quinta-feira, 3 de junho de 2010

Billy Wilder e o humano ridículo

Se a obra de Billy Wilder falasse, ela diria : como o ser humano é ridículo ! Desde sua estreia como diretor em 1942 com "A incrível Suzana", até seu último filme "Amigos amigos negócios à parte" em 1983, Wilder nunca teve o ser humano em grande conta.
Para escapar de situações embaraçosas, ou para subir na vida, os personagens de Wilder fazem de tudo, por mais patético que seja. Em "A incrível Suzana", por exemplo, para pagar uma passagem de trem pela metade do preço, Ginger Rogers finge ser uma garotinha de 12 anos. Ela passa quase todo o filme segurando uma bexiga e chupando um pirulito (nos tempos politicamente corretos de hoje será que Wilder se safaria dessa ou iriam acusá-lo de pedofilia ?). Uma adulta fingindo ser criança para pagar menos por uma passgaem de trem ! Sim, patético, muito.
Quase sempre, em seus filmes, esta situação é levada como comédia (normalmente com diálogos maravilhosos),mas também, por vezes, é abordada de maneira séria e até trágica, como é o caso de "Pacto de sangue"(1943). Para colocar as mãos no seguro de vida de seu marido, Barbara Stanwyck planeja sua morte, junto com o corretor de seguros Fred Macmurray. A morte tem que parecer um acidente para que eles ponham a mão na bolada. Mas é óbvio que o plano falha e os dois acabam morrendo.
A personagem símbolo desse espetáculo do ridículo orquestrado por Wilder ao longo de sua obra é, sem dúvida nenhuma, a Norma Desmond de "Crepúsculo dos deuses"(1953), personificada por Gloria Swanson. Atriz da época do cinema mudo que se recusa a aceitar que seu tempo já passou, contrói um mausoléu particular no qual ela é o centro de tudo. Fora dali, no entanto, ninguém se lembra que ela existe. Quando alguém menciona seu nome, a outra pessoa invariavelmente diz: "Norma Desmond ? Ela já não morreu ?" Além de pensar que ainda é uma grande estrela, ela também se acha jovem e se comporta como tal. Nesse sentido, o gigolô interpretado por William Holden mata a charada quando diz:"Não há nada de errado em se ter 50, a não ser que se pense ter 20 ! Há muitas Normas Desmonds espalhadas por aí, inclusive aqui no Brasil, é só ligar a televisão...
Tom Ewell, em "O pecado mora ao lado"(1955) também tem seu quê de ridículo. Sozinho em seu apartamento depois de ter mandado a esposa e o filho para o litoral passar férias, ele se sente atraído pela nova vizinha do apartamento de cima, Marilyn Monroe. Atormentado, ele imagina toda a espécie de situação, como sua mulher descobrindo tudo e atirando nele e, também, para aliviar a "culpa", ele imagina sua própria mulher o traindo ! No entanto, nada acontece, Marilyn é apenas uma moça ingênua que nem sequer é consciente de sua sensualidade (Aliás, como Marilyn Monroe tinha jeito para comédia, impressionante ). Este filme diz muito mais sobre fidelidade, ou infidelidade, do que muitos outros pretensamente sérios sobre o mesmo assunto.
Mas a lista de personagens patéticos continua, e vai desde um escritor alcoólatra ("Farrapo Humano"), passando por dois homens vestidos de mulher ("Quanto mais quente melhor") até um funcionário subalterno que, para subir de cargo, se presta a emprestar seu apartamento para seu chefe manter encontros extraconjugais ("Se meu apartamento falasse").
E Billy Wilder mostra esse ridículo humano, não com tristeza, ou melancolia, mas com um sorriso nos lábios, colocando um espelho a nossa frente e dizendo :vocês não têm capacidade de resolver seus problemas de forma digna e honesta, mas, não vamos chorar por causa disso, afinal, ninguém é perfeito.

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