da crítica coloca este entre as obras menores de Hitchcock. Besteira ! É um de seus melhores trabalhos, que só cresce com o tempo. Uma coisa que poderia emperrar o filme, mas não o faz, é o casal de protagonistas. Tanto Paul Newman como Julie Andrews não eram atores tipicamente hitchcockianos, como, por exemplo, James Stewart e Ingrid Bergman, mas, sendo ótimos atores, dão conta muito bem do recado.
Enfim, "Cortina rasgada" é mais uma das muitas obras-primas do maior cineasta de todos os tempos.
Armstrong é mais um dos protagonistas de caráter duvidoso, mas com um rosto bonito e cheio de charme criados pelo mestre Alfred Hitchcock. O que diferencia o personagem de Newman dos outros tipos hitchcockianos é o seu amadorismo. Afinal, ele é um acadêmico, um cientista, e se enreda numa trama que envolve mortes, tiros, fugas etc. Exemplo disso é a admirável cena do assassinato de Gromek, até hoje chocante. Sem nenhum som, vemos toda a difuculdade que um não-profissional tem de eliminar uma pessoa, não é tão fácil como outros filmes nos fazem parecer. Por essas e outras, "Cortina rasgada" passa longe de ser um fime de propaganda. Afinal, o amrericano não é exatamente um mocinho.
O filme, a meu ver, divide-se em duas partes: a primeira é todo o processo que Armstrong coloca em marcha para arrancar o segredo do professor Lindt; a segunda é a fuga do casal Newman-Julie Andrews, mais uma aula de suspense minstrada por seu mestre maior. Esta parte inclui a ajuda de uma refugiada polonesa (excelente participação de Lila Kedrova) e um clímax extremamente bem encenado num teatro lírico.
A maioria da crítica coloca este entre as obras menores de Hitchcock. Besteira ! É um de seus melhores trabalhos, que só cresce com o tempo. Uma coisa que poderia emperrar o filme, mas não o faz, é o casal de protagonistas. Tanto Paul Newman como Julie Andrews não eram atores tipicamente hitchcockianos, como, por exemplo, James Stewart e Ingrid Bergman, mas, sendo ótimos atores, dão conta muito bem do recado.
Enfim, "Cortina rasgada" é mais uma das muitas obras-primas do maior cineasta de todos os tempos.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
O desconcerto do mundo segundo Woody Allen
"Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo". A frase de Renato Russo, da música "Há tempos" da Legião Urbana, poderia perfeitamente servir de epígrafe ao filme de Woody Allen, "Tudo pode dar certo" (Whatever works, 2009). Nele, Larry David vive Boris, um sujeito completamnete neurótico, hipocondríaco, niilista, enfim, um desesperançado da raça humana. Acredita firmemente que não existe nenhum Deus comamdando nosso destino, e que tudo que nos acontece é resultado do acaso. Boris encontra uma jovem chamada Melody (Evan Rachel Wood), uma caipira que fugiu de casa e vai parar no apartamento do misantropo Boris. Não espere o clichê de que ela o modifica e ele se torna um ser humano melhor. Ele continua o mesmo, só que agora passa sua descrença no Homem para a jovem ingênua que, na verdade, apenas repete os seus "ensinamentos" mas não entende nada do que ele diz.
É óbvio que o personagem interpretado por Larry David representa a visão de mundo do próprio Woody Allen. É só dar uma olhada em sua filmografia para constatar que o diretor novaiorquino é ele mesmo um descrente no mundo e no ser humano. Também é óbvio que Allen é ateu, e mostra isso em quase todos os seus filmes. O grande lance, aqui, é o diretor mostrar sua desesperança com o mundo moderno através de dialogos afiadíssimos e muito engraçados. Já virou clássica a tirada de que Deus é um decorador.
Muito tem se falado que os filmes recentes do cineasta representam uma decadência se comparado às peéolas que ele dirigiu nos anos 70 e 80. Pode até ser que seus filmes, a partir da década de 90, tenham sofrido um decréscimo de qualidade, mas, de maneira alguma, são filmes ruins.Muito longe disso. Na verdade, o único trabalho do diretor nesse período mais recente que me deixou um pouco decepcionado foi "Vicky Cristina Barcelona". De resto, gostei de todos os outros. Uns mais, outros menos, mas todos com um talento e uma criatividade impressionantes.
"Tudo pode dar certo" é uma obra divertidíssima sobre, como diria Camões, o "desconcerto do mundo".
