Será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora"?(Sunrise, 1927) ? Dirigido por um dos mais importantes cineastas da sétima arte, o alemão F.W.Murnau, em sua estreia nos EUA, o filme é ainda do período mudo, mas é tão bom que nem nos damos conta disso. O enredo é simples: George O´Brien é um rapaz do campo, casado com Janet Gaynor ( ganhadora do Oscar por sua interpretação), que é seduzido por uma mulher da cidade. Ela o convence a matar sua esposa e ir embora com ela. Mesmo hesitante ele aceita a proposta, mas na hora H recua. Sua esposa foge desesperada, ele a alcança e depois de muito esforço faz as pazes com ela. Os dois, então, passam um dia inesquecível, divertindo-se como nunca antes. Na hora de voltar para casa, no mesmo barco no qual ele tentou assassiná-la, desaba uma violenta tempestade, o barco vira. Os dois acabam se salvando e o filme termina com a aurora do título. O filme acaba, mas o amor deles recomeça mais forte do que nunca.
Contando a história assim, ainda por cima sem som, tem-se a impressão de que é um filme monótono, sem graça. Puro engano. Murnau enche a tela de imagens lindíssimas. Longe, no entanto, de serem meramente decorativas, elas tem uma força expressiva impressionante. Só para citar duas cenas memoráveis: a primeira, quando eles estão no barco e vemos o olhar atormentado de O´Brien preparando-se para praticar o assassinato. Toda a sequencia no barco, com o cachorro soltando-se da corrente e pulando na água ao encontro de sua dona, percebendo instintivamente o que está para acontecer, até o momento em que Gaynor, de mãos juntas em oração, suplica ao marido que não a mate e ele finalmente desiste, é uma aula de direção cinematográfica; a segunda cena inesquecível é quando O´Brien e Gaynor fazem as pazes. Os dois caminham pelas agitadas ruas da metrópole e, de repente, se beijam. Subitamente, toda a confusão da cidade pára, os carros e as pessoas somem e o casal reconciliado encontra-se num campo verdejante, cheio de árvores e bosques, representando a paz que eles reencontraram. É o mais perto que o cinema chegou até hoje da representação da essência do sentimento amoroso.
O filme tem de tudo: drama, romance, comédia, suspense, aventura ( na sequencia da tempestade). Resumindo, Murnau filmou a vida, com suas alegrias e tristezas, surpresas e decepções. E filmou, sobretudo, o ser humano, com suas falhas e virtudes e com a possibilidade de uma segunda chance. O casal passa por todos os estágios da existência humana num único dia. E, no fim, eles renascem, para começar novamente o ciclo da vida. Só que, desta vez, eles estão mais sábios e vão saber desviar dos percalços no caminho. Não de todos, é claro, pois a vida sempre reserva surpresas, mas irão ter força suficiente para enfrentar tudo de cabeça erguida, sabedores que são de que depois de uma tempestade sempre vem a calmaria.
Murnau realizou outros filmes fascinantes. Só para citar duas de suas obras-primas, podemos lembrar de "Nosferatu" e "A última gargalhada", mas "Aurora" permanece imbatível.
Respondendo à pergunta do começo deste texto; será que existe, na história do cinema, filme mais bonito que "Aurora" ? A resposta é fácil: não, não existe.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
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