quarta-feira, 2 de junho de 2010

Huston é autor por blocos

Os "turcos" do cahiers du cinema, Truffaut à frente, detestavam John Huston, acusavam-no de ser um cineasta sem estilo pessoal definido. Ao contrário de Hitchcock, ou Lubitsch, ele não teria nenhuma característica, ou características, em especial, que o diferenciasse dos demais cineastas.
Estilisticamente isso até pode ser verdade. Huston não era dado a grandes arroubos tecnicos, mas, quanto ao conteúdo e aos personagens ele tem sim uma coerência. Veja-se, por exemplo, O falcão maltês (1941, sua estreia no cinema), O tesouro de Sierra Madre (1948) e O segredo das jóias (1950). Estes três filmes mostram personagens desesperados a procura de algo supostamente muito valioso, colocando a ambição pessoal acima de qualquer consideração moral. Em "O falcão maltês", o detetive Sam Spade (encarnado à perfeição por Humphery Bogart, que criou o arquétipo do detetive durão no cinema) e um punhado de personagens, literalmente se matam na busca pelo falcão do título, uma relíquia de valor incalculável incrustada de pedras preciosas. Quando finalmente ele é encontrado, trata-se de uma enganação, falso. Todo o esforço e as matanças foram em vão. Em "O tesouro de Sierra Madre", a busca pelo ouro nas montanhas mexicanas termina com todo o ouro encontrado sendo literalmente soprado pelo vento. Mais um esforço em vão. Finalmente, em "O segredo das jóias", o assalto a joalheria cuidadosa e meticulosamente planejado, acaba em morte ou em prisão para os envolvidos. Novamente, como diria Shakespeare, muito barulho por nada. Pode-se dizer que os temas principais desses três grandes filmes de Huston são a ambição e, principamente, a inutilidade do esforço.
Outro bloco de filmes que mostra que John Huston era sim um autor com uma visão de mundo particular, é o formado por "Paixões em fúria"(1948) "Uma aventura na África"(1951) e "O céu por testemunha"(1957). Os três filmes mostram personagens, muito diferentes entre si, confinados em um único ambiente, sendo obrigados a conviver em harmonia para sobreviver. Em "Paixões em fúria é um gangster ( Edward G. Robinson) que mantém como reféns numa casa de veraneio personagens que irão, no decorrer da experiência, mostrar quem realmente são. Isolados e acuados, vão ter que esquecer suas diferenças e lidar com a situação, saindo dela invariavelmente mais fortes. No caso de "Uma aventura na África, o capitão de um barquinho mambembe, beberrão e preguiçoso, e uma missionária, terão que atravessar sozinhos as perigosas correntezas das águas africanas, a fim de fugirem dos alemães durante a primeira guerra mundial. Também vão ter que resolver suas diferenças a fim de sobreviver. Já em "O céu por testemunha", durante a segunda guerra mundial, um soldado americano vai parar numa ilha aparentemente deserta. No entanto, logo ele descobre que não está ali sozinho, tem a companhia de uma freira. Os dois opostos novamente terão que unir forças a fim de se manterem vivos.
Há quem diga que a complicada produção de "Freud, além da alma"(1962), "libertou" Huston para, dali em diante, ele realizar filmes com muito mais densidade psicológica. O que parece ser verdade, já que é a partir daí que aparecem as grandes obras hustonianas, como "A noite da iguana"(1964), o excepcional "Os pecados de todos nós"(1967) com uma atuação magnífica de Marlon Brando, o faroeste surrealista "Roy Bean, o homem da lei"(1972), o denso drama "A cidade dos desiludidos"(1972), o angustiante "À sombra do vulcão"(1982), a deliciosa paródia dos filmes de máfia "A honra do podreoso Prizzi"(1985) e, finalmente, seu testamento cinematográfico com "Os vivos e os mortos"(1987), o qual ele dirigiu numa cadeira de rodas e com um tubo de oxigênio.
É claro que Huston fez sua quota de filmes ruins ( O bárbaro e a gueixa, Caminhando com o amor e a morte, Fuga para vitória e poucos mais), mas, no geral, sua obra é muito sólida e há sim a marca de seu realizador. Se não de forma contínua, mas aos "pedaços", com blocos de filmes com os mesmos temas, desenvolvidos ora como drama, ora como comédia, ora misturando os dois. John Huston merece, de fato, estar entre os grandes do cinema americano. Além disso, ele era também um grande ator, basta ver sua atuação em "Chinatown"(1974), de Roman Polanski.

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