É óbvio que o personagem interpretado por Larry David representa a visão de mundo do próprio Woody Allen. É só dar uma olhada em sua filmografia para constatar que o diretor novaiorquino é ele mesmo um descrente no mundo e no ser humano. Também é óbvio que Allen é ateu, e mostra isso em quase todos os seus filmes. O grande lance, aqui, é o diretor mostrar sua desesperança com o mundo moderno através de dialogos afiadíssimos e muito engraçados. Já virou clássica a tirada de que Deus é um decorador.
Muito tem se falado que os filmes recentes do cineasta representam uma decadência se comparado às peéolas que ele dirigiu nos anos 70 e 80. Pode até ser que seus filmes, a partir da década de 90, tenham sofrido um decréscimo de qualidade, mas, de maneira alguma, são filmes ruins.Muito longe disso. Na verdade, o único trabalho do diretor nesse período mais recente que me deixou um pouco decepcionado foi "Vicky Cristina Barcelona". De resto, gostei de todos os outros. Uns mais, outros menos, mas todos com um talento e uma criatividade impressionantes.
"Tudo pode dar certo" é uma obra divertidíssima sobre, como diria Camões, o "desconcerto do mundo".
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
É preciso passar pelo inferno para chegar ao céu
Não é novidade nenhuma afirmar que Martin Scorsese é um cineasta profundamente ligado às suas raízes católicas. Seus personagens estão sempre, direta ou indiretamente, buscando a redenção, expiando os pecados ("Touro indomável"), ou , de forma um tanto torta, tentando salvar o mundo, como se tivessem recebido uma missão divina ("Taxi driver"). As duas coisas ocorrem com o personagem de Nicolas Cage neste belíssimo "Vivendo no limite "(Bringing out the dead, 1999), um subestimado filme do diretor de "Caminhos perigosos", que merece figurar entre as grandes obras do cineasta.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.
Cage interpreta Frank Pierce, um paramédico que trabalha na área mais barra-pesada da Nova Iorque do início dos anos 90. Apesar de estar rodeado de sofrimento por todos os lados, ele gosta do seu trabalho porque pode ajudar as pessoas. "Ajude os outros e ajude a si mesmo" era o seu lema. Ele chega mesmo a afirmar, a certa altura, que, quando cura uma pessoa é como se Deus estivesse agindo por ele. De certa forma, ele se torna Deus. Sua crise começa quando as pessoas socorridas por ele começam a morrer. Como sente que tem uma missão divina, que é ajudar as pessoas, e isso não está mais acontecendo, ele passa a entrar em parafuso, quase se transformando numa reedição do Travis de "Taxi Driver". Pierce encontra uma possibilidade de salvação quando socorre o pai de Mary Burke (Patricia Arquette). Ela parece estar no mesmo inferno que ele e ambos acabam se identificando. É ela que traz um pouco de sanidade para a vida dele. No entanto, Frank ainda não consegue salvar ninguém, todos morrem nas mãos dele, inclusive um bebê. Cage já está tão paranóico que começa a ver os fantasmas das pessoas que não conseguiu salvar, acusando-o de não as ter ajudado. É a auto-punição, a culpa católica, também algo recorrente na obra de Scorsese. Basta lembrar Jake LaMota em "Touro indomável", deixando-se bater por seu oponente no ringue para se punir do modo como tratava sua esposa. Frank Pierce deixa-se punir fazendo aparecer espíritos que o acusam.
O paramédico encontra uma luz no fim do túnel quando passa a "ouvir" a voz do pai de Mary dizendo que não aguenta mais o sofrimento de estar num hospital, entubado, vegetando. Como sua família quer que o mantenham vivo, ele não pode desligar os aparelhos. Mas Pierce está a beira da insanidade, sente que não está cumprindo com sua missão. Então ele decide dar uma última cartada e coloca fim ao sofrimento do velho Burke. E é neste momento que ele parece encontrar a paz. Logo depois ele revê o fantasma da sua primeira perda, uma garota de 14 anos, que lhe diz: "ninguém lhe pediu para sofrer, você que quis assim". Então ele vai até a casa de Mary para lhe dar a notícia. Ela já esperava. Os dois então entram na casa e finalmente conseguem algum repouso. Ambos reencontraram a paz após uma jornada no inferno. A ultima imagem dos dois, deitados no sofá, uma expressão de tranquilidade nos rostos, com uma luz clara invadindo a tela, é lindíssima, uma das mais belas já filmadas por Scorsese.
"Vivendo no limite" é um filme altamente espiritual, mostra que o inferno realmente é aqui, mas a salvação não está longe.
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