Em "O bígamo" (The bigamist, 1953) um comerciante bem sucedido e bem casado envolve-se num romance em uma de suas viagens de negócios. Sua esposa decide adotar uma criança, pois ela não pode ter filhos. Enquanto isso, a amante engravida e ele acaba preso por bigamia.
Esta história é um prato cheio para um diretor menos capacitado colocar toneladas de música lacrimosa, cenas abundantes de choro e desespero, discussões acaloradas, até o grande verdicto final. Mas a história caiu nas mãos de Ida Lupino e a diretora fez um trabalho surpreendente. Nada do que esperamos ver em um enredo desse tipo acontece. A música é discreta, os atores são contidos. A estrutura do filme é muito simples, sem exibicionismos de natureza alguma. O tratamento dado aos personagens também impressiona pela discrição. Quando Joan Fontaine ( a esposa "oficial") descobre a traição do marido Edmond O´Brien, ela não faz um escarcéu. Fica triste, chora, mas tudo de forma contida. Do mesmo modo, a segunda esposa, a própria Ida Lupino , quando fica grávida, não faz o gênero megera, obrigando O´Brien a casar-se com ela. É ele, aliás, que insiste para que se casem. Quando, por um acaso, Lupino vê o casal andando na rua e depois o confronta, a cena não tem gritaria, nem objetos voando pela casa e se quebrando de forma estripitosa. Tudo é muito discreto, sem ênfase.
Na cena final, no tribunal, Edmond O´Brien não é apresentado como um monstro sem coração, aproveitador de duas mulheres inocentes. Nós, os espectadores, não sentimos raiva dele, e o que é mais surpreendente, as duas mulheres também não. Olham para ele como se fosse uma criança que fez uma travessura, uma grande travessura, mas sabem que na verdade ele é um bom garoto. Sem acusações, sem discursos inflamados de advogado e promotor, tudo é dito no olhar dos três atores, por sinal, excelentes atores.
Mas a maior ousadia da diretora foi terminar o filme de forma aberta. O juíz diz que o veredicto sairá dali a um semana. Os espectadores ficam esperando qual será a setença, e de repente o filme termina. Lupino não quer saber o que a sociedade pensa, importa apenas o que os três envolvidos sentem e isso ela já havia mostrado no tribunal. É a única sentença que importa.
Antes de se tornar diretora, Ida Lupino já era uma atriz de grande talento, tendo participado de importantes filmes, como "Seu último refúgio", de Raoul Walsh, "Cinzas que queimam", de Nicholas Ray, "A grande chantagem", de Robert Aldrich, "No silêncio de uma cidade", de Fritz Lang, entre outros. Como diretora, sempre realizou filmes indepedentes, na companhia que fundou junto com o marido. Isto lhe permitiu certa liberdade para dirigir os filmes da forma que quisesse. Abordou temas ousados para a época, como o estupro e o aborto. Infelizmente a companhia não teve lucro e ela foi obrigada a se voltar para áreas mais comerciais a fim de poder continuar trabalhando. Foi quando dirigiu episódios de séries de televisão como "Bonanza", "Os intocáveis", "Big Valley", entre outros.
No entanto, a marca que deixou em filmes como esse "O bígamo", garante para ela um lugar especial na galeria dos grandes cineastas americanos. Infelizmente seus filmes ainda são muito raros, tanto na televisão como em dvd. Esperamos que essa lacuna seja reparada logo e que seus filmes comecem a ser lançados.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário